Centro Cultural de Cascais,
Piso 0
28 Nov ’20 » 14 Mar ’21
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entada 17h40
Brancusi, New York, 1926
Pintar a Pintura
O título da exposição de Gonzalez Bravo implica um acto de imaginação que ultrapassa quaisquer conceitos criativos. O artista ousa pintar a pintura, desconstruindo a própria obra para fazer nascer outra com novas formas, totalmente imprevisíveis, revelando, deste modo, a sensação de um trabalho inacabado (se bem que, de facto, não seja assim), próprio de quem desafia os limites dos processos de criação artística. É, aliás, esta imprevisibilidade da obra finalizada uma das particularidades que o distinguem de muitos outros pintores.
Em Pintar a Pintura encontramos telas de grande escala, com texturas e grandes relevos, promovendo cada camada de tinta emoções e sentimentos que as diferentes cores proporcionam a quem as observa.
Gonzalez Bravo nasceu em Badajoz, mas há muito que escolheu o concelho de Cascais para viver e pintar. É, por isso, um filho de Cascais (terra onde ninguém é estrangeiro, como já referi em inúmeras circunstâncias), que com muita honra acolhemos, orgulhando-nos da sua carreira de mais de 40 anos. Está representado em coleções públicas em Portugal, Espanha, Alemanha, Estados Unidos, países que igualmente já apresentaram o seu trabalho em exposições individuais e coletivas, além de França, Suíça, Holanda e Bélgica.
É a mostrar e a dar a conhecer o trabalho de criadores como Gonzalez Bravo que (também) temos vindo a cumprir a missão de valorizar a Cultura (em) Cascais. Mostramos e damos a conhecer a munícipes e a quem nos visita a obra de artistas de reconhecimento nacional e internacional.
Aceite o convite para uma visita a Pintar a Pintura, entre 26 de novembro e 14 de março de 2021 no Centro Cultural de Cascais, em pleno Bairro dos Museus, e desfrute da deslumbrante obra de um pintor do (e com) mundo que escolheu Cascais para viver e criar.
Carlos Carreiras
Presidente da Câmara Municipal de Cascais
Procurarei evitar as banalidades, mais ou menos hábeis ou pomposas que de modo geral os críticos de Arte costumam dizer sobre os pintores. Banalidades que eu próprio não tenho evitado, ao longo dos anos, a assinar textos-Catálogo, para Exposições de artistas dos mais diversificados quadrantes, latitudes e percursos. Procurarei ir além da superfície das coisas de que falava Brancusi, o grande escultor romeno, em 1926.
Nesta perspectiva, qual será então a essência da obra de Gonzalez Bravo, como traduzi-la em palavras? Missão por certo impossível, tentemos pelo menos nos aproximar. A inquietação, nessa procura, é bem mais fecunda que a fraseologia. Não insistirei pois, nesta curta leitura, nas referências à obra de Gonzalez Bravo, ditas e reditas: a transparência das portas. Tentarei antes pôr em evidência a feitura, o percurso frente à tela, o modo como o artista se confronta com esta Arte.
O pintor monumentalista Constantin Cazan, também ele romeno, costumava dizer-me, no decorrer das longas conversas que tínhamos sobre arte no seu atelier, que em Pintura o que conta é o resultado, sejam quais forem os materiais e as técnicas utilizados, os suportes escolhidos ou as Ideologias. O resultado porém, diria eu, sem querer contrariá-lo, é no entanto fruto de uma feitura, de um processo criativo. Ora, o que distingue a intervenção de Gonzalez Bravo reside justamente na “confecção” da obra, na substância desse processo criativo: as primeiras camadas que ele aplica sobre a parede branca da tela são o pretexto. Nas camadas seguintes, ele vai através do grattage, trabalhar essa textura, “aproveitar” o que interessa e abandonar as sobras. Conserva apenas o que resiste. É justamente este processo, doloroso mas fecundo de construção em pirâmide, a caminho do vértice, isto é, do resultado, que eu queria aqui pôr em relevo. É pela maneira de proceder que a pintura adquire um outro estatuto, uma outra Filosofia: Gonzalez Bravo não se limita a pintar. Ele pinta a Pintura, que a dado momento — não sabemos quando, nem ele tampouco o saberá se destaca e ganha autonomia, consiste em minar também, por dentro, o próprio estatuto da representação. Ora, é esta metalinguagem, esta representação de representações, que nos vai conduzir ao espetacular resultado da sua obra. Uma obra, cuja matriz, alheia a uma qualquer grelha pré- estabelecida, está toda ela inscrita neste processo criativo.
ANTÓNIO BRANQUINHO PEQUENO
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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