Centro Cultural de Cascais
(Piso 0 e 1)
30 Out ’21 » 6 Fev ’22
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Luísa Soares de Oliveira
Uma criteriosa seleção das obras que compõem a Coleção Norlinda e José Lima, sob a tutela do Centro de Arte Oliva em São João da Madeira, estará patente no Centro Cultural de Cascais entre 30 de Outubro de 2021 e 6 de Fevereiro de 2022, numa iniciativa da Fundação D. Luís I e da Câmara Municipal de Cascais no âmbito da programação do Bairro dos Museus.
Com curadoria de Luísa Soares de Oliveira, ensaísta e crítica de arte, e com a colaboração de Andreia Guimarães, diretora do Centro de Arte Oliva, a mostra “Entre as Palavras e os Silêncios – Obras da Coleção Norlinda e José Lima” reúne 104 obras, entre pinturas, desenhos, fotografias, esculturas e instalações, realizadas por alguns dos mais importantes artistas contemporâneos, portugueses e estrangeiros, muitas delas nunca antes mostradas em Cascais ou Lisboa.
Na sua construção decisivamente voltada para a arte contemporânea, a Coleção Norlinda e José Lima compõe um impressionante panorama da produção artística nacional e internacional do último século, com obras produzidas entre 1926 e 2019, compreendendo as mais diversas formas de expressão, criatividade e processos artísticos.
Para além dos artistas mencionados acima, “Entre as Palavras e os Silêncios – Obras da Coleção Norlinda e José Lima” reúne obras de expoentes da arte portuguesa como Helena Almeida, Mário Cesariny, Graça Morais, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, o colectivo Musa paradisíaca, Fernando Calhau, Gaëtan, Joaquim Bravo, entre outros não menos importantes, postos em contacto com obras de artistas internacionais como Amish Kapoor, Adriana Varejão, Nan Goldin, Sol LeWitt, Henri Michaux, Andres Serrano, para citar apenas alguns.
“Entre as Palavras e os Silêncios – Obras da Coleção Norlinda e José Lima” fruto de uma parceria entre a Fundação D. Luís I – Centro Cultural de Cascais e o Centro de Artes Oliva, após a apresentação em Cascais a exposição poderá ser vista pelo público de São João da Madeira a partir da Primavera de 2022.
Entre as palavras e os Silêncios
OBRAS DA COLECÇÃO NORLINDA E JOSÉ LIMA
Falar de arte é, desde sempre, falar também da sua interpretação. Hoje, é claro que, para além da multiplicidade virtualmente infinita de técnicas, processos, ideias ou métodos de que os artistas se servem para criar, subjaz sempre a velha questão de saber como é que o observador – que pode ser um coleccionador, um erudito, ou apenas alguém que gosta de arte e que se interessa pelos mundos que ela abre – vai entender o seu trabalho. No fundo, estamos a falar da transposição de uma linguagem que não passa pelas palavras para outra, que é comum a todos nós, e que é a linguagem verbal.
O artista plástico usa pigmentos e tintas para fazer pintura; linha e papel para trabalhar o desenho; materiais sólidos, que nos anos mais recentes passaram a incluir tudo o que tivesse consistência física, para criar escultura no espaço; pedra, betão, alvenaria, madeira, ferro e metal para construir edifícios; sons e palavras, também, para formas artísticas recentes que tocam a imaterialidade; estes e, nos anos mais recentes, outros materiais e objectos do mundo em que vivemos, enfim, incluindo outras obras de arte, que lhe garantem a certeza de ter a liberdade para criar servindo-se do imenso repositório da história da arte. Tudo isto é possível. E, no entanto, o modo como cada um de nós, que estamos do lado de cá do universo da arte, o entendemos, permanece uma incógnita para os artistas.
Claro que nem sempre as coisas se passaram assim. Até ao princípio do século XVI, a obra de arte contava uma história, uma história que não incluía, no seu enredo, uma interpretação diferente daquela que o artista queria transmitir. O modelo de observação (de apreciação) da obra de arte era o da câmara escura, que pressupunha um observador imóvel e atento, capaz de receber e perceber tudo o que o artista pretendia veicular. Hoje, sabemos com toda a certeza que cada um de nós traz dentro de si um mundo que condiciona totalmente a interpretação daquilo que vemos. Como Jonathan Crary[i] bem o demonstrou, o nosso modo de observar, quer se trate de observar a arte ou outra coisa qualquer, está condicionado pelo gosto, a história pessoal, a época, a cultura, e finalmente pelas próprias condições fisiológicas ou circunstanciais da observação. Ninguém vê do mesmo modo que outra pessoa. A obra em si existe fisicamente, mas sem ir aos extremos de George Berkeley[ii], que punha em causa a existência física do mundo, apenas temos acesso a ela mediados pelo nosso corpo e o nosso espírito.
Regressemos ao século XVI. É por esta altura que aparecem as primeiras pinturas de paisagem. Estas, pela primeira vez desde que existe arte no Ocidente, não contam nenhuma história. De certa maneira, apelam a uma contemplação silenciosa, embora essa contemplação, na linha do que afirmámos acima, seja uma utopia. Haverá sempre um referente, uma recordação, uma ligação com o passado, uma dobra, para utilizar um conceito desenvolvido por Gilles Deleuze[iii]. Ao contemplar uma pintura de paisagem, poderemos sempre afirmar – ou não – um “eu já estive num lugar como este”, ou “este artista pertence ao romantismo alemão”. Ao fazê-lo, ao estabelecer estas frágeis e mutantes pontes com as memórias do que vimos noutra altura, do que conhecemos ou do que estudámos há anos, estamos já a enunciar uma fugaz leitura que passa obrigatoriamente, uma e outra vez, pelo raciocínio, pela palavra. Por isso, mesmo a pintura que se pretende muda e silenciosa; mesmo a escultura de uma abstracção mais radical, que se pretende apenas forma a captar a atenção de quem vê, acaba fatalmente por cair no crivo da palavra.
Por isso, desde a época moderna, com a sua tónica colocada no sujeito, pode dizer-se que a arte se articula entre a vontade de estabelecer uma narrativa e o e a utopia da ausência de interpretação, ou seja, o silêncio. No século XX e já no XXI, com a aceleração de formas e propostas criativas de artistas de múltiplas origens sociais e políticas, é bem notória esta dupla condição das propostas artísticas. Se a arte nunca se faz “sobre” alguma coisa, ela é inegavelmente enriquecida pelo mundo do artista. É que não se trata apenas, na consideração deste binómio obra artística / observador, de destacar aquele que vê, e de considerar que ele jamais verá aquilo que o artista quis que ele visse. Trata-se também de afirmar que o artista é ele próprio único, atravessado por tensões sociais, políticas, pessoais, íntimas ou públicas, e que esse campo de forças em que vive se manifesta também na obra que produz.
Falemos agora de um observador particular, o coleccionador José Lima que, com o constante apoio de sua mulher, Norlinda Lima, tem vindo a constituir uma notável colecção de arte contemporânea. Esta, que ultrapassa hoje o milhar de peças, formou-se a partir da década de 80 do século passado e abrange obras realizadas nas últimas seis décadas, em Portugal como no estrangeiro. Apenas guiado pelo seu gosto pessoal, o acervo constituído por José Lima tem vindo a dar origem a múltiplas exposições de grande qualidade, quer no Centro de Artes Oliva, de S. João da Madeira, que o guarda e conserva, quer noutras instituições que têm podido mostrar em vários locais do país a justeza do acerto com que tem apoiado inúmeros artistas. O público da capital estará decerto recordado da exposição realizada em 2019, na residência oficial do primeiro-ministro, em S. Bento, que pela primeira vez trouxe a Lisboa uma notável selecção desta colecção. Para Cascais, escolheram-se cerca de 100 obras a mostrar no prestigiado espaço da Fundação D. Luís I, que decidiu para o efeito dedicar quase todas as áreas de exposições temporárias à sua apresentação. Fruto de uma parceria entre as duas instituições, a exposição será mostrada a partir da Primavera no Centro de Artes Oliva, com nova montagem.
Olhando para o núcleo que reuniu, é surpreendente constatar a qualidade das suas aquisições, tanto mais que, na altura em que começou, a existência de estruturas museológicas dedicadas à arte contemporânea, que pudessem instruir visualmente os públicos e informá-los sobre as linguagens actuais da arte internacional, era reduzidíssima. E José Lima nunca se limitou aos artistas nacionais, como outros coleccionadores. Pelo contrário; as suas aquisições permitem-nos hoje confirmar diálogos evidentes entre os criadores nacionais e os seus colegas estrangeiros, e constatar que a falta de internacionalização dos primeiros não se deve uma qualidade supostamente inferior, mas a circunstâncias políticas e económicas que ultrapassam, em muito, as boas vontades de particulares e instituições portugueses.
“Entre as palavras e os silêncios. Obras da Colecção Norlinda e José Lima” convida o público, a partir das escolhas da montagem nas salas de exposição, a estabelecer ele próprio as ligações, os discursos ou, quem sabe, os silêncios perante a obra de arte que se impõe visualmente, para além de todos os outros que aqui lhe sugerimos. É certo que já não vivemos no tempo em que a História ditava aquilo que os artistas deviam fazer, e o modo como a arte tinha que ser apreciada. Sendo assim, a norma hoje apenas possui uma lei: a da liberdade de construir a própria linguagem, que deve corresponder à liberdade de gosto e de escolha dos instrumentos de compreensão da obra artística. É ao exercício desta liberdade que esta exposição pretende responder.
Luísa Soares de Oliveira
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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