Centro Cultural de Cascais,
Piso 0
15 Fev » 20 Abr ’25
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
A persistência da artista está nesse paralelo, do outro lado, sendo o mesmo mistério do plural e do singular, explora materiais para que neles haja a ligação intemporal onde a dialética do princípio e do fim passa pelo meio, procurando o equilíbrio, a obra fala por si e o tempo existe abafado no segredo da mensagem.
Sem dúvida que nessa simbiose encontramos o vácuo do visível e invisível, fazendo que seja a melhor forma de descobrir no interior a luz. Abraça pela porta do olhar o conceito absoluto na sua origem, liberta-se, é representativa de uma forma completa, onde se constrói e onde tudo está ligado entre si.
João Moniz
Manifestações
ANA LIMA-NETTO
A imprevisibilidade que a Arte nos proporciona cresce com a expetativa de ver nascer um trabalho, já que é o resultado de um processo criativo tão estimulante para o criador como para o potencial observador.
Ana Lima-Netto constrói as suas peças fazendo-se guiar por fios de materiais transparentes, brilhantes, metálicos, dando-lhes formatos desconstruídos através de instalações que se adaptam às salas de exposições, o que determina que o espaço ocupado pela obra esteja, afinal, além do que é a sua realidade física: dimensiona-se na imaginação de quem frui a obra. É deste modo que a artista interpreta o ritmo das suas vivências e a realidade dos dias, descontextualiza e provoca a curiosidade do espectador, aliando a mão ao pensamento e desenvolvendo novas perceções visuais sobre as formas das suas instalações.
O trabalho de Ana Lima-Netto surge, então, como uma provocação ao olhar: é uma espécie de experimentação que interage connosco, confirmando o talento de uma artista que se distingue por um percurso inovador em Portugal e no estrangeiro, estando representada em várias coleções públicas e privadas.
Em Cascais praticamos uma Cultura eclética, acomodando o autor clássico e secular ao talento mais emergente. Se, por um lado, apresentamos referências maiores da História de Arte pondo-as à disposição de milhares de visitantes, nacionais e internacionais, por outro, damos voz a jovens artistas que possuem as qualidades que os tornarão mais reconhecidos, assim alcançando uma diversidade de públicos de todas as idades, formações culturais e estratos sociais. Faz parte do nosso ADN, da nossa génese de abertura de portas a todos.
É, por isso, uma grande honra receber, no Centro Cultural de Cascais, a obra de Ana Lima-Netto, uma autora com um trabalho inspirador.
Carlos Carreiras
Presidente da Câmara Municipal de Cascais
LUCÍFERAS TEIAS OU COMO A MATÉRIA MANIFESTA
A FRATERNIDADE EPIFÂNICA DE ANA LIMA-NETTO
Talvez não surpreenda que ao mundo sejam necessárias as mãos da tecedeira para que possa manifestar-se, por entre os fios de luz, o clarão que a humanidade procura, a fim de ser mais humanidade. Talvez não surpreenda que, a juntar às ciências do pensamento que levam mais longe — desde a Literatura à História, da Filosofia à Matemática, da Medicina à Informática —, essa humanidade não possa prescindir da Arte que é sempre lugar de pensamento, seja este mais ou menos imediato para o observador.
Ana Lima-Netto é essa tecedeira que não prescinde de ser artista e é essa artista que não prescinde de ser tecedeira. Com as suas mãos, faz-se sibila, lembrando que a matéria não é apenas matéria, mas, através de fina modelação, reflexo de pensamento.
Seja através do fiar das redes, seja através da construção das malhas, seja através da meticulosa fissuração para a escrita luminosa, as suas obras fazem deter o olhar, projetando-o não apenas para o objeto artístico, mas, como interrogação ao sujeito que observa, desarmando-o como que a um espelho e devolvendo ao interior do humano o que parece ser essencial.
A fórmula para tal dialética parece firmar-se no caminho longo que a História da Arte experimentou e que, por vezes, vê reinterpretado, numa espécie de redescoberta do modo clássico, daquele modo de fazer arte que elimina todas as redundâncias em prol de um equilíbrio desarmante. Afinal, o equilíbrio formal e a provocatória ausência de cor também apelam aos sentidos, hermeticamente convocados pela luz que sobre as peças incide e, sobretudo, pela luz que as suas obras, espelhos de humanidade, devolvem. Paradoxalmente, algumas peças parecem tocar o Barroco, mas sem dele fazerem uso, apenas quando a linha organicamente ondula, sem nunca, contudo, se tornar prolixa, pois nada parece estar a mais: nem linha, nem forma, nem cor.
Com efeito, há algo de clássico em Ana Lima-Netto, pois na proporção, na linha, na forma, na cor (na sua ausência ou na sua transfiguração) há uma nova forma de dizer, no século XXI, a cultura clássica.
As suas peças são, assim, novas cariátides, novos Apolos, novas Vénus, mas também páginas renovadas dos livros antigos, sobretudo, dos mais luminosos textos do tesouro do pensamento humano.
Obras atemporais, como os eloquentes discursos da sua antiguidade, as peças de Lima-Netto pairam assentes em narrativas filosóficas ou teológicas, tornando a sua obra verdadeira intervenção não tanto social, mas filosófica e estética, elegantemente política, no sentido nobre do termo, sem apelo a revolução, mas firmada na crença de que é possível a evolução humana no contexto maior do universo.
E o que mais impressiona na obra de Lima-Netto é a metarreferência que nela experimenta o observador ao verificar que também ele integra aquela rede, de que é um dos fios daquela luminosa teia, porque a autora não concebe o mundo sem esses laços de fraternidade, de uma fraternidade lucífera e epifânica.
Marco Daniel Duarte
Diretor do Museu do Santuário de Fátima
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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