Centro Cultural de Cascais,
Piso 2
1 Nov » 25 Jan ’26
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
As histórias de vida que encontramos nos livros ou no cinema apresentam-nos o percurso de alguém reconhecido, alguém que é considerado como uma personalidade, qualquer que seja a sua área. É o mais normal. Menos normal é depararmo-nos com a vida ou as vidas registadas pela técnica e sensibilidade de um fotógrafo, como se tratasse de um documentário, uma espécie de discurso mnemónico feito de imagens.
Bruno Saavedra, fotógrafo luso-brasileiro a viver em Portugal há mais de 20 anos, coloca-nos dentro da vida de cada fotografado. Através da imagem estática, do momento, fala-nos de sentimentos, paixões, sofrimento, desejo, felicidade e tristeza, fruto de um acompanhamento ao longo do tempo, anos até, da vida de alguém que poderia ser qualquer um de nós.
Em Quando o vi dançar pela última vez, Saavedra convida a uma reflexão, de forma a se quebrarem barreiras, tantas as que forem precisas para a razão vir ao de cima de todas as interpretações e narrativas sobre o sermos quem quisermos ser.
A mostra apresenta-nos Simão, de Pontével, e Symone, da noite de Lisboa. São os “eus”, os heterónimos, de uma mesma pessoa. Mas a base deste trabalho é muito mais do que esses dois “eus”. É o ato de captar as histórias e documentá-las, a competência de escolher momentos e situações significativos. Poderiam passar, naquele preciso instante, a livro ou a filme, ainda que isso não ser preciso, tal não é a força da imagem, surgida dos cliques certeiros que capturam esses instantes.
A obra de Bruno Saavedra, exibe-se no piso 2 do Centro Cultural de Cascais, contribuindo para a programação eclética que a Fundação D. Luís I exibe nos equipamentos culturais de Cascais, (re)afirmando a vocação cosmopolita e aberta que caracteriza Cascais desde há muito.
Salvato Teles de Menezes
Presidente da Fundação D. Luís I
O QUE LEVA ALGUÉM A FOTOGRAFAR PODE NASCER DE MUITAS URGÊNCIAS.
Ao longo de três anos, Bruno Saavedra dedicou a sua atenção a uma pessoa em busca de si – uma simplicidade que surge de uma honestidade radical, que recusa refúgios em conceitos pré-fabricados ou categorias onde tantas vezes se arrumam pensamentos frágeis. O resultado é um retrato intimista, onde se revelam dias de certezas e incertezas, de afirmações e ocultações. É a vulnerabilidade que nos atravessa, a forma como o espaço molda quem somos e a urgência de preservar a liberdade de ser.
O protagonista é Simão Telles — ou Symone De Lá Dragma, “tanto faz”, como gosta de dizer. Nascido em Santarém, transita entre cantigas, o transformismo e a performance, sem se deixar aprisionar por rótulos. Inspirado por Simone de Oliveira, criou, em 2015, a personagem drag que encarna em palco e convive com um imaginário de Hollywood e objetos dos anos 1950. A adolescência foi marcada por preconceito e bullying, mas também por uma aceitação familiar rara — a avó ainda cose os seus vestidos. A relação com Bruno Saavedra demonstra a busca de aceitação que originou a criação de Symone e a vontade crescente de deixá-la desaparecer para que Simão ocupe plenamente o seu lugar.
A obra desenrola-se assim em dois tempos: o de quem fotografa e o de quem é fotografado. É um gesto que parte da autenticidade, onde o mostrar-se tal como se é implica o reconhecimento da identidade enquanto construção constante.
Este percurso vive entre duas geografias distintas: a base familiar de Simão, em Pontével, e a convivência entre Simão e Symone, em Lisboa. Espaços diferentes, onde se desenrolam hábitos e culturas próprias, atravessados, porém, por uma presença que os une.
Bruno Saavedra explora, a partir de uma perspetiva vincadamente pessoal, elementos formais e espaciais, silêncios e interrupções, para construir uma abordagem que ultrapassa a superficialidade. A contemporaneidade da narrativa manifesta-se não apenas na dimensão estética, mas sobretudo na abertura da representação a múltiplas interpretações, que só o tempo e a atenção crítica do autor permitiram desenvolver.
Quando o vi dançar pela última vez recusa o lugar-comum e convida-nos a uma visão profunda, que vai para além do imediato: um convite a quebrar barreiras e a enfrentar aquilo que desafia as certezas que nos limitam, e um espaço onde existe tudo o mais que ainda escapa.
Mário Cruz
Fotógrafo. Director da NARRATIVA, Responsável pela curadoria da exposição e editor do livro homónimo.
AMIGO DA
FUNDAÇÃO



Avaliações
Ainda não existem avaliações.