Palácio da Cidadela de Cascais,
Galeria de Exposições
13 Nov » 23 Abr ’23
De Terça a Domingo
das 10h00 às 13h00
e das 14h00 às 18h00
Última entrada: 17h40
Expõe-se um conjunto de mais de 100 peças da bonecreira barcelense Rosa Ramalho (1888-1977), pertença de um colecionador, Tito Iglésias (1933-2014), e que se mantiveram, durante umas largas dezenas de ano, longe da vista do público. A exposição dá-nos a conhecer a bonecreira e o seu colecionador bem como a prolixa produção daquela. As peças encontram-se distribuídas ao longo de várias salas, começando por dar a conhecer os aspetos em que Rosa Ramalho encarna a «imitação» de peças que aprendeu a fazer ainda menina, no final do séc. XIX, e aquelas em que é notória a sua reconhecida «criatividade». O visitante vai também ficar a conhecer as técnicas utilizadas por Rosa Ramalho na produção de figurado e vai poder percorrer as diferentes salas ficando a conhecer de que modo a bonecreira tratava temas como, por exemplo, vida quotidiana, festa e divertimentos, religião, fauna, bestiário e bicho feroz com boca de… lampreia!
Venha conhecer a obra daquela que é uma das mais conhecidas bonecreiras portuguesas, a barcelense Rosa Ramalho, e como alguém que admirava o seu trabalho e com ela conviveu, Tito Iglésias, escolheu as peças por ela produzidas e que hoje, pela primeira vez, são mostradas publicamente.
Fotografia da capa: Exposição de figurado de Rosa Ramalho no Hotel de Santa Luzia, em Viana do Castelo, dezembro de 1969. Da esquerda para a direita: Tito Iglésias, Rosa Ramalho, Amadeu Costa e desconhecido. (Arquivo de Teresa Ramalho).
Rosa Ramalho: As Escolhas de um Colecionador
Curadora: Isabel Maria Fernandes
Tito Iglésias, nome pelo qual ficou conhecido, nasce em Santiago de Compostela, em Espanha, a 21 de junho de 1933. Vem para Portugal, com cerca de dois anos, fixando-se com seus Pais e irmãos, no Monte Estoril, concelho de Cascais, localidade onde o seu avô paterno tinha negócios e transformara, em 1914, o antigo chalet Almeida Pinheiro, no icónico Hotel Miramar. Aí cresce e estuda. Matriculado no curso de Direito, o contexto familiar leva-o antes a enveredar pelas áreas da Hotelaria e Turismo, tendo vivido em Paris, Luanda, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. A partir de 1991, fixa residência em Paço de Arcos, concelho de Oeiras, onde faleceu, a 29 de abril de 2014.
Em 1979, no Brasil, é distinguido com o Prémio Apesul de Poesia. Em 1981, Tito Iglésias figura com um dos seus poemas numa obra editada pela Biblioteca Nacional, e organizada por Mário Cesariny de Vasconcelos. Publica os seus poemas em Portugal, Espanha, Angola e Brasil, em português e castelhano, colabora com a imprensa, e na qualidade de Gestor Hoteleiro e Promotor Turístico, é citado como fazendo parte da história da imprensa turística portuguesa. É neste quadro de vida pessoal e profissional que Tito Iglésias conhece Rosa Ramalho e se deixa encantar pela sua obra. Visita-a, adquire e encomenda-lhe peças, acabando por reunir uma vasta coleção. Contribui ainda para a sua divulgação na imprensa.
A dimensão da coleção impediu que a maioria das peças estivessem expostas na sua residência. Ficariam guardadas durante 52 anos, tendo sido recentemente «resgatadas» do local onde se encontravam, pela filha e neto do Colecionador, para verem «a luz do dia», incentivando-se a missão de divulgar, emprestar, e conservar este património, de forma plena. Parece-nos possível afirmar que estamos perante uma coleção bem datada, de 1969, organizada por um colecionador, Tito Iglésias, que se deixou fascinar por Rosa Ramalho e pela sua obra, tal como muitos outros intelectuais daquela época.
ROSA RAMALHO: IMITAÇÃO E ORIGINALIDADE
No final do séc. XIX o figurado de Barcelos já se produz, sendo documentado, em 1899, por H. N. Shore e Rocha Peixoto. Lembremos que, em 1899, Rosa tinha onze anos, sendo que terá começado a fazer figurado com cerca de sete anos de idade, por volta de 1895. Ou seja, já era bonecreira quando Shore e Rocha Peixoto documentam o fabrico de figurado de Barcelos. Rosa aprendeu a fazer figurado de pequenas dimensões, vidrado com vidrado estanífero, à cor da loiça utilitária de Barcelos, como alguidares, porrões, infusas… Terá, talvez, também, começado a «inovar», fazendo o figurado pintado, de modo tosco, com tintas não cerâmicas.
Se compararmos as peças adquiridas e publicadas por Rocha Peixoto, e cujas aguarelas foram executadas por Aurélia de Sousa, verificamos que Rosa Ramalho é herdeira desta tradição, continuando a produzir, ao longo dos anos em que exerceu a arte, um significativo número de peças que aprendeu a fazer ainda muito jovem. Entre as peças desta bonecreira, herdeiras de uma tradição de fabrico de figurado de Barcelos, podemos referir, por exemplo, o rei e o militar a cavalo, choca com pintos, junta de bois, ouriço cacheiro que vai às maçãs, leão, sardão, alguns animais híbridos, as alminhas…
Mas se o figurado de Rosa Ramalho é herdeiro da produção oitocentista, continuando ela a fazer o que antes dela faziam os bonecreiros barcelenses, a verdade é que esta bonecreira também soube inovar. Quando Rosa Ramalho é «descoberta» por António Quadros, na década de 1950, a sua produção começa a deixar de ser destinada à criançada, que nas feiras e romarias adquiria estes «brinquedos» com assobio, para passar a ser peça de coleção, admirada por adultos que as compram para expor no recato do seu lar. Com a mudança dos destinatários, da função das peças e dos novos locais onde são vendidas (Galerias, Feiras de Artesanato), veio a criação de novo «figurado».
Rosa atreve-se, por exemplo, a desenvolver um conjunto de peças de cariz religioso que os bonecreiros antes dela não ousavam fazer. Surgem os «seus» Cristos, as ceias de Cristo, os Presépios, as Procissões, a Rainha Santa Isabel e o Milagre das Rosas, os Santos Populares, o Diabo, o Cabeçudo, o tabuleiro de Xadrez e respetivas peças, placas para pendurar com diversas temáticas, canecas antropomórficas e zoomórficas…
Na tradição do que aprendeu a fazer mantém a produção de animais híbridos e de figuras que nos fazem rir – pela sua não inexistência ou porque transgridem as regras. Dentro desta linha cria, no entanto, novas peças e aumenta-lhes o tamanho, porque é isso que procuram os seus compradores. Rosa é criativa, adora o que faz e é uma mulher pragmática. Percebe que tem compradores para o que produz e adapta as suas criações à procura, sempre com o prazer de criar, de acordo com o que sabe fazer e com as técnicas que conhece e aprendeu no saber-fazer da profissão.
AMIGO DA
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