Palácio da Cidadela de Cascais
Galeria de exposições
24 Abr » 14 Set ’25
De Terça a Domingo
das 10h00 às 13h00
e das 14h00 às 18h00
Última entrada: 17h40
Assalto ao Palácio de Verão
CURADORIA DE DAVID SANTOS E JORGE CALADO
Vila de palácios e veraneio, Cascais foi casa de férias reais, desde que D. Luís, antepenúltimo Rei de Portugal, escolheu o Palácio da Cidadela, então Casa do Governador da Cidadela, para passar os últimos tempos estivais com a família, facto que despertou o interesse da aristocracia e das elites sociais para neste concelho se instalarem em palacetes emblemáticos junto ao mar.
As páginas da história do Palácio da Cidadela contam-nos a ligação da família real às artes ou não fosse D. Carlos conhecido como o Rei-pintor, ainda que se tenha dedicado também à cerâmica e à fotografia, entre outras atividades como a Oceanografia, paixão que, aliás, lhe foi inculcada pelo pai. Este que foi precisamente o palácio de verão do Rei D. Luís e de seu filho, o Rei D. Carlos, é agora “assaltado” por obras de artistas neorrealistas, que tomam assim a Galeria de Exposições, para nos mostrarem a arte criada nas décadas do século XX até 1990.
A pintura, a fotografia, a escultura e o desenho, de artistas nacionais e internacionais, remetem-nos para um dos múltiplos poderes da Arte, o de nos ligar a narrativas e a causas sociais, dando-nos diversos olhares sobre o pós-Segunda Guerra Mundial, através da apresentação de perspetivas que são ideologicamente similares e distintas sobre as vivências individuais e coletivas em plena ditadura nacional. Como não podia deixar de ser, a mostra acontece no âmbito das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, que já decorrem em Cascais há cerca de um ano.
É uma honra proporcionar esta exposição aos nossos munícipes e visitantes, sendo ela apenas possível graças à amabilidade e à disponibilidade do Museu do Neo-Realismo, de Vila Franca de Xira, a cujos responsáveis deixo o meu sincero agradecimento.
Cascais é, desde sempre, uma Vila de Cultura, de fruição e de inspiração para nomes maiores das Artes e da Literatura, como Paula Rego ou Fernando Pessoa, entre tantos criadores que por cá passaram. Esta exposição é, pois, mais uma expressão desse percurso e dessa marca já secular, da qual não abdicamos.
Carlos Carreiras
Presidente da Câmara Municipal de Cascais
Neo-realistas no Palácio da Cidadela
Ao longo dos séculos, a Arte tem vindo a contar-nos histórias em que se articulam imaginação e representação da realidade: os criadores expressam-se nas mais variadas formas e estilos, para nos darem a conhecer o resultado do seu labor, tantas vezes repleto de manifestações contra ou a favor das justiças ou das injustiças dos dias em que têm (temos) de viver.
A Arte é, por outro lado, um momento único de criação, um acto solitário entre artista e obra do qual nasce uma forma de expressão ou simplesmente o corpo do puro prazer que habita obscuramente o processo criativo, assente na caneta que percorre o papel, num pincel cheio de tinta numa tela, numa escultura que se ergue da pedra ou da madeira ou na captação instantânea de uma imagem que se impõe à frente do fotógrafo.
É importante salientar que a obra de Arte, que adquire esse estatuto quando é posta em contacto com o receptor, também aí deixa de ser apenas do emissor (o artista), para se tornar uma partilha, em que pode ganhar novas interpretações, novos contextos, desafiando quem a consome.
A Fundação D. Luís I, responsável pela gestão programática dos equipamentos culturais de Cascais, tem vindo a proporcionar a fruição das mais variadas correntes e movimentos artísticos, apostando numa programação eclética, exibida nos museus e em diversos espaços emblemáticos, como é o caso da Galeria de Exposições do Palácio da Cidadela, equipamento situado em pleno Bairro dos Museus.
Cabe agora aos neo-realistas virem ao nosso encontro para um Assalto ao Palácio de Verão, com que muitos terão utopicamente sonhado, no nobre e emblemático Palácio da Cidadela, espaço monumental escolhido pelo Rei D. Luís I, patrono a Fundação, e pelo seu filho Rei D. Carlos, para a família passar alguns meses de verão.
Recebemos nesta exposição peças de artistas portugueses e estrangeiros que durante largo período do século XX despertaram consciências através de manifestações de rebeldia que, pelas suas distintas propostas, desafiam a ideia do monolitismo de que foram acusados: Júlio Pomar e Carlos de Oliveira, por exemplo, nunca abdicaram das suas pessoalíssimas visões estéticas, sendo que o que todos comungavam era o anseio de uma sociedade mais justa e solidária. Por isso, denunciaram e intervieram aludindo a direitos sociais, provocaram o regime através do chamado Neo-realismo, corrente que chegou a Portugal nesses anos, essencialmente vinda de Itália, sendo, por isso, uma iniciativa que se integra perfeitamente no âmbito das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.
A par das outras actividades celebratórias que foram e continuarão a ser organizadas pela Fundação D. Luís I, este “assalto” ficará à disposição de todos aqueles que cheguem ao Palácio da Cidadela e terá um conjunto visitas-ateliê dinamizadas pelo Serviço Cultural e Educativo.
As peças desta exposição integram a coleção do Museu do Neo-Realismo, ao qual agradecemos a oportunidade e a colaboração para juntos apresentarmos o trabalho de artistas que ousaram contestar o poder autocrático com diversas expressões de criatividade à qual não faltou sentido visionário. É na Cultura e na antecipação do seu multímodo futuro que a Fundação D. Luís I se inspira para potenciar momentos baseados no rigor, na qualidade e na inclusão, privilegiando o conhecimento e a inovação. Afinal, ao talento associamos a rigorosa organização dos nossos eventos, para garantir uma oferta diferenciada que coloca Cascais entre os principais centros culturais nacionais e internacionais.
Salvato Telles de Menezes
Presidente da Fundação D. Luís I
Um Assalto (das imagens) do Povo
Há pouco mais de cem anos, soldados revoltosos invadiam o Palácio de Inverno, em São Petersburgo, dando início à Revolução Bolchevique. Hoje, dezenas de obras de arte de inspiração marxista marcam a sua presença no Palácio da Cidadela, um dos palácios de Verão mais importantes de Portugal.
A evocação é simbólica, mas representa uma ascensão concreta, a possibilidade de a atenção ao povo que o neorrealismo apresentou nos anos 1940 e 1950 poder ocupar as paredes de um palácio com peso histórico e institucional. Em parte, a arte neorrealista perdeu-se no sonho político desse “amor ao povo” para se reencontrar mais tarde na memória da sua poética.
Comunicar essa maneira particular de dar a conhecer o valor do trabalho e da solidariedade entre os mais desfavorecidos da sociedade, foi a grande ambição do realismo social português. Nessa medida, a arte venceu. Ajudou a conquistar um espaço de visibilidade para o povo, apoiando uma maior consciencialização sobre as reivindicações daqueles que o Estado Novo pretendia ocultar.
Porém, mesmo quando retrata a “figuração do povo” e as suas condições sociais mais adversas, entre promessas de transformação e poéticas resistentes, uma fatura de modernidade estética particulariza os resultados do neorrealismo português. A matriz de pluralidade formal da produção artística desse período e o sentido crítico da sua comunicação devem apoiar ainda uma distinção inequívoca face ao retorno da “figuração”, da “história” e da “identidade” que assistiu as políticas oficiais dos regimes ditatoriais da Europa, que insistiram no controlo sobre os significados da arte, tendo em vista a perpetuação dos poderes instituídos.
Nestes prevaleciam afinal valores mais conservadores e académicos, definidos por um realismo associado à mimetização naturalista e à monumentalização hierática exigida aos propósitos de glorificação dessas “figuras” – traduzidas na idealização heroica do operariado e do campesinato (realismo socialista soviético) ou na reconfiguração desse ideal clássico do corpo atlético, pretensamente purificado pela “superioridade racial” (Alemanha nazi). Longe dessas “figuras de autoridade” (Benjamin H. D. Buchloh), o neorrealismo recorreu a um abundante tecido de referências, resolvido na concordância formal entre o regresso da figura e a sua tradução moderna.
Ao mesmo tempo, o neorrealismo observa ainda, para além de uma esperança no poder da arte, nas vantagens da sua empatia, um imperativo ético, o empenho de uma mensagem mais ou menos explícita, mas não ilustrativa, do seu conteúdo social e político. Esta mensagem, feita de cores e de vozes, visava alcançar uma visão incómoda e mesmo crítica do poder vigente, apresentada, porém, como declaração de um “amor ao povo”, ao denunciar as suas dificuldades e sofrimentos, sem esquecer uma atenção lírica aos seus costumes, desejos e ambições.
Nestes prevaleciam afinal valores mais conservadores e académicos, definidos por um realismo associado à mimetização naturalista e à monumentalização hierática exigida aos propósitos de glorificação dessas “figuras” – traduzidas na idealização heroica do operariado e do campesinato (realismo socialista soviético) ou na reconfiguração desse ideal clássico do corpo atlético, pretensamente purificado pela “superioridade racial” (Alemanha nazi). Longe dessas “figuras de autoridade” (Benjamin H. D. Buchloh), o neorrealismo recorreu a um abundante tecido de referências, resolvido na concordância formal entre o regresso da figura e a sua tradução moderna.
Ao mesmo tempo, o neorrealismo observa ainda, para além de uma esperança no poder da arte, nas vantagens da sua empatia, um imperativo ético, o empenho de uma mensagem mais ou menos explícita, mas não ilustrativa, do seu conteúdo social e político. Esta mensagem, feita de cores e de vozes, visava alcançar uma visão incómoda e mesmo crítica do poder vigente, apresentada, porém, como declaração de um “amor ao povo”, ao denunciar as suas dificuldades e sofrimentos, sem esquecer uma atenção lírica aos seus costumes, desejos e ambições.
Nestes prevaleciam afinal valores mais conservadores e académicos, definidos por um realismo associado à mimetização naturalista e à monumentalização hierática exigida aos propósitos de glorificação dessas “figuras” – traduzidas na idealização heroica do operariado e do campesinato (realismo socialista soviético) ou na reconfiguração desse ideal clássico do corpo atlético, pretensamente purificado pela “superioridade racial” (Alemanha nazi). Longe dessas “figuras de autoridade” (Benjamin H. D. Buchloh), o neorrealismo recorreu a um abundante tecido de referências, resolvido na concordância formal entre o regresso da figura e a sua tradução moderna.
Ao mesmo tempo, o neorrealismo observa ainda, para além de uma esperança no poder da arte, nas vantagens da sua empatia, um imperativo ético, o empenho de uma mensagem mais ou menos explícita, mas não ilustrativa, do seu conteúdo social e político. Esta mensagem, feita de cores e de vozes, visava alcançar uma visão incómoda e mesmo crítica do poder vigente, apresentada, porém, como declaração de um “amor ao povo”, ao denunciar as suas dificuldades e sofrimentos, sem esquecer uma atenção lírica aos seus costumes, desejos e ambições.
Iniciada no Outono de 2019, a colecção fotográfica internacional do Museu do Neo-Realismo, A FAMÍLIA HUMANA, conta actualmente com cerca de 800 fotografias de mais de 230 artistas de 35 nacionalidades (incluindo 17 portugueses), cobrindo 83 países. Estão representados alguns dos maiores nomes da história da fotografia, como Edouard Boubat, Henri Cartier-Bresson, Alfred Eisenstaedt, Gisèle Freund, Dorothea Lange, Fritz Henle, David Seymour, W. Eugene Smith, Erika Stone, Weegee, etc., além de ter revelado fotógrafos importantes como Annemarie Clarac, Vinnie Fish, Mauricio Fresco, Claude Jacoby, Otto Karminski, etc. O conjunto segue as sete idades humanas, do nascimento e da infância, “choramingando e bolsando”, à morte, “sem dentes, sem olhos, sem sabor, sem nada”, descritas por William Shakespeare em Como lhe Aprouver. O título é uma lembrança de “The Family of Man”, a mais célebre exxposição de fotografia de todos os tempos, que abriu em Nova Iorque em 1955 – com curadoria de Edward Steichen – e circulou por 36 nações em todos os continentes, para regalo de mais de dez milhões de pessoas que a visitaram. No Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira, já foi objecto de quatro exposições.
Jorge Calado
Curador da Coleção de Fotografia «A Familia Humana» (Museu do Neo-Realismo)
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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