Centro Cultural de Cascais,
Piso 2
5 Mar » 28 Mai ’23
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Robert Bresson, in Notas sobre o Cinematógrafo
Uma Espécie de Pacto de Silêncio
SEBASTIÃO CASTELO LOPES
Existe no processo de trabalho de Sebastião Castelo Lopes (n.1994, Lisboa) um rigor sistemático pouco usual, quase laboratorial. No atelier, verifica-se um ímpeto metodológico: irremediavelmente usa o mesmo papel, com as mesmas dimensões (ora 100×70, ora 70×50) com os mesmos materiais (carvão e acrílico), com as mesmas cores (preto, branco). Cada desenho tem o seu espaço e tempo de intervenção pré-determinado e encontra-se numa espécie de processo, cíclico e rotativo, que se traduz num movimento de retorno à multiplicidade (por vezes, várias dezenas) de desenhos que em cada momento ocupam a atenção do artista. Trata-se de um processo (em alguns casos ao longo de três anos) de desenhar camadas sobre camadas de imagens, citações roubadas sobre citações. Rouba; recicla; reutiliza; danifica; risca; apaga; e constrói ciclicamente cada uma das suas obras.
No desenho denota-se o gesto que, simultaneamente, apaga e constrói, edifica e remove.
Ao invés de esconder, a cronologia das superfícies torna-se visível: é tanto esboço como produto final, tanto rascunho como objecto estético. De certo modo, os trabalhos contrariam a ideia de que a construção (o processo de criar o que quer que seja) antecipa um objecto completo.
Basta deixar correr o olhar pelas obras que se coloca a questão: o que estamos a ver? São desenhos? Ou, são objetos escultóricos? Esta indeterminação formal no trabalho de Sebastião reflete imediatamente a sua preocupação numa não categorização do seu trabalho.
Os desenhos encontram-se emoldurados por caixas imperfeitas. Plasticamente, a moldura transcende a sua condição de mero suporte de obras. Quer dizer, nas molduras encontramos objectos escultóricos, representações extensas. Como que numa ambiguidade entre meios de representação: se por um lado os desenhos representam silhuetas de objectos no espaço (esboços de objectos que projectam a sua fisicalidade e realização material), as esculturas, por outro, consignam um retorno à linguagem gestual do desenho: no branco, no negro, na imperfeição, no erro e na composição. Fecundamente, Sebastião desenha a escultura no preciso momento em que esculpe o desenho, sem pontos de partida ou de chegada.
Cada linha, cada traço pertence a um conjunto de códigos de representação, não do real, mas da linguagem escultórica dos próprios objetos. Trata-se de desenhar o espaço, como forma de pensar e habitar o mesmo. Desenhar como uma extensão do pensamento, como ponto de partida para a escultura. Como que num gesto arquitectónico.
Na miríade de representações que os desenhos manifestam, encontramos esboços. Rascunhos de estruturas que, em seu turno, se materializam nos objectos escultóricos. Imediatamente, denotam-se traduções físicas de representações plásticas: desenhos de caixas dentro de caixas de madeira; representações de estilhaços de madeira próximos de pedaços físicos de madeira; apresentações do espaço, por sorte das próprias salas da exposição: as representações em “UMA ESPÉCIE DE PACTO DE SILÊNCIO” ganham corpo, fisicalidade e expressão material.
Em “UMA ESPÉCIE DE PACTO DE SILÊNCIO”, representam-se imprecisões e imperfeições, como que numa remissão à impermanência inelutável das formas do mundo. Se por um lado as caixas sinalizam um método atento, sistemático e universal imposto no atelier, as obras, por outro lado, manifestam gestos passados, lapsos e imagens intrinsecamente elusivas ou polivalentes. Talvez seja por isso que há tanto de visível como de imaginário na obra de Sebastião: porque é, incontornavelmente, um convite à associação e escrutínio entre a superfície e os fantasmas que esconde.
O espaço que Sebastião Castelo Lopes nos apresenta é exigente. É um local em que a leitura exige a participação. Exige a relação, síntese, comparação e associação entre o diferente: entre o desenho e a escultura, o produto final e o rascunho, entre o espaço e as obras que nele se manifestam, entre o detrito e escombro, entre obra e poesia. Irresoluta e indecisa, a exposição antecipa uma montagem do entendimento e imaginação, pensamento e corpo, realidade e ficção. Promove-se, enfim, uma auscultação das relações íntimas entre objectos. No que os une e separa, nas fissuras e iatos, nas imperfeições e incumensurabilidades.
Apreende-se adivinhando: palpita-se. Como que num espaço enigmático e, por isso mesmo, lúdico: na construção — montagem (e re-montagem) — de um universo de miscegenações e hibridismos. Por sorte que a exposição seja “UMA ESPÉCIE DE PACTO DE SILÊNCIO” de si para consigo, uma viagem diarística que tanto se refere à obra como àquele que a indaga.
Frederico Portas e Tomás Agostinho
Lisboa, 14 de Fevereiro de 2023
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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