Centro Cultural de Cascais,
Piso 2
14 Mar » 18 Mai ’25
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Contraforte fecha um díptico de exposições que procuram subverter o convencional modo de “olhar pintura”. Se no primeiro ato – Forte (galeria A-Space, 2025) – Martinho Costa encena uma referência ao pavilhão manifesto de Gustave Courbet (Paris, 1855), justificando uma construção ancorada numa subtil diferença de cotas do espaço; Contraforte reforça o sentido portante que o artista experimenta na pintura: auto estruturada e quotidiana.
Contraforte
MARTINHO COSTA
Três composições redesenham novos espaços nas salas, como se de um diedro se tratasse, com todo o glossário de conceitos da geometria descritiva: o ponto, a reta e plano. Duas paredes paralelas e outras duas que se cruzam, convidam o observador a abandonar a inércia do “olho-estático”, por uma “visão-pendular”, em constante movimento e sem coordenadas fixas. Um olhar desfocado das paredes, onde estão usualmente penduradas as telas, para focar as paredes construídas com as próprias telas.
As pinturas são células de um sistema mais complexo, justapostas e contíguas, formando murais de quatro metros de comprimento. Murais urbanos, porque tanto a montagem como os temas estão em perfeita analogia com o mundo lá fora. A montagem não obedece a um raciocínio rígido, é antes um conjunto de mosaicos que se compõem organicamente, assentando narrativas. Poderia ser este o guião, ou poderia ser outro, caso a configuração fosse diferente, embora o olhar do artista seja sempre estável. Os temas são os de sempre, aqueles que Martinho Costa pinta com o mesmo entusiasmo juvenil e frenético. Cenários suburbanos entre o edificado mais denso e a natureza dispersa. A ligação à cidade faz-se sempre através de um interface, uma gare e um comboio noturno. E nesse percurso, qualquer superfície pode receber uma pintura, neste caso são telas, mas poderiam ser paredes, tijolos ou pedras, porque as pinturas são como fotografias, disparos instantâneos e fugidios, congelando o tempo, um tempo, aquele tempo. Sabemos apenas que são pinturas, pelo cheiro a óleo pintado de fresco.
E, aparentemente, Contraforte não é uma exposição de pintura, embora não deixe de o ser. No limite, o que o artista procura é resgatar de outras artes visuais, como da escultura, do happening, ou até da arquitetura, o mesmo dinamismo, a mesma interação e a escala do observador participativo. Direciona o olhar para um caminho em torno da obra, onde o verso é tão relevante como a frente e a harmonia, tal como nos campos disciplinares da Estática ou na Trigonometria, surge na forma triangular.
Contraforte é um manifesto, onde há arquivo e uma proposta de “contra arquivo”. É um exercício de leitura da pintura (e das suas temáticas) virada do avesso, pousada no chão e em auto equilíbrio com as referências próprias do artista.
Frederico Vicente
Curador
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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