Estou para Ver
A antiga embarcação dedicada à pesca de cerco, atualmente denominada Estou para Ver, foi convertida em 1923, por Silvério António Tavares, para o transporte de sal no Sado. A vulgarização dos barcos a vapor conduziria ao desaparecimento ou reconversão deste tipo de galeões de pesca – que desde os finais do século XIX proliferavam na área – em galeões do sal. A adequação do convés e a substituição da grande vela bastarda por duas velas (carangueja e estai) facilitariam as manobras, reduzindo a tripulação a dois homens, o que lhes permitiu competir com os preços da camionagem até aos anos 70. Todavia, perdida a sua utilidade comercial, foram sendo abandonados, encalhados nas margens ou transformados em barcos de recreio.
Galeão
O galeão seria adquirido, em 1981, por Philippe Mangeot, que o levou para a Bretanha, onde recebeu o seu primeiro motor e cabine de proteção, seguindo depois para o Mediterrâneo. No ano de 1994 regressaria a Portugal, onde foi comprado por Raul Carregoso, que o registou na Delegação Marítima do Barreiro.
Em 2003, a Câmara Municipal de Cascais decidiu adquirir a embarcação – com 8,52 metros de comprimento, 4,90 metros de boca e 1,33 metros de pontal – que já operara nas águas do concelho, a bem da preservação e valorização do património cultural material e imaterial marítimo. Os programas desenvolvidos a bordo do Estou para Ver proporcionariam experiências únicas aos utilizadores deste património histórico móvel, contribuindo de forma ativa para a (re)descoberta do concelho a partir do mar, ao qual Cascais deveu a sua fundação e desenvolvimento, primeiramente enquanto porto de pesca e depois como capital do lazer e do turismo em Portugal.
De forma a poder requalificar o galeão, a Câmara Municipal de Cascais candidatou-se, em 2018, ao Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas – Mar 2020, que lhe garantiu um financiamento de 435.000 euros. Assumiu, ainda assim, cerca de 15% do valor da candidatura, investindo também 150.000 euros na aquisição de novos equipamentos de navegação, comunicação e segurança. O restauro e modernização do Estou para Ver, que decorreu num estaleiro na Moita, respeitou os cânones da construção naval tradicional, garantindo uma profunda intervenção estrutural que contemplou o desmantelamento da cabine, convés e costado e a substituição das cavernas, roda de proa, sobrequilha, quilha e cabine, entre outras benfeitorias. A embarcação foi também dotada de um motor que lhe permitirá operar comercialmente, transportando até 40 passageiros e a tripulação.
Findo este complexo processo de restauro, o Estou para Ver poderá promover em novos moldes uma desejada reflexão acerca do património cultural e biológico do mar de Cascais, em que a história, as tradições, a arquitetura, a arqueologia subaquática, a fauna e a flora do concelho se transformam em protagonistas de viagens inesquecíveis. Os passeios temáticos, conferências e expedições científicas que se ambicionam promover a bordo, com o maior número de parceiros possível, permitirá o alargamento do usufruto desta embarcação a todo o tipo de interessados, como instituições de ensino, coletividades, grupos de seniores, de pessoas com mobilidade reduzida e com necessidades especiais, mas também a visitantes nacionais e estrangeiros.
Tendo por motes o património e a biologia, o galeão Estou para Ver voltará, assim, a navegar pelo mar de Cascais, ao serviço da comunidade e do turismo. A apresentação da nova fase da vida desta embarcação que conta já mais de 100 anos decorreu a 17 de dezembro de 2021, no Cais de Eventos na Marina de Cascais.
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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