Centro Cultural de Cascais,
Piso 1
27 fev > 3 mai ’26
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
REALIDADERANA
BEATRIZ MANTEIGAS
O trabalho de Beatriz Manteigas tem, na duplicidade da sua prática, uma componente plástica ligada à manufatura e aos artefactos do atelier e uma outra, talvez mais nómada por se sentir parte ativa do mundo natural e, deste modo, uma agente e respigadora de cruzamentos culturais, modos de viver, modos de cultivar e experienciar a terra onde assenta os seus pés desassossegados.
A sua obra é transversal na articulação de conceitos da filosofia, da escuta da oralidade e da expressão escrita, que também pratica e é patente nas diversas formulações e procedimentos que enriquecem uma posição crítica e uma estruturada consciência política aliada a uma poética do gesto que se combina com uma singular paleta cromática que as suas obras denotam.
A artista e investigadora propõe-nos uma exposição como um itinerário de um permanente work in progress constituído por obras de diferentes séries, trabalhadas em diversos meios e técnicas: o desenho, a assemblage, a impressão térmica, a colagem, a fotografia, uma peça de som e um documentário fotográfico projetado em formato vídeo sobre a sua última viagem de residência na Amazónia. As séries são importantes no trabalho de Beatriz Manteigas porque se revelam através de uma vontade sistemática e cumulativa de experimentar, como uma metodologia que desenha as coordenadas de um caminho de investigação e de exploração no trabalho de campo, regressando ao universo visual como uma interrogação ao espectador e à sua própria prática artística e reflexiva.
Neste sentido, a sua tese de doutoramento, intitulada Linha de Vida – desenhar metáforas do real, lança um repto ao “real” como tema e ao “desenho” enquanto forma de perceção, questionamento e possível marca do lugar da experiência. Neste contexto, em que a linguagem escrita é presente como visualidade poética e semântica, uma das suas séries, intitulada “Monólogos”, inclui uma obra central nesta construção dialógica entre vozes que ressoam intervenientes nas figuras do opressor e do oprimido, a peça “BEDTIME ARGUMENTS” (2024), exemplar de formulações, dúvidas e especulações a partir da experiência do lugar.
Nesta dualidade aparente, a artista abre um campo de possibilidades entre a fenomenologia e a metáfora, a citação e a recontextualização, a voz que clama por outras vozes, que se transformam por uma ação íntima em imitações umas das outras e assim em todas as outras, permitindo percecionar a realidade rana. O sufixo rana é um exemplo do cruzamento das línguas, da portuguesa falada através do caboclo amazonense, que se torna parte da designação das espécies que imitam outras e, na obra desta artista, surge como escultura nos trabalhos, em registo documental, da mais recente residência de investigação que a artista ali começou a desenvolver. Esta ideia, mas também estas imagens, estão presentes nas pesquisas de Beatriz Manteigas, tanto na relação das diversas espécies naturais como na forma como o humano as tem dominado, sequestrado e até demonizado, consoante as estratégias materiais e económicas das sucessivas investidas do nosso suposto progresso. Sob este aspecto, mas numa dimensão poética e de forte plasticidade da obra da artista, a instalação de desenhos de apreciável dimensão intitulada “Les Sylphides” assume na escala, na proporção, na proficiência do desenho e da sua pintura, um domínio dos limites do suporte e da sua eficácia visual. Esta série é inspirada na história e interpretação de um ballet romântico do século XIX intitulado “La Sylphide” (c. 1832), que narra uma paixão trágica entre um jovem escocês e uma fada, a sílfide do título, dualidade que o encantamento projeta como sonho, potência e utopia da beleza eterna. O desfecho desta narrativa encontra-se no mistério da revelação e da morte, entre a natureza que aprendemos a conhecer e a razão que tudo parece conhecer.
Este tema e figura da sílfide foram também objecto de uma outra obra performativa, criada para os Ballets Russes de Diaghilev na primeira década do século vinte, ou seja, no momento da assunção das vanguardas que transformaram e renovaram diversas conceções da estética e da arte. O bosque e as sílfides aproximam-se de outras imagens e desenhos da exposição que, sem a pretensão da rotura vanguardista dos ballets russes, são obras que renovam a nossa construção do olhar sobre a plasticidade manual, sem correções, genuína como a reprodução em grande formato impresso no verso desta brochura.
Toda a exposição é, por um lado, um ensaio e, por outro, um breviário de projetos e trabalhos que transitam, em permanente transformação e interconetividade, entre lugares e comunidades: da exposição e instalação recente na Casa da Cerca, em Almada, para o seu atelier na Quinta das Relvas, no centro do país, onde ocorrem residências para artistas e daí, onde a permacultura é a base de um modus vivendi, para outro lugar de pesquisa, como por exemplo a Amazónia, ao encontro desse contexto natural e cultural vivo que desenhou o título desta exposição: realidaderana.
João Silvério
Curador
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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