Centro Cultural de Cascais
Piso 0
6 Abr » 20 Jun ’21
De terça a domingo
das 10hàs 18h
última entrada às 17h40
“STIMMUNG – O sentimento da paisagem” é uma instalação de Manuel Valente Alves cujo ponto de partida é uma pintura de acrílico sobre tela do autor, datada de 1989. Esta pintura icónica assemelha-se a uma matriz, um modelo de representação da paisagem: um quadrado dentro de um quadrado a lembrar a perspectiva, o céu e a terra separados pela linha do horizonte, uma árvore e uma montanha. Desde então e até muito recentemente Manuel Valente Alves tem utilizado a fotografia, o vídeo e o desenho como técnicas e suportes preferenciais para criar instalações, desenvolver séries e outros projectos, nomeadamente de edição em livro, em DVD e na web.
Em “STIMMUNG – O sentimento da paisagem”, que decorre na Fundação D. Luís I, em Cascais o autor retoma a pintura, agora associada ao vídeo, à fotografia e ao desenho. A instalação organiza-se em 3 núcleos, 3 salas, a partir desta pintura icónica de 1989. Na primeira sala são expostas paisagens imaginárias e céus com nuvens, sem lugar nem tempo definidos, pintadas com acrílico sobre tela, numa estratégia de representação atemporal, pré-romântica. Na segunda sala será exposta uma paisagem pintada, também imaginária, e uma projecção vídeo, “My Ocean”. Porque o sentimento da paisagem não é possível sem a sua experiência vivencial, este vídeo é uma peça central da exposição. Traduz a experiência vivida pelo de um lugar concreto, o Parque Natural Sintra-Cascais, durante um período temporal específico, entre Outubro de 2019 e Março de 2020. Durante esses seis meses, no decorrer das inúmeras caminhadas e passeios que realizou ao longo da costa, junto ao mar, o autor foi anotando em vídeo, através da câmara do meu smartphone, as impressões do lugar, as suas variações atmosféricas. A montagem exprime a ligação do autor a este lugar tão especial, onde a natureza e a cultura se interligam. Na terceira sala estarão expostas um grupo de fotografias antigas e recentes e uma série de desenhos e pinturas recntes. Neste núcleo, o sentimento da paisagem complexifica-se. Surge o jardim. A arquitectura impõe-se, a cultura tenta domesticar a natureza. Emerge então o conceito de Arcádia, um modelo de paraíso terrestre idealizado por Virgílio. Lugar de beleza e fruição da natureza, certamente, mas também de violência e barbárie humanas.
A Imagem da Paisagem
Ano sim, ano não, vou a Veneza. Não faço esta viagem, que tem sempre lugar no fim do Verão, apenas na expectativa de um reencontro com a sereníssima cidade. Na decisão de partir influi sempre a vontade de ver arte, não apenas a arte contemporânea que a Bienal nos oferece em anos ímpares, mas aquela que, a cada esquina, em cada ponte, em cada ruela ou curva de um canal, enche os olhos confirma aquilo que eu esperava reencontrar antes de partir. Quando chego a Veneza, apanho o autocarro que, do aeroporto, me deixa na Piazalle Roma. Daqui, tenho duas hipóteses: ou o vaporetto mais rápido, que contorna o buliçoso canal e me deixa quase à porta do hotel, ou o percurso mais demorado, que desce o Gran Canale, demorando-se em cada estação para despejar e recolher um molho de turistas e locais. Este é o melhor; é o único que me permite sentir que verdadeiramente cheguei ao meu destino, no encontro com a paisagem de Veneza, a mesma que trago dentro de mim e que espero voltar a ver uma e outra vez.
O que é a paisagem? Manuel Valente Alves escolheu, para título desta sua exposição, Stimmung – O sentimento da paisagem. Não foi por acaso que optou por uma palavra alemã, numa alusão ao Romantismo germânico, que, não apenas significa sentimento, mas humor, estado de espírito. Acrescentou-lhe o genitivo “da paisagem”, como se esta fosse um organismo que tivesse sentimentos, paixões, vontades, desalentos. Ou o seu contrário, que não é de todo exclusivo da primeira premissa. Será que a paisagem é um sentimento? Será que eu posso identificar esse sentimento, essa reacção, que é também fisiológica, no momento em que contemplo ou convoco a paisagem? Voltemos à viagem a Veneza. Desde o século XVII, desde Canaletto , que esta é uma cidade que atrai não apenas pintores, ávidos da luz incomparável que se derrama sobre a laguna, rarefeita pelas brumas do final da tarde, mas escritores, poetas, músicos, entre toda a espécie de viajantes desejosos de experimentar eles também, ao vivo, as imagens divulgadas por centenas de suporte de toda a espécie. Queremos, nós também, homens e mulheres do século XXI, afrontar o calor, a humidade, os mosquitos que não deixam abrir uma janela à noite, o barulho e os encontrões para termos a mesma – achamos nós! – experiência que tantos outros tiveram antes de nós. Neste sentido, o que eu vou encontrar em Veneza é, de facto, uma experiência e, porque não dizê-lo, um sentimento. A paisagem que vou descobrir estará, em primeiro lugar, dentro de mim. Depende da minha fisiologia, do meu corpo; dos meus olhos, dos meus ouvidos, do meu sentido do olfacto, da minha percepção, enfim, e da minha memória.
Mas que paisagem é essa? Será, por exemplo, a vista que da ponte da Academia se abre sobre a Salute e a laguna. Neste caso, de tão repetida e fotografada, é impossível dissocia-la de todos os edifícos que bordam o Gran Canal, da cúpula branca da igreja, ao fundo do lado direito, das janelas corridas dos palácios, dos postes de amarração e do trânsito buliçoso dos barcos. Com poucas diferenças, é a mesma vista que Canaletto pintou, que ele fixou definitivamente no grande arquivo das imagens, que outros se esforçaram, esforçam e esforçarão por repetir enquanto houver Veneza. Repare-se que esta paisagem não é indissociável da cidade. Ela, na realidade nunca o é, pois é a cidade – a cultura e a civilização – que permitem a difícil definição de Natureza. Natureza é tudo o que está fora da cidade, tudo o que foge às leis da perspectiva linear, e isto embora a mesma perspectiva seja, como sempre foi desde o século XV, um modo de aprisionar o espaço dentro do rectângulo da pintura. A paisagem identifica-se assim com a Natureza, e esta identificação é tão forte que, na viajem a Veneza, eu procuro a pintura da cidade. Que no meu íntimo mais íntimo, é uma só com aquilo que vejo.
Em Stimmung – O sentimento da paisagem, Manuel Valente Alves parte de uma sua pintura relativamente antiga, de forma quadrada, que coloca em situação todos os elementos deste género pictórico. Lá estão quatro dos elementos constitutivos da pintura de paisagem: a terra, a montanha, a árvore e o céu. Sem matizes nem gradações cromáticas, a pintura apresenta-nos, sob uma forma que convoca a ideia de janela para o mundo (propósito da pintura moderna) um enunciado simples de algo que hoje em dia é sobejamente redundante. Voltamos a Veneza, de novo, e à Tempestade de Giorgione, na Academia de que já falámos acima. Esta que é a primeira pintura onde a paisagem toma o lugar principal – e onde não há estória, mau grado todas as interpretações que dela se fizeram…
Luísa Soares de Oliveira
* Anne Cauquelin, em A Invenção da Paisagem (Edições 70, 2008), estabelece uma útil genealogia do conceito de paisagem, demonstrando como ele é uma criação cultural.
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