Centro Cultural de Cascais
– Capela
31 Jan » 6 Abr ’25
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
É na página 37 de A Peste* que a palavra aparece pela primeira vez: na cidade de Orão, em meados do século XX, há um surto de peste negra. Tanto o leitor como o personagem principal desta narrativa sabem, desde o momento em que se fazem notar os primeiros indícios de epidemia (os ratos que vão aparecendo mortos e as pessoas moribundas), que se trata de um surto da doença. Mas o medo e a incerteza condicionam as imprescindíveis tomadas de decisão, provocando o adiamento das ações para conter a peste.
Página 37
TOMÁS SERRÃO
O momento em que pousei os olhos na palavra “peste” despertou imediatamente uma reflexão sobre o ato, por vezes inconsciente, de ignorar as evidências, sobre esta característica — tão humana quanto a inveja, a ganância, o egoísmo, o amor, a compaixão, a empatia — de preferir permanecer na ignorância, para que aquilo que é indiscutivelmente real possa habitar este não-lugar da sombra. Um estado Schrodingeriano em que, enquanto não der de caras com a brutal realidade que assola o mundo em que vivo, poderei dar ouvidos a uma tal inconsciência que me diz: “Não viste, então pode ser que não seja real”.
Uma reflexão plástica que é, também, sobre o ridículo. Sobre uma sociedade que procura, incessantemente, manipular, controlar e suavizar a realidade.
*Camus, A Peste (Porto Editora – Livros do Brasil, 2016)
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