Palácio da Cidadela de Cascais
Galeria de exposições
16 Nov » 16 Fev ’25
De Terça a Domingo
das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00
Última entrada: 17h40
A História dos povos, a nossa e a dos que nos antecederam, deixa uma marca em cada um de nós e em cada espaço que vai sendo ocupado. É das tradições e do conhecimento que nasce a Cultura, que hoje conhecemos e queremos preservar, acrescentando-lhe mais-valias para as gerações vindouras.
Se Cascais é um município virado para o futuro, apostando na inovação e no talento, aspetos que fazem parte da sua identidade, é também no presente e no passado que adquire e cimenta energias, com o objetivo de transmitir conhecimento e sabedoria.
Aos nossos munícipes e visitantes apresentamos agora o legado dos alanos, um grande grupo étnico formado no século I a.C, num vasto território do Cáucaso, situado entre a Europa e a Ásia. Aos longos dos anos, esta tribo, considerada uma das mais valorosas, espalhou poder e força militar por várias regiões, incluindo a Península Ibérica, onde venceu os romanos no início do século V e influenciou a reconstrução de cidades.
Durante o último milénio, os alanos ganharam., mantiveram e perderam poder. Pelo caminho deixaram uma herança de modos de vida, lendas e tradições – danças, gastronomia, roupas e artesanato – ainda hoje seguida pelos Ossetas, os modernos alanos que vivem na Transcaucásia moderna, a norte de Azerbaijão e Geórgia.
É a história desta ligação, entre os alanos e os modernos ossetas-alanos, que revisitamos em Cascais, dando a conhecer réplicas de armas do século V, trajes do Rei Addac e da esposa, uma princesa do Reino Suevo, que terão participado na reedificação da cidade de Coimbra, e objetos do quotidiano do Cáucaso e da Transcaucásia, datados entre os séculos XVII e XXI.
As peças pertencem ao acervo do empresário e filantropo osseta Vladislav Khabliev, há algum tempo residente em Cascais, a quem deixo uma palavra de agradecimento pela gentileza de disponibilizar uma coleção sobre a identidade deste povo longínquo, que também deixou a sua marca na história do nosso país.
Carlos Carreiras
Presidente da Câmara Municipal de Cascais
O Legado dos Alanos
Armas, Vestuários e Artefactos Domésticos Caucasianos
A exposição “O Legado dos Alanos – Armas, Vestuários e Artefactos Domésticos Caucasianos” conta a ligação entre os alanos e os modernos ossetas-alanos que vivem no Cáucaso. Os alanos são um grande grupo étnico medieval, formado na viragem da nossa era, a partir de uma união tribal de povos estreitamente relacionados do círculo cita-sármata, nos territórios desde o Aral, a leste, até ao Don, a oeste.
Esta exposição apresenta réplicas de armas dos Alanos do século V, trajes do Rei Addac e da sua esposa, uma princesa do Reino Suevo, povos que terão influenciado a edificação da cidade de Coimbra.
A exposição apresenta o acervo do empresário e filantropo osseta Vladislav Khabliev, residente em Cascais: armas, munições militares, roupas e itens quotidianos do Norte do Cáucaso e da Transcaucásia nos séculos XVII – XXI.
Alanos na Europa
durante a era da “Grande Migração”
O final do século IV foi marcado por acontecimentos terríveis, de grande crueldade, que serviram de impulso para o início daquele “grande reassentamento de povos” que redesenhou o mapa da Europa antiga.
Exaustos por muitos anos de confronto com os alanos, que os detiveram no seu movimento para ocidente, os hunos acabaram por concluir uma aliança militar para combater o rei dos godos, Ermanaric, hostil aos alanos. Os alanos da Ciscaucásia mantiveram o controlo de suas terras sem serem levados pelos hunos para ocidente, servindo de núcleo na formação da Alânia do Cáucaso.
O velho Ermanaric, que pela força da espada reuniu vários germânicos, tribos sármatas, eslavas e finlandesas da Europa Oriental suicidou-se ao ver o colapso inevitável de seu poder. O seu sucessor, Vitimir, de família real de Amalov, não resistiu por muito tempo ao ataque dos aliados. Foi morto numa batalha e o poder sobre os godos passou para os seus líderes militares, os dux Safrak e Alathea.
Alguns dos godos submeteram-se aos Hunos, enquanto outros fugiram para os territórios romanos, abandonando à pressa bens e propriedades. Os hunos e alanos entenderam-se. Marcelin, ao descrever estes acontecimentos, comparou os refugiados godos à areia que corre com o vento no deserto… Em 375 significativas massas de refugiados godos, principalmente visigodos, tentaram cruzar as fronteiras do Império Romano, forçados a suportar tanto a carga tributária do estado romano como o caos causado pela oposição dos cidadãos do Império contra os novos colonos.
A aliança militar de hunos e alanos não era sólida. Quando chegaram à Panónia e ao Baixo Danúbio em meados da década de 70 do século IV, atingindo as fronteiras do Império Romano, os interesses dos antigos aliados divergiram: os alanos passam por um período de novos começos, alianças de curto prazo e campanhas militares para a divisão e controlo das ricas províncias de Roma. Um pequeno grupo de alanos que penetrou no território das províncias romanas, juntamente com visigodos, participa ativamente na batalha de Adrianópolis, do lado dos godos. Em 378, as legiões romanas, chefiadas pelo imperador Valente, foram derrotadas. Um golpe esmagador nas tropas do imperador, atingidas pela cavalaria alana, que apanhou o flanco romano de surpresa, derrotou-o e levou-o a fugir em pânico. Após a vitória em Adrianópolis, onde o imperador Valente morreu e o exército romano sofreu essa derrota terrível, coligações de visigodos e nunos, incluindo também alanos, tentam capturar Constantinopla.
O poder militar e a estratégia de guerra dos alanos são altamente valorizados no Império Romano. Alguns alanos encontram mesmo uma receção favorável no Império e recebem convite para prestar serviço militar como “federados”. Sob o imperador Graciano, já existia um regimento de guarda-costas de alanos, tendo o imperador acordado atribuir-lhes um bom estipêndio. Ao mesmo tempo, o próprio Graciano adorava aparecer em público com roupas e armas alanas, e até a cavalaria romana, por iniciativa deste imperador, foi reorganizada de acordo com o modelo alano. A inveja criada nas elites militares de Roma pela simpatia de Graciano pelos alanos valeu-lhe ser assassinado em Lyon, em 25 de agosto de 383.
É importante notar que hunos e godos, que nessa época já haviam experimentado a forte influência dos métodos militares alanos, começaram a ser recrutados para o serviço militar apenas no tempo do imperador Teodósio, ou seja, nos finais do século IV. Como escreveu um de seus contemporâneos: “Sob a bandeira de Roma marcharam os antigos inimigos de Roma – godos, hunos e alanos –, respondendo à chamada, ficando a aguardar e apenas receando serem vistos como ausentes.”
Por duas vezes, alanos e hunos forneceram, no início do século V (402 e 405), assistência militar ao comandante romano Stilichon para conter tribos germânicas. Porém, já em 31 de dezembro de 406, um grande grupo de alanos, levando consigo vândalos e suevos, cruzou o Reno gelado para se espalhar pela Gália romana. A pilhagem das ricas províncias romanas tiveram como consequência os iminentes esvaimento e morte do Império Romano do Ocidente.
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