Quinta do Pisão
21 Mai » 31 Jul ’22
De segunda a domingo
Verão (01.abr > 30.set)
9h00 – 21h00
Presidente da República é um cargo em que importa bastante ter em conta o poder da imagem: quantos de nós não questionamos o que existe atrás do público exercício do cargo? Que vida tem o homem, ou a mulher, que encabeça os destinos de um país para além da sua presença institucional?
Na exposição O Poder na Intimidade mostramos, a partir de uma ideia do jornalista José Paulo Fafe, essa outra faceta, aquilo que está de outro lado das portas que se fecham aos olhares mediáticos. São momentos, por vezes apenas minutos, de descontração ou de proximidade com familiares, amigos ou pessoas encontradas fortuitamente. Até onde pode ir a captação de imagens, mesmo que seja feita pelo fotógrafo oficial do Presidente? Só os grandes profissionais o sabem. Conhecem cada expressão do homem ou mulher que acompanham para todo o lado. Sabem se está feliz ou infeliz, se está cansado, tranquilo… E também são capazes de definir sabiamente a linha entre a imagem pública e a imagem íntima.
São estes fotógrafos que, por diversas vezes, desconstroem a imagem institucional e politicamente correta daquela pessoa séria, focada em soluções para todos nós, de fato e gravata, todos os dias e a qualquer hora. Os fotógrafos oficiais dos Presidentes são “invisíveis”. Estão, porque assim querem e sabem ser obrigação sua, longe dos holofotes. Mas são eles que nos apresentam quem é e como vive o fotografado, o Chefe de Estado. Só está ao alcance dos melhores, daqueles que registam a expressão exata no “instante decisivo”, sem invadir o trabalho e a privacidade de quem precisa, mais do que ninguém, de tempo e de estar tantas vezes sozinho.
Na Galeria de Exposições do Palácio da Cidadela de Cascais encontramos Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa, fotografados pelo português Alfredo Cunha; Ronald Reagan e Barack Obama, fotografados pelo luso-americano Pete Souza, Lula da Silva, fotografado pelo brasileiro Ricardo Stuckert, e o General João Figueiredo, fotografado pelo pai de Ricardo, Roberto Stuckert. Estes quatro nomes maiores da fotografia internacional trazem-nos «pedaços de tempo» únicos, como lhes chamou o grande ator James Stewart, vividos por quem minutos antes ou depois teve de falar ao país, nem sempre para dar boas notícias, ou de estar entre multidões, ao serviço de agendas sobrecarregadas. São Presidentes vistos ao toque do obturador, comprovando que, afinal, o principal poder é a natureza humana.
Carlos Carreiras
Presidente da Câmara Municipal de Cascais
É obra
Convenhamos que não é todos os dias que existe a oportunidade de juntar três nomes como os de Alfredo Cunha, Pete Souza e Ricardo Stuckert numa mesma exposição. Três fotógrafos sobre cuja obra pouco mais há a dizer: “apenas” que são, sem ponta de favor, do melhor que existe a nível mundial.
Mas não é só na qualidade do seu trabalho que existem similitudes, basta-nos observar a biografia de cada um para perceber-se que, ainda que vivendo em distintos pontos do globo, a convergência dos seus percursos está à vista. Para começar, são os três oriundos do fotojornalismo, notável ‘escola’ no que à fotografia diz respeito, ainda por cima em tempos em que fotografar era muito mais do que fazer disparar o obturador da máquina. Depois, rapidamente qualquer um deles, expondo e publicando, se afirmou como fotógrafo ‘tout court’, com nome e obra reconhecida. A seguir, cada um a seu tempo desempenhou as funções de ‘fotógrafo oficial’ dos respetivos chefes de Estado – Cunha de Ramalho Eanes e Mário Soares, Souza de Ronald Reagan e Barack Obama, e Stuckert de Lula da Silva. Acresce a tudo isto que, sendo um deles um português de nascença e nacionalidade, Souza e Stuckert, apesar de norte-americano e brasileiro, têm nas suas raízes uma forte componente portuguesa.
Esta mostra permite-nos olhar para o que é a intimidade no poder. Por outras palavras, revela-nos o que é o quotidiano de figuras públicas que, desligadas as luzes dos holofotes e abandonadas as alcatifas dos salões, possuem uma vida própria e por vezes tão semelhante à de qualquer um de nós. Qualquer um deles brinca com o seu cão, nada, namora, faz exercício físico, age como o mais comum dos mortais.
Mas, por outro lado, algumas das fotografias expostas nesta mostra traduzem claramente momentos que são de intimidade, mas simultaneamente de solidão. A tal ‘solidão do poder’ que faz parte integrante do exercício desse mesmo poder, e que muitas vezes antecede a tomada de decisões pouco fáceis. É isso, essa intimidade, mas também essa solidão, que podemos observar nos notáveis trabalhos dos três fotógrafos oficiais que compõem esta exposição.
Refira-se também que, curiosamente, os quatro protagonistas desta exposição – Barack Obama, Lula da Silva, Mário Soares e Ronald Reagan – alicerçaram os seus mandatos presidenciais num forte carisma pessoal. Cada um ao seu jeito conseguiu construir, ou consolidar, uma imagem simultaneamente forte e afável, em muitos casos de aclamação quase transversal nas sociedades a que pertenciam.
E todos eles, sem exceção, diga-se em abono da verdade, marcaram de forma significativa e determinada a história dos seus países, quando não mesmo condicionaram o Mundo e as últimas décadas.
Uma breve nota final: esta exposição possui um ‘prefácio’ e um ‘post scriptum’. O primeiro constituído por seis belas fotografias, parte integrante de uma sessão que Alfredo Cunha fez com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, na prática ‘anfitrião’ desta mostra, não tenha ela lugar no Palácio da Cidadela, em Cascais; a nota final, por outras seis fotografias, estas da autoria de Roberto Stuckert, pai de Ricardo, falecido há poucos meses, e que foi, também ele, fotógrafo oficial de um outro presidente brasileiro, o general João Figueiredo. O mundo (e a fotografia…) tem destas coisas!
José Paulo Fernandes Fafe
Curador
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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