Centro Cultural de Cascais,
Piso 1
22 Jan » 2 Abr ’23
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Dorindo, Uma Pintura de «Reencontro», Serafim Ferreira, abril de 1993
Do Tempo Comum ao Tempo do Espírito:
Realidade e Transfiguração na Pintura de Dorindo
NO ANO SEXAGÉSIMO DO SEU PERCURSO CRIADOR
José Fernando Tavares
Da relação entre a Arte e o Tempo já o juízo universal se pronunciou. E fê-lo desde o momento da eclosão de uma consciência estética, algures, num lugar e num tempo desconhecidos, ou em diversos lugares e em tempos díspares revelada sem jamais esconder a sua aura de mistério. Sabemos tratar-se de uma relação fenomenológica porque a Arte e o Tempo constituem uma realidade inseparável e unívoca cuja revelação é o resultado de uma força e de uma potência que nenhuma corrente interpretativa poderá explicar, dado o mistério dessa assombrosa revelação. Se a noção de espírito do tempo é falaciosa e inaceitável para a objectividade científica, essa noção nunca deixou de ser uma realidade insuspeita na sua inexorável evidência. A evolução da expressão artística em todas as suas derivações tem vindo a cumprir-se no devir e na verdade da sua pureza anímica, a verdade pura, sem mácula, que lhe assiste desde os primórdios: a verdade que subjaz a toda a representação do real seja ele concreto ou metafísico, plenamente figurativo ou exultantemente abstracto.
Sabemos que o Tempo é um composto de experimentação, de maturação, de falência e de triunfo e que todos esses elementos concorrem para que a expressão criadora se manifeste e se revele, não apenas perante a evolução civilizacional, mas também perante essa inteligência universal que é sustentada pelo devir de novos códigos que a afirmam e a inscrevem na história dos homens. É uma história que não admite a falência da obscuridade porque está sempre a ser vítima dela. E combate-a: não com a verdade de falsos valores apregoados pela história política, mas sim com essa pureza original que pode ser reconhecida na expressão artística, veiculada através da multiplicidade das suas formas e caminhos. Há uma senda comum entre a história da pintura e a história da poesia: há um olho do espírito (Maurice Merleau-Ponty, 1960) que unifica ambas as sensibilidades e que conflui nesse rio imaginário onde toda a Arte vem desaguar, ora para morrer ora para se manifestar no grito (Münch, 1893) definitivo da criação.
A obra plástica de Dorindo Carvalho comunga dessa pureza e da verdade que lhe é intrínseca. Dorindo é o grande mestre da Forma porque a reinventou durante os últimos sessenta anos. E reinventou-a tendo sempre como referência o homem e a sua condição. Esse é o seu mérito e o seu fulgor: um fulgor sem sombras visíveis, não obstante o jogo do claro-escuro ou a dança das cores e do seu revelador equilíbrio. Da Forma fica apenas a sua essência, a sua mais íntima significação. E é aí que reside um dos grandes segredos da pintura: o seu grau de enunciação, à semelhança da tensão poética, fica reservado ao papel fundamental do observador, o elemento decisivo que completa a Obra pictórica e lhe confere a última significação, a qual, sendo a última para si, jamais se permite abandoná-la a um significado: a Obra é uma entidade viva e autónoma, mesmo quando o artista a integra intencionalmente numa série temática ou formal, ampliando o horizonte espectral do observador.
O elevado nível de experimentação (que nunca deixou de ser uma luminosa revelação) a que o trabalho pictórico de Dorindo tem sido submetido ao longo dos últimos sessenta anos de história, faz com que ela se assuma como uma obra inacabada. É de notar, contudo, que essa característica não significa que se trate de uma obra declaradamente incompleta: a Obra sujeita-se, per si, ao seu perpétuo inacabamento. À semelhança da vida, está sempre a ser reinventada porque há nela uma dimensão questionadora, incisivamente interrogativa, assertivamente disfórica, enunciadora de uma verdade para sempre suspeitosa: jamais a verdade última, mas sempre detentora de uma verdade, da sua verdade, aquela que garante, justamente, a sua perenidade no Tempo, uma perenidade que pode ser também uma manifestação da própria (e quantas vezes legítima) eternidade. Isto significa que o trabalho criador possui, em Dorindo Carvalho, uma constante transfiguração, não apenas sujeita às metamorfoses do tempo, mas também à sua anímica inquietação, à sua insatisfação questionadora.
O trabalho pictórico que Dorindo expõe aos seus visitadores (trabalho que é também uma irredutível manifestação do Tempo), pode constituir, no seu conjunto, um indício de eternidade. Mas é o Tempo e sempre o Tempo, já não o Tempo Comum mas o Tempo do Espírito, que pronunciará a última palavra: aquela em que tudo principia, anunciando um novo percurso criador, aquele que irá reinventar o sentido final da pintura de Dorindo.
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