Edificio Cruzeiro
Auditório Carlos Avilez
7 a 11 Julho
Sessões às 18h30 e 21h00
Em homenagem a David Lynch, inesperadamente falecido no passado dia 16 de Janeiro, pouco antes de chegar aos 79 anos, e celebrando também a longevidade de Mel Brooks, acabado de completar 99 (!), a Fundação D. Luís I, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, organiza um pequeno ciclo de dez filmes, no Auditório Carlos Avilez, na Academia de Artes do Estoril, Edifício Cruzeiro, dedicado aos dois cineastas.
Ciclo de Cinema no Cruzeiro
David & Mel
Como? O que têm em comum “o último dos surrealistas” e um dos mais célebres clowns da comédia americana?
À primeira vista, pouco. No entanto, estamos a falar de dois verdadeiros e absolutos autores, donos de universos muito próprios e inconfundíveis, que influenciaram meio mundo e puseram o resto a imitá-los. Une-os, por exemplo, a apetência pelo absurdo e pelo grotesco, o que pode ajudar a explicar que, a dada altura, Brooks tenha servido de inusitado “mentor” para Lynch…
A “culpa” foi de “Eraserhead/No Céu Tudo É Perfeito” (1977). Pesadelo em forma de filme rodado ao longo de cinco anos por um estudante de Belas Artes e o seu grupo de amigos (incluindo alguns futuros colaboradores inseparáveis, como Jack Nance, Jack Fisk ou Frederick Elmes), fica como uma das longas-metragens de estreia mais singulares de sempre. Fazendo a ponte entre a “arte e ensaio” e o underground, esta história de um pacato rapaz de cabelo vertical, a sua mulher e o bebé monstruoso de ambos pode ser vista como uma comédia (negríssima) sobre o medo da paternidade e do compromisso, a materialização, directa e pura, do id de Lynch, à época acabado de ser pai e a viver num bairro degradado de Filadélfia. Quem disse que o filme era o equivalente a olhar durante hora e meia para o plano do olho cortado no “Un chien andalou/Um Cão Andaluz” (1929) de Buñuel e Dali não andava muito longe da verdade… Tornou-se um mítico midnight movie, exibido em sessões da meia-noite que deixavam perplexos os espectadores que corajosamente o enfrentavam.
Entre eles, estava Mel Brooks, que, fascinado com tamanha bizarria, contratou Lynch para realizar, para a sua recém-criada Brooksfilms, “The Elephant Man/O Homem Elefante” (1980), baseado na história verídica de John Merrick, um homem gravemente deformado que foi uma cause célèbre na Inglaterra do século XIX. Não será abusivo pensar nele como a versão adulta da malformação fetal de “Eraserhead”, ao qual o filme vai também buscar o preto e branco (aqui sumptuosamente captado por Freddie Francis, veterano da Hammer) e o ambiente de inferno “maquinal”, todo ele feito de sombras, vapores e ruídos metálicos (aquele drone lynchiano tão típico), que subjaz aos “encantos” da Revolução Industrial e à hipocrisia da sociedade vitoriana. Como se os impulsos do expressionismo e dos monster movies viessem rasgar o melodrama de prestígio… O fantasma de Tod Browning e do seu maravilhoso “Freaks/A Parada dos Monstros” (1932) paira sobre este comovente hino à diferença, de uma delicadeza à prova de qualquer sentimentalismo, reflectindo sobre noções de humanidade e aparência. Se John Hurt é extraordinário no papel principal, Anthony Hopkins não o é menos, como o médico protector de Merrick, havendo ainda espaço, num elenco superlativo, para a participação especial da cara-metade de Mel Brooks, a grandiosa Anne Bancroft (é dela um dos momentos mais pungentes do filme, a lindíssima e shakespeariana cena que compõe com Hurt). O resultado? Uma chuva de nomeações (não concretizadas) para os Óscares e as portas de Hollywood escancaradas para Lynch, que nunca escondeu o apreço pelo amigo Mel, por lhe ter concedido a total liberdade criativa que tanta falta lhe fez depois, ao cair nas garras de Dino De Laurentiis com “Dune/Duna” (1984)…
Humildemente, Brooks preferiu não aparecer creditado como produtor para que nenhum espectador incauto fosse induzido em erro, pois o seu nome era já há muito sinónimo de hilaridade. Um dos maiores representantes da escola do humor judeu (uma longa e ilustre tradição que vai dos Irmãos Marx a Jerry Seinfeld, passando por Jerry Lewis, Woody Allen, Lenny Bruce, Elaine May, Andy Kaufman ou Larry David), autêntica “instituição” do entretenimento americano, Brooks é um dos poucos EGOT, tendo conquistado os principais prémios da indústria – Emmy, Grammy, Óscar e Tony – ao longo de uma carreira que se estende pelo cinema, TV, teatro e stand-up. Quem ri (e faz rir) seus males espanta? Parece ter sido desde sempre esse o credo deste filho de Brooklyn, que sobreviveu ao trauma da morte prematura do pai e aos horrores da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial (na qual combateu). Quando se estreou por fim no cinema, fê-lo logo com uma das suas obras máximas: “The Producers/O Falhado Amoroso” (1967). Sátira tresloucada do mundo da Broadway, na qual um produtor teatral falido (o lendário Zero Mostel, na sua criação mais bigger than life) e um tímido contabilista (Gene Wilder, que se tornava assim uma estrela instantânea, sedimentando a sua persona de eterno neurótico) procuram enriquecer escolhendo um flop inevitável que, no entanto, acaba por se revelar um êxito estrondoso, é uma gloriosa celebração do mau gosto. Pegando na memória do musical e do vaudeville, Brooks faz do excesso e do kitsch as suas armas, culminando na peça em si, a estapafúrdia Springtime for Hitler, um mimo do mais puro camp. Apesar do Óscar de Melhor Argumento, o filme não foi um êxito imediato, mas, com o tempo, ganhou o estatuto de cult movie. E como a vida tantas vezes imita a arte, Brooks acabou por transformá-lo, em 2001, também num musical de sucesso, com direito inclusive à sua própria adaptação cinematográfica e a uma saborosíssima “reencarnação” televisiva no “Curb Your Enthusiasm/Calma, Larry” (2000-2024) do discípulo Larry David…
A seguir, o realizador atirou-se à literatura russa, com uma adaptação de um romance de 1928, “The Twelve Chairs/Balbúrdia no Leste” (1970), farsa picaresca e de ritmo imparável ambientada nos primórdios da União Soviética que põe um ex-aristocrata (Ron Moody), um arrivista (Frank Langella) e um padre venal (Dom DeLuise) à caça de uma fortuna escondida numa de doze cadeiras. Filme “secreto” e pouco visto, funciona como uma espécie de “lado B” do cinema de Brooks pelo seu comedimento (dentro do que é possível em Brooks, claro) e pela visão surpreendentemente desencantada da natureza humana. Com a lição bem aprendida de “The Producers”, neste estudo do materialismo e da cobiça (estabelecendo assim um curioso raccord com outro Brooks mais atípico, “Life Stinks/Porca de Vida”, de 1991), tudo assenta uma vez mais no jogo da dupla central e na subtil dinâmica (uma mini “luta de classes”) que se estabelece entre o descontrolo “animalesco” de Moody e a reserva quase “nobre” de Langella, com Brooks a mostrar-se de novo um exímio director de actores, mestre na arte do timing, ferramenta essencial, como se sabe, para a comédia.
Após um par de filmes de culto, a explosão nas bilheteiras em 1974, o ano da graça de Mel, com “Blazing Saddles/Balbúrdia no Oeste” e “Young Frankenstein/Frankenstein Júnior”. Duas obras-primas e dois filmes “irmãos”, dir-se-ia mesmo “gémeos”, parodiando anarquicamente o western e o cinema de terror, numa sucessão descabelada de gags irresistíveis onde brilha toda uma galeria de figuras excêntricas servida pela trupe habitual de Brooks (o comparsa-mor e saudoso Wilder à cabeça, mas também Madeline Kahn, Harvey Korman, Cloris Leachman, Kenneth Mars ou Marty Feldman). Uma espécie de canibalismo cinematográfico muito pós-moderno, cheio de piscadelas de olho cinéfilas e com os actores a quebrar frequentemente a “quarta parede”, convocando directamente o espectador a participar na brincadeira. O ensinamento que daqui se retira é simples, mas passou ainda assim despercebido dos múltiplos copistas do realizador: o segredo para uma boa paródia é amar os géneros que se pretende desmontar. Mais politicamente incorrecto o primeiro (ou não fosse um dos argumentistas Richard Pryor), vira do avesso os estereótipos raciais do western, mandando às urtigas a sobriedade e propondo nova declinação do buddy movie, desta feita através do duo formado por um xerife negro (Cleavon Little em vez de Pryor, que o estúdio vetou) e um pistoleiro alcoólico em busca da redenção (Wilder). Mais “controlado” o segundo, fabulosa recriação dos clássicos de terror da Universal, em especial da poesia operática dos monumentais “Frankenstein” (1931) e “The Bride of Frankenstein/A Noiva de Frankenstein” (1935) de James Whale. Tudo está no sítio certo, do preto e branco aos cenários (incluindo uma réplica exacta do laboratório utilizado por Whale), não por mera macaquice mas por um genuíno desejo de Brooks de dialogar com a História do cinema e, ao mesmo tempo, de se inscrever nela. Abundam as cenas memoráveis, mas talvez a melhor de todas seja a do encontro do monstro (magnífico Peter Boyle) com o eremita cego interpretado por Gene Hackman (a quem assim se presta igualmente tributo, após ter também morrido este ano) num divertidíssimo cameo.
Depois da vénia ao slapstick da era do mudo – “Silent Movie/A Última Loucura de Mel Brooks” (1976) –, o cineasta fechou uma década verdadeiramente prodigiosa com “High Anxiety/Alta Ansiedade” (1977). Desta vez, o “alvo” da autofagia do realizador é Hitchcock, a quem o filme é afectuosamente dedicado e que deu a bênção a Brooks para que avançasse para esta digressão humorística pelos temas e motivos do “Mestre do Suspense”. No centro de tudo, o próprio Mel, na pele de um psiquiatra acrofóbico que vai trabalhar para um hospício para “gente muito, muito nervosa”. O amor do travesso Brooks por Hitch é evidente a cada passo de uma intriga rocambolesca onde cabem pelo menos duas ou três sequências de antologia, como a da orquestra sinfónica muito “bernard-herrmanniana” a passar de autocarro, a câmara voyeurística que acaba por partir uma porta envidraçada e recua, envergonhada, ou o ataque escatológico de um bando de pássaros ao nosso pobre herói e “falso culpado”. Além, claro, da contagiante canção-título, composta e interpretada por Mel, mais outro extravagante momento musical numa obra repleta deles.
A partir dessa altura, as tropelias cinéfilas de Brooks abrandaram, mas a sua influência nem por isso, como o demonstra a importantíssima actividade da sua produtora, responsável, por exemplo, por outro grande filme dos anos 80, “The Fly/A Mosca”, o remake em forma de tragédia romântica que David Cronenberg fez do homónimo clássico de FC dos fifties. Foi em 1986, o ano que marcou também o verdadeiro início do culto de Lynch, com o realizador a lamber as feridas do falhanço da adaptação da épica saga espacial de Frank Herbert, “Dune”, e a regressar com um projecto bem mais pessoal, o icónico “Blue Velvet/Veludo Azul”. Iniciação ao sexo e à violência, ao seu fascínio e horror, em tons de fábula negra, a que não faltam um ogre (sinistro, patético e inesquecível Dennis Hopper, com o antigo símbolo da contracultura e da Nova Hollywood a “ressuscitar” como psicopata para todo o serviço em Hollywood depois de ter garantido ao realizador: “eu sou Frank Booth”), uma donzela em apuros (Isabella Rossellini, numa interpretação despojadamente destemida) e um cavaleiro andante (Kyle MacLachlan, o alter ego lynchiano por excelência), e onde uma orelha cortada é a porta de entrada para um submundo de perversão e sadomasoquismo. Lynch utiliza as convenções e os clichés do thriller como “esqueleto” para explorar a crueldade e a decadência que se escondem sob a superfície de respeitabilidade e decência da América das cercas brancas e das tartes de maçã. O filme constrói-se à volta de uma série de opostos – bem e mal, luz e escuridão, inocência e corrupção – que o realizador depois baralha e dilui, numa visão perturbante de profunda ambiguidade moral. E aquele rol de weirdos é ainda hoje insuperável: Brad Dourif, o obrigatório Jack Nance e, claro, Dean Stockwell e o seu fulgurante playback do “In Dreams” de Roy Orbison… Um clássico moderno.
Com a sua poupa impecável, as camisas imaculadamente abotoadas até acima e os seus modos educados de escuteiro, Lynch converteu-se de imediato no rei do cool, um artista radical politicamente conservador ou, na descrição certeiríssima de Brooks, “Jimmy Stewart de Marte”. Que em 1990 teve a sua consagração universal, primeiro com a divisiva Palma de Ouro em Cannes a “Wild at Heart/Um Coração Selvagem”, road movie novamente polvilhado de alusões a “O Feiticeiro de Oz” (1939), uma das obsessões do cineasta; e depois com o fenómeno “Twin Peaks” e Laura Palmer a entrar pelas salas de estar do mundo inteiro, embrulhada em plástico. O cinema chegava à televisão e, no reino do pequeno ecrã, há claramente um antes e depois da estreia da série. Quando o realizador decidiu a ela voltar para uma prequela, «Twins Peaks: Fire Walk With Me/Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer” (1992), a febre já tinha passado e muitos viram nele uma mera operação de puro cinismo. Um dos mais incompreendidos e vilipendiados filmes de Lynch, sintetiza toda a obra anterior do cineasta e aponta para o que viria a seguir, com a progressiva libertação das amarras narrativas, rumo a um experimentalismo que seria impossível de perseguir na TV generalista (a primeira imagem pós-genérico diz logo tudo: um televisor a ser destruído…). Com o enigma central há muito resolvido (quem matou Laura Palmer?), Lynch diverte-se a puxar o tapete ao espectador e a frustrar-lhe sistematicamente as expectativas: os acordes da famosa música de Angelo Badalamenti só se ouvem passado meia hora e, antes disso, a história nem decorre em Twin Peaks mas noutra terrinha, numa investigação liderada não por Dale Cooper mas por dois outros agentes do FBI que rápida e misteriosamente desaparecem. Nesse prólogo, o realizador parece querer dar-nos um cheirinho dos ingredientes para o êxito da insólita soap opera, sobretudo aquele humor muito idiossincrático que simultaneamente celebra e subverte os valores da middle America onde Lynch viveu uma infância aparentemente idílica. Mas, depois disso, a seriedade vai ser completa, com o filme a descartar a maioria das personagens que serviam de comic relief na série e a centrar-se nos deprimentes momentos finais da homecoming queen e aluna de eleição supostamente perfeita… A presença de Cooper pouco mais é do que um cameo, não há Diane nem pies, apenas uma sordidez doentia, numa meditação sobre a desagregação da sagrada instituição da família por via de um sem-fim de pesadelos, flashbacks e visões. Como não podia deixar de ser num óvni assim, o cast é absolutamente heteróclito, reunindo as jovens “descobertas” da série (desde logo, Sheryl Lee), cantores (Chris Isaak e David Bowie), vedetas em ascensão (Kiefer Sutherland) e celebrados character actors (Harry Dean Stanton). Um filme que urge redescobrir sem preconceitos…
Se “Blue Velvet” é justamente considerado um dos títulos mais marcantes do século XX, “Mulholland Drive” (2001) será porventura o melhor filme que o novo milénio nos deu até agora. Apogeu do movimento de regresso ao início no cinema de Lynch, ao onirismo e surrealismo sem freios de “Eraserhead” e às pulsões que lhe são mais caras, esta “história de amor na cidade dos sonhos” (as palavras são do realizador) alia aos elementos do “noir” – ecos de “Gilda” (1946) e “Sunset Boulevard/O Crepúsculo dos Deuses” (1950) – uma sensualidade entorpecedora e um erotismo embriagante. Distorções espacio-temporais, estranhos anões e objectos mágicos são pistas para um sonho (pesadelo?) deslumbrante que revelou duas presenças inolvidáveis: Naomi Watts e Laura Elena Harring, Betty e Rita, a inocente e a “femme fatale” (ou será ao contrário?), mais um exemplo do enlevo do cineasta pela ideia dos duplos, em sentido literal e figurado. Hipnótica e auto-referencial, a estrada labiríntica de Lynch, feita de apaixonantes mistérios, desvios e tangentes, é também um filme sobre o cinema e uma carta de amor a Los Angeles. Que belo double bill faria com o “Into the Night/Pela Noite Dentro” (1985) de John Landis…
O visionário que também foi pintor, músico, praticante de meditação transcendental e meteorologista amador deixou-nos, mas no Céu tudo é perfeito. E na Terra também, se ainda tivermos direito a mais uma loucura brooksiana… RIP, David. Longa vida, Mel!
Vasco T. Menezes
Os Filmes do Ciclo
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




Avaliações
Ainda não existem avaliações.