Centro Cultural de Cascais,
Piso 1
27 Abr » 7 Jul ’24
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Para as mulheres, a carreira de realizadora de cinema nos Estados Unidos, na primeira metade do século XX, era uma corrida de obstáculos. As mulheres estavam empenhadas em alimentar a fábrica de sonhos, mas não em realizá-los, o que significava que todas as carreiras por detrás da câmara estavam inquestionavelmente destinadas aos homens. Ruth Orkin (Boston, 3 de setembro de 1921 – Nova Iorque, 16 de janeiro de 1985) teve de renunciar à sua vocação ou, pelo menos, redirecioná-la e transformá-la, e este contratempo talvez viesse a moldar definitivamente a sua obra fotográfica.
Ruth Orkin
A ILUSÃO DO TEMPO
Filha de Mary Ruby, uma atriz do cinema mudo, cresceu nos corredores de Hollywood durante os anos 20 e 30. Recebeu a sua primeira máquina fotográfica aos 10 anos, uma Univex de 39 cêntimos, com a qual começou a tirar fotografias. Mas a verdadeira paixão de Ruth Orkin era a imagem em movimento, o cinema. Trabalhou durante algum tempo como estafeta na Metro Goldwyn Mayer, a correr de um departamento para outro. Contudo, encontrava tempo para deixar os olhos vaguearem e aprender muitas coisas que colocaria constantemente em prática nas suas imagens fixas. No início dos anos 40, estudava simultaneamente fotojornalismo no Los Angeles City College e iniciava uma carreira como repórter fotográfica para grandes revistas ilustradas como a LIFE, a Look e a Ladies Home Journal, entre outras.
Mas o que permaneceria sempre implícito no seu trabalho era o fascínio pelo poder heurístico do cinema. E foi esta oportunidade perdida de seguir a sua vocação que obrigaria Orkin a trabalhar nas margens e a inventar uma linguagem na união dos dois géneros, uma linguagem que se situa num meio-termo entre a imagem em movimento e a imagem fixa, conduzindo assim a uma correspondência permanente entre duas temporalidades paralelas. Estas linhas secretas interferem constantemente umas com as outras, cada uma introduzida na outra, confundem-se, abrem-se ou entrelaçam-se.
Se analisarmos o trabalho de Orkin nesta sua primeira exposição internacional, o fantasma do cinema aparece numa variedade de formas desde as primeiras imagens. Desliza nas pequenas fendas do enquadramento para criar uma dupla profundidade na imagem, na qual o fluxo do movimento inicia o seu ritmo. Uma faísca, uma impressão que encerra um “efeito cinematográfico ou de duração”, uma duração simulada como a de um dos truques invisíveis do cinema, pois não é o cinema, em última análise, a arte do movimento produzido a partir da imobilidade?
Orkin nunca deixou de combinar as qualidades temporais da imagem fotográfica para simular o filme. Sequências, decomposição do movimento, duplicação, simultaneidade, a sua linguagem visual situa-se na junção da imagem fotográfica e do cinema, no cruzamento entre imobilidade e movimento. A fotografia de Orkin é uma mistura, um espaço que restaura o tempo e o movimento, levando a linguagem fotográfica para além dos seus limites até ceder ao poder da ilusão e da magia.
Anne Morin
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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