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Silêncio e Forma

Categoria: Exposições
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Centro Cultural de Cascais,
Piso 2

18 Jul » 19 Out ’25

Centro Cultural de Cascais,
Piso 2

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A artista Inês Galvão apresenta uma proposta estética que assenta num processo criativo concebido a partir de um espaço de transcendência originado em momentos de silêncio, um tempo que vive entre a tela e a pintura e de onde brotam cores e figuras como se quisesse contar apenas (?) histórias reais.

A exposição, que fica patente durante este verão, poderá também conduzir o observador atento para as veredas que percorrem os seus próprios silêncios, i.e., para aquilo que se imagina e a que se dá corpo quando o silêncio se impõe, quando há uma espécie de paragem no tempo, em que possivelmente o Nada cresce como um lugar ou uma forma.

Silêncio e Forma, de Inês Galvão, integra, com toda a justiça, a programação da Fundação D. Luís I no Centro Cultural de Cascais, um dos equipamentos que constituem o Bairro dos Museus, um perímetro cultural de fruição e de acolhimento a todos os que escolhem a Arte, servindo em especial para o reconhecimento de talentos tanto nacionais como internacionais.

Neste ano em que se celebram os 25 anos do Centro Cultural de Cascais e se prepara a programação especial que comemorará em 2026 os 30 anos de existência da Fundação D. Luís I, é um gosto e uma honra receber a obra inspiradora de Inês Galvão, uma autora com uma carreira artística digna de apreço.

Help me, 2024 | Acrílico sobre papel com colagem, 105×75 cm

Silêncio e Forma

INÊS GALVÃO

Há, na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa, um pequeno quadro de que gosto muito. Trata-se de um Jan Brueghel, o Velho (1568-1625), pintor prolífico, também conhecido como Brueghel de Veludo, devido à souplesse do seu trabalho; o quadro é uma paisagem imaginária, em que, a par de referências mitológicas, estão representadas frutas, legumes e animais de diversas proveniências geográficas.

Obviamente, ao abordar a pintura de Inês Galvão, não pretendo estabelecer com ele paralelismos que vão além do seu seminal vocabulário simbólico e sincrético, que resulta, portanto, numa espécie de proto-surrealismo, de surrealismo avant la lettre, que se viria a teorizar e consumar plenamente no século XX e de que a obra da Inês é efluente e afluente.

E não nos esqueçamos de que, na palavra surrealismo, o prefixo francês «sur» nos remete para algo que está além ou acima do real, podendo dizer-se que é mais real do que o real, na medida em que um sonho ou um pesadelo podem ser mais intensos do que a mesma experiência quando vivida de olhos abertos.

Assim como naquela Alegoria das Quatro Estações de um dos filhos de Pieter Bruegel, o Velho (que, tal como Bosch, também poderia evocar, tendo optado por Jan, por este Jan específico, apenas por ter com ele uma especial relação de ternura) — ou não se tratasse, precisamente, de uma alegoria —, são-nos aqui apresentadas, quase sempre, narrativas (sim, narrativas) mais ou menos veladas, metafóricas, que há que interpretar e cujo conjunto, sendo o todo mais do que a soma das partes (se me é permitido o recurso à frase feita), se pode constituir e constitui numa outra narrativa, mais abrangente, que resulta, está bom de ver, do universo mais íntimo e onírico, da artista. artista.

A espanhola, 2024 | Acrilico sobre tela com colagem, 70x70 cm || Os Yes Men, 2025 | Acrilico sobre tela, 70x70 cm

Estamos, por conseguinte, perante um conjunto de composições que se tornam uma só composição, feita de figuras de origem inconsciente, que, ao ganharem forma na tela, se vão, tentativamente, descodificando, conquanto tal aconteça pictoricamente, e não com recurso a um discurso lógico-analítico, por se saber que essa procura será sempre procura e, logo, por definição, inconclusa — «Pórtico partido para o Impossível», diria Fernando Pessoa.

Por fim, atrevo-me a transcrever aqui o que Emanuel Félix, um dos grandes poetas portugueses do século XX, bem menos lido do que mereceria, escreveu, em 1965, a propósito de Jean Lurçat (1892-1966), nome maior da tapeçaria francesa, por me parecer adequar-se também — e como! — à obra da Inês: «Furtivo caçador de lebres/ (ousa tão subtis armadilhas)/ inventor de estranhos animais/ centauro coroado de silvas// Tripulante de tapetes voadores/ arquitecto de paredes-janelas/ que dão para Tóquio S. Paulo Suez/ e com as mãos cheias de folhas e insectos».

Miguel Martins, escritor

Julho 2025

Sem título, 2025 | Acrilico sobre papel, 82x63 cm

Os protagonistas desta obra/estoria estabelecem entre si um corrupio de desassossegos onde os olhares são tão ruidosos como palavras gritadas, onde as danças sem maestro realizam-se ao rufar dos maneios do “Sr. Apple” por sua vez observado do “galinheiro teatral” pelo macaco que é dono da bola de ténis.

Tudo isto acontece em redor dos vários azuis tão próprios da paleta da autora. Envolta em cinzenta tristeza a “Sra. da Piedade” estará completamente alheia aos afectos do seu “Colibri” de estimação? A sua pata de Demo leva-nos à persistente dúvida…

Os outros que pululam nesta narrativa são personagens reconhecidas por aqueles que seguem o imaginário artístico de Inês Galvão. Todos fazem parte do peculiar mundo do fantástico de todas as memórias, onde a cumplicidade dos sentimentos e emoções são uma constante.

Esta obra não precisa de titulo, fala por si.

Rui Aço, pintor

Julho 2025

Inês Galvão

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