Auditório Carlos Avilez
Academia de Artes do Estoril
Edifício Cruzeiro
2, 9, 16, 23 e 30
Mar ’26
Sessão às 21h00
26 Jan 18h30 / 21h
2026 ANO DE TODOS OS GÉNEROS
Em 2026, (quase) todos os géneros cinematográficos irão dar ao Auditório Carlos Avilez, no Estoril. Ao longo do ano e todas as segundas-feiras (salvo honrosas excepções), a Fundação D. Luís I propõe um programa que (re)visita alguns dos principais exemplos desses modelos que nasceram com a Sétima Arte e que se enraizaram enquanto formas de contar histórias por meio de imagens e sons.
Cada género terá direito ao seu mês. Começamos pelo “género dos géneros”, o western, principal criador de mitos sobre o nascimento e a gesta de uma nação, a América. Seguir-se-ão muitos outros, da comédia ao terror, do musical à ficção científica, com paragens de permeio nos apeadeiros do melodrama, do thriller ou da animação, entre outros. A viagem terá como centro a “fábrica de sonhos” por excelência que foi a Hollywood clássica, mas espraiar-se-á por diversas épocas, geografias e latitudes, num movimento que se estende por uma pluralidade de contextos socioculturais e que, como não podia deixar de ser, funcionará também como (mais) uma mini História do Cinema.
A cada passo, identificaremos fórmulas e códigos, mas também a subversão de convenções, temas e estilos, traçando-se assim os contornos de universos em permanente mutação e actualização, longe de eventuais realidades cristalizadas. Por isso mesmo, a par de artesãos e “cineastas de género”, encontraremos igualmente autores das mais díspares sensibilidades, nuns casos pegando nessas “molduras comuns” para melhor explorar obsessões pessoais e idiossincrasias muito particulares, noutros “apagando-se” voluntariamente perante a força de arquétipos entronizados e assim paradoxalmente se reinventarem.
Entre a alegria do reconhecimento e o prazer da surpresa, entre o cânone e as suas múltiplas declinações, não faltarão portanto motivos de fruição de um “jogo” onde caberiam naturalmente outros tantos (sub)géneros e intervenientes. Que venham os próximos capítulos…
Vasco T. Menezes
No Merriam Webster Dictionary a definição de género é a seguinte: a category of artistic, musical, or literary composition characterized by a particular style, form, or content, o que significa que é uma designação que pode ser aplicada praticamente a todas as manifestações artísticas, desde a literatura ao cinema, passando pela música, pelas artes visuais e performativas.
No cinema, género é uma categoria lata que classifica as produções cinematográficas com base em determinadas características partilhadas que incluem convenções narrativas, temas e estilos visuais. Estas categorias fornecem uma moldura para o modo como se compreendem e interpretam os filmes, permitindo igualmente antecipar de alguma maneira as reações e expectativas do(s) público(s). Os géneros podem subdividir-se em subgéneros, i. e., categorias mais especializadas que apresentam traços específicos, como temas, cenários ou elementos estilísticos (estilemas): por exemplo, os filmes de terror têm vários subgéneros que facilitam a identificação de certos modelos narrativos (gore é um caso). Por outro lado, importa referir que quer géneros quer subgéneros podem ser objecto de contaminação: provavelmente será difícil encontrar na presente realidade da produção cinematográfica mundial exemplos de géneros ou subgéneros “puros”, como acontecia no cinema clássico.
Ao longo de 2026 a Fundação D. Luís I irá percorrer, no Auditório Carlos Avilez, muitos géneros e subgéneros cinematográficos apresentando filmes cuja genologia é mais ou menos facilmente identificável.
STM
CINEMA NO CRUZEIRO
MÊS DA MELODRAMA
2, 9, 16, 23 e 30 de março de 2026, no Cruzeiro
Frequentemente aparentado com o género teatral homónimo que nasceu no século XVIII e se desenvolveu sobretudo no século XIX, o melodrama como género cinematográfico é na realidade uma coisa bastante diferente, se bem que talvez seja, entre todos os géneros, aquele tem antecedentes culturais mais complexos. Pode de facto considerar-se como filho do romance e reconhecer que está presente em todas as cinematografias do mundo.
O elemento narrativo que caracteriza e identifica o melodrama é a impossibilidade de realização do amor (motivo central de toda a literatura ocidental, segundo Denis de Rougemont) que no entanto se manifesta não como adiamento ou equívoco resolvido no final feliz mas como impossibilidade, destino, negação. O amor feliz, como disse o formalista V. Chklóvskii, não dá “estória”. O obstáculo, o impedimento da normal resolução da paixão é que tornam a “estória”, como explicou S. Freud, muito mais rica, mítica e memorável. Por isso, este tema narrativo teve tanto êxito, sobretudo até entrar em crise, como quase todos os géneros tradicionais, no final dos anos 60, para regressar, mas sem o mesmo impacto, no final dos anos 70 e durante os anos 80, em que se assume como revisão crítica promovida por alguns realizadores de forte personalidade artística: R. Fassbinder, Die Ehe der Maria Braun/ O Casamento de Maria Braun (1978), F. Truffaut, La femme d’à coté/ A Mulher do Lado (1981) e K. Reisz, The French Lieutenant’s Woman/A Mulher do Tenente Francês (1981), por exemplo.
E esclareça-se que o amor obstaculizado do melodrama não é obrigatoriamente passional, entre um homem e uma mulher, podendo ser, sempre com extraordinário êxito de público, entre pais e filhos, o que alarga sobremaneira o âmbito do género.
2 Mar | 21h
O Monte dos Vendavais/ Wuthering Heights
(1939) Realização: William Wyler | Intérpretes: Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven, Flora Robson, Donald Crisp, Hugh Williams, Geraldine Fitzgerald, Leo G. Carroll. | 103 minutos. Legendado em português.
Com argumento de Ben Hecht, Charles MacArthur e John Huston (não indicado no genérico) a partir da obra de Emily Bronte e fotografia de Greg Toland, O Monte dos Vendavais, apesar da sensibilidade apurada do realizador no tratamento das situações exasperadas e cruéis e de ser bastante “legível”, não partilha muitas coisas com o sombrio texto literário original. Restam os elementos essenciais, que também são os mais superficiais: as névoas da charneca (cujos claro-escuros valeram o Oscar da fotografia a Toland), o temperamento tenebroso de Heathcliff (interpretado por um Olivier que tem aqui o primeiro verdadeiro contacto com o cinema), por exemplo. Eis, na verdade, uma versão adocicada, romântica e pouco inquietante, brontiana no que respeita à ganga narrativa mas não ao sentido, se bem que tenha garantido um grande êxito de público ao produtor (que se intrometeu em vários aspectos do filme para satisfazer os caprichos de Merle Oberon): agradou o tormento do amor “além da morte” e funciona bem o par apaixonado e elegante de Olivier-Oberon.
Recorde-se a adaptação buñueliana do romance: Cumbres borrascosas (1953).
STM
9 Mar | 21h
Fúria de Viver/ Rebel Without a Cause
(1955) Realização: Nicholas Ray | Intérpretes: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran, Corey Allen, William Hopper, Edward Platt, Dennis Hopper, Steffi Sidney, Marietta Canty, Nick Adams. | 111 minutos. Legendado em português.
Ligado, na memória dos espectadores, à figura de James Dean, Fúria de viver foi recebido, na estreia, como um documento sobre os ritos da juventude norte-americana dos anos 50. História de uma brusca e dolorosa passagem à idade adulta, desenrola-se segundo a regra das três unidades aristotélicas: de tempo (o acontecimento, integrado no âmbito de 24 horas, começa na noite de Páscoa e conclui-se no dia seguinte), de lugar (a casa dos pais de Jim, a universidade, o casarão abandonado e os seus arredores) e de acção (a luta de Jim contra os seus antagonistas: os pais, a polícia, Buzz e o seu grupo). N. Ray desenvolve as suas considerações sobre a delinquência juvenil recorrendo a um ritmo frenético e a alguns virtuosismos de realização (enquadramentos oblíquos, por exemplo) embora no interior da habitual malha de símbolos que tinha usado em They Live by Night (1947): o filme funde realismo e efabulação onírica, apresentando uma nítida radiografia do universo dos “rebeldes sem causa” (mas não “sem razão”, como alguns pretenderam).
STM
16 Mar | 21h
O Grande Amor da Minha Vida/ An Affair to Remember
(1957) Realização: Leo McCarey | Intérpretes: Cary Grant, Deborah Kerr, Richard Denning, Neva Patterson, Cathleen Nesbitt. | 115 minutos. Legendado em português.
Sobre este filme, epitome do melodrama, escreveu J. Bénard da Costa um dos seus mais belos textos: “[…] E tudo anda à roda neste filme de aparências e em que as aparências estão mesmo para iludir. O que não quer dizer, como tanto se tem sublinhado, que McCarey seja cínico ou dúplice. Mas apenas que há um olho que se humedece e outro que jamais se embacia, que a paixão romântica é igual à paixão céptica. Por isso este filme acaba num pedestal e por isso desde o início sabemos o que acontece a esses pedestais. An Affair to Remember… Mas a memória é tão curta e os “affairs” são tão compridos…”
De facto, O Grande Amor da Minha Vida, espécie de sequela de Love Affair, realizado em 1938, com Charles Boyer e Irene Dunne, é uma genuína obra-prima realizada por um dos mais talentosos e subvalorizados realizadores norte-americanos, a quem Peter Bogdanovich dedicou algumas das páginas mais brilhantes e tocantes de Pieces of Time. Cary Grant e Deborah Kerr são absolutamente magistrais, mesclando elegância e graciosidade.
STM
23 Mar | 21h
O Meu Maior Pecado/ The Tarnished Angels
(1957) Realização: Douglas Sirk | Intérpretes: Rock Hudson, Robert Stack, Dorothy Malone, Jack Carson, Robert Middleton, Alan Reed, troy Donahue. | 91 minutos. Versão original.
Adaptação de Pylon, romance de William Faulkner que descreve vas neuroses de um às da aviação com o pano de fundo da Grande Depressão, O Meu Maior Pecado situa-se a meio caminho entre o melodrama e o filme de aventuras. Apostando sobretudo, como é seu hábito, na elegância da organização visual, Sirk confecciona um relato que é um pequeno concentrado dos seus temas preferidos: a ambiguidade das personagens, a ambição de dinheiro e glória, a paixão do risco. A sedução aparece como a única e verdadeira mola da história, alinhada com a melhor tradição do folhetim. Criticado por alguns, louvado por outros (pela qualidade “viscontiana” da mise-em-scène, por exemplo), este filme, como o anterior (Written on the Wind, 1956), contém a montagem alternada de “estórias” distintas que se encontram num crescendo de tensão, dando à narração ora os tons da fábula ora os tons da tragédia.
STM
30 Mar | 21h
Longe do Paraíso/ Far From Heaven
(2002) Realização: Todd Haynes | Intérpretes: Julianne Moore, Denis Quaid, Patricia Clarkson, Dennis Haysbert, James Rebhorn. | 107 minutos. Legendado em português.
Remetendo muitas vezes para as comédias românticas de Sirk (Imitation of Life, 1959, ou Written on the Wind, 1956), T. Haynes, que se dá ao luxo de mostrar aquilo que cinquenta anos antes não era admissível sequer imaginar, constrói um melodrama de rara beleza, caprichoso na reproposta, também visual, dos estilos da época e tocante na surpreendente modernidade das suas personagens, cada uma delas inadequada, a seu modo, ao tempo em que vive. E sutil desconforto que o espectador sente talvez seja o indício de que a simulada inocência dos anos 50 não é afinal tão diferente da condescendente estabilidade do nosso presente. Refira-se a excelente interpretação de J. Moore (justamente premiada no Festival de Veneza), bem como de Quaid, um actor talentoso frequentemente subvalorizado, ambos dando corpo à lúcida e impiedosa análise dos costumes e da moral pública de uma cidadezinha de província.
2026, o Ano de Todos os Géneros
Janeiro – WESTERN
A Quadrilha Selvagem/ The Wild Bunch (1969), de Sam Peckinpah; A Noite Fez-se para Amar/ McCabe and Mrs. Miller (1971), de Robert Altman; Johnny Guitar (1953), de Nicholas Ray; Duelo no Deserto/The Shooting (1966), de Monte Hellman
Fevereiro – COMÉDIA
As Férias do Senhor Hulot/Les Vacances de Monsieur Hulot (1953), de Jacques Tati; Dr. Estranho Amor/Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964), de Stanley Kubrick; Vejo Tudo Nu/Vedo nudo (1969), de Dino Risi; Annie Hall (1977), de Woody Allen
Março – MELODRAMA
O Monte dos Vendavais/Wuthering Heights (1939), de William Wyler; Fúria de Viver/Rebel Without a Cause (1955), de Nicholas Ray; O Grande Amor da Minha Vida/ An Affair to Remember (1957), de Leo McCarey; O Meu Maior Pecado/The Tarnished Angels (1957); Longe do Paraíso/Far From Heaven (2002), de Todd Haynes
Abril – MUSICAL
Serenata à Chuva/Singing in the Rain (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly; A Roda da Fortuna/The Band Wagon (1953), de Vincente Minnelli; Velvet Goldmine (1998), de Todd Haynes; As Canções de Amor/ Les chansons d’amour (2007), de Christophe Honoré
Maio – GUERRA
Baionetas Caladas/Fixed Bayonets! (1951), de Samuel Fuller; O Caçador/The Deer Hunter (1978), de Michael Cimino; Apocalypse Now – Final Cut (1979/2019), de Francis Ford Coppola; Estado de Guerra/The Hurt Locker (2008), de Kathryn Bigelow
Junho – THRILLER
O Tesouro da Sierra Madre/The Treasure of the Sierra Madre (1948), de John Huston; Ferro em Brasa/Charley Varrick (1973), de Don Siegel; Blow Out – Explosão/Blow Out (1981), de Brian De Palma; O Jogo/The Game (1997), de David Fincher; Eu Vi o Diabo/I Saw the Devil (2010), de Kim Jee-woon
Julho – ANIMAÇÃO
Pantera Cor-de-Rosa/The Pink Panther Cartoons (1964-65), de Friz Freleng e outros; O Estranho Mundo de Jack/Tim Burton’s The Nightmare Before Christmas (1993), de Henry Selick; Looney Tunes: De Novo em Acção/Looney Tunes: Back in Action (2003), de Joe Dante; Belleville Rendez-Vous/Les triplettes de Belleville (2003), de Sylvain Chomet
Agosto – DOCUMENTÁRIO
Punishment Park (1971), de Peter Watkins; Grey Gardens (1975), de Albert Maysles e David Maysles; O Homem dos Músculos de Aço/Pumping Iron (1977), de George Butler e Robert Fiore; Burden of Dreams (1982), de Les Blank; Donos de Estimação/Best in Show (2000), de Christopher Guest
Setembro – FICÇÃO CIENTÍFICA
O Dia em que a Terra Parou/The Day the Earth Stood Still (1951), de Robert Wise; Estrela Negra/Dark Star (1974), de John Carpenter; Aliens: O Recontro Final/Aliens (1986), de James Cameron; Planeta dos Macacos/Planet of the Apes (2001), de Tim Burton
Outubro – TERROR
Frankenstein (1931), de James Whale; Psico/Psycho (1960), de Alfred Hitchcock; A Vítima do Medo/Peeping Tom (1960), de Michael Powell; A Noite dos Mortos-Vivos/Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero
Novembro – POLICIAL
Relíquia Macabra/The Maltese Falcon (1941), de John Huston; À Beira do Abismo/The Big Sleep (1946), de Howard Hawks; Os Incorruptíveis Contra a Droga/The French Connection (1971), de William Friedkin; A Fúria da Razão/Dirty Harry (1971), de Don Siegel; O Profissional/The Driver (1978), de Walter Hill
Dezembro – SUSPENSE
Mentira/Shadow of a Doubt (1943), de Alfred Hitchcock; Que Teria Acontecido a Baby Jane?/What Ever Happened to Baby Jane (1962), de Robert Aldrich; O Obcecado/The Collector (1965), de William Wyler; O Plano/A Simple Plan (1998), de Sam Raimi
AMIGO DA
FUNDAÇÃO





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