Casa das Histórias Paula Rego
31 Mar ’26 » 31 Jan ’27
De terça a domingo
das 10h às 18h
Costumes and Pictures:
O Vestuário na obra de Paula Rego
Curadoria: CATARINA ALFARO
Aos 16 anos, Paula Rego parte para Inglaterra a fim de completar a sua formação e, por decisão do pai, frequenta a escola The Grove, na região de Kent. Trata-se de uma finishing school, uma escola exclusivamente feminina, destinada a meninas da sociedade que eram aí educadas para serem boas esposas e donas de casa. Terá sido aí que aprendeu a costurar e a bordar, o que lhe permitiu fazer os seus “arranjos” de costura sempre que necessário. O seu encontro, nos anos 1950, com as últimas tendências da moda londrina, é descrito com entusiasmo nas cartas para a mãe (apresentadas na vitrine 1), onde manifesta a sua intenção de se vestir como as raparigas da capital inglesa. Paula desenha calças cigarrete, argolas compridas e sabrinas, descrevendo ao pormenor, através de desenhos, as peças de roupa que lhe parecem essenciais para acompanhar o último grito da moda. Nessa correspondência é referida uma ida a Paris, em abril de 1953, onde comprou novos acessórios de acordo com as novas tendências parisienses e cortou o cabelo, “pois a moda é definitivamente de cabelos curtos”, escreve.
A partir dos anos 1990 ― momento que coincide com a sua estadia na National Gallery como artista residente, deixando-se guiar pelos Mestres da Pintura Antiga ―, o vestuário passa a ser um elemento determinante para a construção das suas personagens, para além de se constituir como elemento cenográfico central na sua obra. A consciência da qualidade pictórica das texturas dos tecidos é materializada nas suas pinturas na sequência da eleição do pastel seco, em 1994, como meio capaz de conferir uma solidez jamais alcançada com o óleo ou o acrílico. A sua maneira de manusear os pastéis revela-se complexa quando cria contrastes formais e pictóricos ousados através da aplicação mais ou menos concentrada, com maiores ou menores sobreposições de pigmentos que lhe permitem a construção de texturas com uma dimensão quase tátil, numa meticulosa composição pictórica dos tecidos, das rendas, dos veludos, dos panejamentos e das pregas, camada por camada, mancha por mancha. Tanto assim, que em algumas dessas suas obras — como acontece em toda a série “O crime do Padre Amaro” — as peças de vestuário são o principal foco de atração, conduzindo-nos para dentro da sua pintura. Este processo de realização técnica e, por conseguinte, a abordagem pessoal da artista à pintura, tem na sua base uma complexa metodologia do trabalho de estúdio. As histórias que conta começam a ser encenadas, representadas e reinterpretadas no seu estúdio, ganhando vida própria através de modelos que materializam as perceções da artista. A forma como Paula Rego veste os seus “atores” de acordo com as cenas, que muitas das vezes são verdadeiros dramas em trajes de época (a costume drama), num espaço que começa a assemelhar-se a um palco ou film set, terá implicações no modo como irá conceber as suas obras. A prova, de 1990, assim como o estudo para essa pintura apresentado nesta exposição, pode ser considerada como um primeiro ensaio da incorporação de peças de vestuário (neste caso, uma saia) como estímulos para a conceção das suas composições, que de certo modo se tornam o verdadeiro motivo da pintura. Por outro lado, quando a artista veste os seus personagens para os papéis que vão representar na tela tem em conta a importância da sua indumentária para a identificação da atmosfera histórica e social e para a sua caracterização psicológica: “As roupas dizem algo sobre a personalidade, sobre a personagem, sobre a sua posição social e sobre a época também. São um elemento muito importante no contexto de qualquer história visual.”
O guarda-roupa que se encontra no seu estúdio e foi trazido para esta exposição é em grande parte responsável pela dimensão espetacular de algumas obras, conferindo-lhes o estatuto de verdadeiros quadros vivos. Para além de vestuário, inclui uma grande variedade de adereços, como chapéus ou joias, que a artista obteve em lugares muito diversos: desde os bastidores de salas espetáculo londrinas, a feiras da ladra ou lojas de roupa em segunda mão. Outras peças são recordações com as quais estabeleceu muitas vezes uma sólida ligação sentimental: “São coisas que trouxe de Portugal, há muitos anos: roupas, certos bonecos. Há fatos que eram da minha avó, tenho coisas da minha mãe. Sabe como é, as coisas da mãe têm um cheiro especial.” Por essa razão, muitas destas peças encontram-se atualmente em mau estado de conservação, danificadas ou sujas, também por tantas vezes terem sido manipuladas como objetos de trabalho e não como peças de vestuário de alta costura. Os fatos que aqui vemos não são impressionantes. O que os torna admiráveis é a abordagem pictórica, o modo como os tecidos se comportam quando vestidos pelos modelos, como caem, se colam ou se avolumam no corpo, para seduzir ou esconder. Nas pinturas, as saias adquirem volume face aos modelos originais, pois segundo a artista, quanto mais pregas tiverem, mais segredos podem esconder, mais histórias ficam por dizer.
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