Em 1483 nascia no Sacro Império Romano-Germânico uma criança que recebeu, nos sacramentos do batismo, o nome Martinus Lutherus.

Lutero e a família viviam ranquilamente em Eisleben, uma cidade a meio-caminho entre Frankfurt e Berlim. A casa onde Martinho Lutero nasceu ainda existe, extremamente bem conservada, sendo actualmente a Casa-Museu Martin Luther.

Como a esmagadora maioria das pessoas daquele tempo, também o pequeno Lutero se entregou à Igreja e alimentou a sua Fé Cristã na esperança da Salvação. Foi menino de coro, sacristão na igreja de Eisleben, rezava com invulgar devoção e confessava-se todos os dias. Na viragem do século XV para o século XVI, e depois dos primeiros estudos na escola local, o pai, que gostaria que ele fosse Doutor em Leis, mandou-o estudar Teologia, Filosofia e Direito. Teria 18 anos quando ingressou na Universidade de Erfurt, em 1501.
Era um jovem bem-disposto, brincalhão: adorava tocar alaúde e dava-se muito bem com todos os colegas, que entretanto lhe deram o alcunha de O Filósofo. Foi o segundo melhor aluno do curso, que concluiu em 1505.

E foi exactamente em 1505 que, dum momento para o outro, tudo mudou na vida de Martinho Lutero. Numa noite em que regressava de uma visita a casa dos pais, foi apanhado por uma medonha tempestade: o céu parecia um inferno, a chuva caía pesadamente e os raios despenhavam-se com estrondo à sua volta. Não se sabe o que poderá ter acontecido nesses longos minutos, mas – ao que se julga – o jovem estudante, aterrorizado, caído no chão de terra convertida em espessa lama, evocou o Santo Nome de Deus, pediu-lhe misericórdia e prometeu que se faria monge se saísse dali vivo.

Tendo sobrevivido à fúria da tempestade, Martinho Lutero cumpriu a promessa e entregou-se à clausura monástica, na Ordem dos Agostinhos, com impoluto fervor ascético. Um fervor com que pretendia agradar a Deus e que atingiu limites incompreensíveis, como a autoflagelação e os longos e dolorosos jejuns.

Só saiu da clausura em 1510, para integrar uma delegação a Roma. Foram a pé e a viagem durou dois meses. Ao chegar, Lutero ficou impressionado com a beleza das casas, a sumptuosidade dos palácios, a exuberante riqueza das igrejas. Viu Miguel Ângelo a pintar a Capela Sistina. E viu também a gigantesca dimensão do materialismo, da opulência e do cinismo com que os «donos» da Igreja exploravam os seus milhões de Fiéis. Regressou à Alemanha profundamente decepcionado.

Durante anos estudou Grego e Hebraico, para poder aprofundar o significado das palavras e compreender a arte retórica das Escritura, conhecimentos que de imediato aproveitou para a tradução que, quase em segredo, estava a fazer da Bíblia para língua alemã.

Contudo, poucos anos mais tarde, tudo voltaria a mudar radicalmente na vida de Martinho Lutero, quando foi confrontado com o gigantesco negócio das indulgências; uma declaração do Papa, autenticada a lacre com o selo do Vaticano, que permitiam à Igreja negociar com os Fiéis a salvação do Purgatório.

O sinistro frade Johann Tetzel fora recrutado para viajar através dos territórios sob tutela do arcebispo Alberto de Mogúncia, aterrorizando as populações: “Assim que uma moeda tilinta no cofre, uma alma sai do Purgatório”, dizia.

Lutero, abominando este negócio das Indulgências, que rendia fortunas ao Vaticano, proferiu vários sermões contra a prática desse e de outros expedientes com que a Igreja Católica dominava e explorava os fiéis. Segundo a tradição, em 31 de Outubro de 1517 Lutero afixou na porta da Igreja de Wittenberg as suas demolidoras 95 Teses que rasgaram um fosso tremendo, irreversível, entre ele e os Poderes da Igreja Católica.

As 95 Teses de Lutero foram imediatamente traduzidas para o alemão e amplamente copiadas e impressas graças à grande criação de Gutenberg: a Imprensa. Em duas semanas tinham-se espalhado por toda a Alemanha; e em poucos meses chegaram a toda a Europa. A proclamação de Martinho Lutero empolgou multidões e despertou consciências.

Irritado com tamanha afronta, o Papa Leão X ordenou que Silvestre Mazzolini, conhecido professor de Teologia, investigasse o caso. Mazzolini depressa concluiu que Lutero era um herege, condenando as teorias do frade alemão, sugerindo a sua excomunhão.

Lutero replicou, expondo novos e mais contundentes argumentos, nomeadamente em relação a alguns dogmas da Igreja, desencadeando uma violenta controvérsia. Lutero, que anteriormente professava a obediência implícita à Igreja, negava agora, abertamente, a autoridade papal e apelava à realização de um Concílio.

O Papa, decidido a suprimir por completo os pontos de vista do monge alemão, ordenou que ele fosse chamado a Roma; viagem a que Lutero se negou.

Parecia já não haver espaço para qualquer entendimento. Os escritos de Lutero circulavam amplamente por toda a Europa, penetrando principalmente em França, Inglaterra, Itália, bem como em toda a Alemanha, evidentemente.

As reformas que Lutero propunha não se referiam apenas a questões doutrinárias, mas também aos abusos eclesiásticos. Muitas dessas propostas reflectiam os interesses da nobreza alemã, revoltada com sua submissão ao Papa e, principalmente, com o facto de terem que enviar grandes riquezas para Roma.

O completo desenvolvimento da doutrina de Lutero sobre a salvação e a vida cristã foi exposto em mais um dos seus livros, “A Liberdade de um Cristão”, onde reivindicava uma completa união com Cristo mediante a palavra e através da fé.

Em Junho de 1520, o Papa ameaçou Lutero com a excomunhão, a menos que, num prazo de setenta dias, repudiasse a sua doutrina.
Lutero foi então chamado à Grande Dieta de Worms para publicamente renunciar, ou confirmar, as suas teses, os seus escritos, os seus livros, as suas convicções. Johann Eck, assistente do Arcebispo de Trier, mostrou então a Martinho Lutero uma mesa cheia de cópias dos seus escritos, inquirindo se os livros eram seus e se ele acreditava verdadeiramente no que as suas obras diziam.

Lutero, repudias os teus livros e os equívocos que eles contêm?, perguntou Trier
Depois de uma longa pausa que angustiou os inquisidores, Lutero respondeu:
Repudiarei quando me provarem – mediante testemunho das Sagradas Escrituras e claros argumentos da razão – que estou errado por não acreditar nem no Papa, nem nos Concílios, nem nos actuais Poderes da Santa Igreja Católica, já que está sobejamente provado que todos estão errados. […} Esta é a minha posição. Que Deus me ajude.

A recusa de Lutero perante os poderosos da Grande Dieta de Worms inflamou o entusiasmo da multidão que corria atrás de Lutero para o abraçar ou tocar, agradecendo assim o sentimento de liberdade que lhes tinha oferecido. Contudo, na sua viagem de regresso de Worms, Lutero foi vítima de um estranho rapto e levado, encapuçado, para o castelo de Wartburg. Lutero veio posteriormente a saber que o sequestro tinha sido engendrado pelo seu protector, Frederico, o Sábio, que dessa forma o pôs ao abrigo de possíveis tentativas de vingança. Martinho Lutero permaneceu no castelo durante quase um ano. Durante esse retiro forçado, Martinho Lutero trabalhou, obstinadamente, na sua célebre tradução da Bíblia para alemão. Foi com reconhecimento que ofereceu ao seu protector o primeiro exemplar da sua extraordinária obra: uma obra que permitiu aos alemães que não sabiam latim (a esmagadora maioria da população) a possibilidade de lerem e compreenderem a Bíblia escrita na sua língua materna.

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