Centro Cultural de Cascais
(Piso 2)
5 Fev » 8 Mai ’22
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Na obra de Catarina Lucas somos levados a encontrar o testemunho de um espaço esotérico, de criação, do qual a artista parte para a representação íntima da fragilidade do Ser e da condição humana. É através da sua pintura que Catarina Lucas comunica com o exterior, fazendo uso de um discurso pictórico expresso, de traços e movimentos enunciados, levando o observador a acompanhar o seu gesto, ação e emoção através dos trajetos revelados.
O ato de construção e desconstrução contínua marca a criação de Lucas, numa linguagem que se aproxima aos suportes percetuais do expressionismo abstrato, não obstante a sua liberdade prática e concetual. Mais do que corresponder à demanda do concreto, estas obras situam-se no domínio da experimentação, motivada por uma conduta de libertação, emoção, instinto, estimulação.
Essas imagens realizadas muitas vezes não sei de onde vêm. Estão dentro de mim. A superfície da tela é um lugar atravessado por tantas vivências passadas. A pintura acaba por ser um meio de tradução daquilo que trago; as minhas experiências, o meu meio, o meu passado, o meu presente.
Catarina Lucas, 2021.
Piso Lasso, conceito intraduzível que dá título à exposição, reúne obras da artista produzidas entre 2020 e 2021. Ao sermos convidados a interagir com o imaginário da sua criação, através do ato metafórico de caminhar sobre um piso instável, ansioso, acelerado, um Piso Lasso, somos colocados perante o domínio da proximidade à coisa artística. Neste jogo de tensão habitam gestos de força e brutalidade, texturas e espessuras acumuladas. No refúgio das camadas, estas obras procuram construir uma narrativa sobre a experiência pessoal e criativa da artista nos últimos dois anos. O enfoque situa-se, assim, num processo que é muitas vezes decifrável e tangível a partir das dimensões técnicas.
Esta obra assume uma linguagem particular no seio desta exposição. É uma peça composta por duas superfícies, uma vertical de maiores dimensões e outra horizontal de dimensões reduzidas, trabalhadas ambas com técnica mista de pintura a óleo e pastel de óleo sobre cartão. Derme e Epiderme representa as duas partes de um todo, concretizando-se por uma ideia de tensão entre, por um lado, a aparente estabilidade e, por outro, o domínio do caos e da perturbação, anunciado pelas sobreposições de matéria. Aqui se refletem, de um modo ímpar, as experiências de criação que desafiam a natureza do cânone da pintura a óleo. A obra, puramente abstrata, trabalha espaços de conflito densificados pelo contraste entre o movimento do gesto que cobre a superfície vertical, e a supressão desse alisamento na superfície horizontal que explora, numa enunciação de novos espectros da paleta, as texturas que singularizam Derme e Epiderme.
Pierre Bourdieu em Esquisse pour une Auto-Analyse (2004) escreveu Compreender é, em primeiro lugar, compreender o campo em que nos fizemos e contra o qual nos fizemos. Pintada em 2021, a obra Delírio simboliza a procura pelo que representa ser-se nos nossos tempos. Enuncia-se sobre a tela um corpo que, em força, se procura libertar de um ambiente abstrato, obscuro, subjetivo, em que permanece envolto. Somos capazes de sentir a sua torção, sinónimo da condição que dá nome à obra. Esta peça faz parte de um conjunto de obras de maiores dimensões em que a artista utiliza a técnica da pintura a óleo para interagir com a tela. A partir de pinceladas largas de movimentos contínuos e cruzados, nasce um ambiente de desordem que converge ao centro sobre a presença da forma humana. A paleta intensifica o binómio corpo e ambiente, luz e escuridão, vida e morte. Delírio, se quisermos, é o retrato da nossa transitoriedade.
A narrativa reproduzida por esta obra chega-nos através seu título, Perfume Verde de Jardim Transfigurado. Inspirado pela leitura do poema Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen, este título torna a aparente ausência do concreto subjetiva. Num percurso inverso àquele destacado na obra Delírio, aqui a centralidade da obra é marcada pelo abismo, pela escuridão, pela cegueira, que nos transfigura o jardim envolvente na paisagem abstrata e cuja policromia nos estimula os sentidos. Somos convidados a sentir. É possível observar o domínio da pincelada fugaz, bruta, crua, e a utilização da mancha que conduz à subtileza.
Mar
I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
Poesia I de Sophia de Mello Breyner Andresen
Texturas várias densificam o espaço em que a obra habita. São exploradas forças de matéria e o experimentalismo da paleta. Pode encontrar-se, no centro da composição, um raro elemento em espiral que surge como ponto de equilíbrio entre toda a composição. A restante envolvência traduz um estilo próprio de pincelada rápida, vivaz, de múltiplos e indefinidos pontos de fuga, que harmonizam o todo. Osso representa o lado mais experimental e vivo da produção de Lucas.
Leonor Amaral
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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