Centro Cultural de Cascais,
piso 2
24 Mai > 23 Jun ’24
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Almeida Araújo
FOTOGRAFIA E PINTURA
O QUE É A ARTE?
Talvez se possa definir, resumindo, que é uma forma de comunicar entre quem a pratica e quem a frui. O que queremos ver ou saber quando procuramos o encontro com a Arte? Se seguirmos o sentido que nos leva à relação entre criador e público, vamos dar com a vasta obra de Almeida Araújo, munícipe com presença intelectual e artística ativa entre os cascalenses (e não só) que há bem pouco tempo nos deixou, traindo-o infelizmente a vida quando estava tão próximo de atingir os cem anos e esperava, ansiosa e merecidamente, a exposição de pintura e fotografia que ocupa o último piso do Centro Cultural de Cascais.
Por entre a experiência de vida (soube apreciá-la como poucos) e de produção artística, dedicou-se à arquitetura, à pintura, à escrita, à escultura e à fotografia. Ofereceu-nos um olhar desigual, o que, em vez de diminuir, enriquece a sua obra: buscava sempre a articulação entre uma visão abrangente e uma visão de pormenor, o que determinava o seu estilo único de fazer nascer um trabalho.
Como é sabido, em Cascais valorizamos o talento, porque é uma das modalidades que temos para definir a nossa identidade. Para nós próprios e para os outros. Isto não é novidade para os nossos munícipes e para os nossos visitantes, mas gostamos sempre de o realçar. É uma aposta que refletimos nos novos, ajudando-os a potenciar-se, e nos menos novos, como é o caso vertente, que recordamos e damos a conhecer a gerações vindouras.
Francisca Carvalho escolheu trabalhar sobre um edifício pré-existente na Quinta do Pisão, uma capela que se encontra habitualmente fechada, hoje quase uma ruína, onde se encontram ainda vestígios de antigas decorações murais que davam pelo nome de fingidos. Trata-se de imitações de texturas de materiais de construção dispendiosos, que só estavam ao alcance dos mais abastados, e que decerto não teriam aqui lugar numa pequena ermida campestre. Francisca Carvalho actualizou este trabalho, retomando o processo de decoração do edifício com tecidos tingidos à mão, um trabalho que tem desenvolvido nos últimos anos, acompanhado por uma pesquisa profunda em países distantes onde ele tem ainda lugar num contexto pré-industrial.
LONDON Remains of the ’50s
São conhecidos os diferentes perfis artísticos de José de Almeida Araújo – arquiteto, pintor a até mesmo escritor, como o comprova o livro de memórias recentemente publicado.
A presente publicação, London, Remais of the ‘50s, vem agora revelar que, em tempos, O José se entusiasmou igualmente pela fotografia tendo em Londres, onde então vivia, sido objeto da sua particular atenção. São essas recordações que compõem este álbum.
Soma de instantâneos captados ao sabor do acaso, consoante a inspiração do momento, que constituem à sua maneira uma breve crónica londrina da Inglaterra nos anos 50: a familiar agitação da rua, às diferentes horas do dia; a circulação automóvel com a figura clássica do bobby a dirigir o trânsito; as lojas e os cartazes publicitários; os lagos e os relvados e a nobreza arquitetónica de certos edifícios, tão típicos de Londres e tão inerentes à sua conhecida fisionomia; sem esquecer os diferentes rostos da multidão e as gentes que as povoam, eus tipos e trajes; enfim, as múltiplas facetas de uma grande cidade em movimento. É esse, aliás, o reconhecido mérito da fotografia: ensinar-nos a olhar.
É esta uma Londres ainda sombria, que renasce aos poucos dos anos de racionamento e das muitas provações da guerra, presente em todos os espíritos. Tempos de transição e de renovação característicos da década de 50, quando a Europa, para lá de tudo e a despeito de tudo, procurava reencontrar-se.
Mais do que o gosto de observar e anotar, como faria um mero cronista, o que ressalta nesta sucessão de imagens é a emergência de um olhar entre ironia e ternura. Para tudo dizer, uma aproximação cúmplice do fotógrafo com o mundo à sua volta.
Admirador confesso de Henri Cartier-Bresson, José de Almeida Araújo constitui aqui, ou melhor, restitui-nos sob aparência diversa um determinado ambiente urbano, a um tempo fugidio e insubstituível, o que é próprio da arte fotográfica. Numa palavra, a verdade de uma época.
Marcello Duarte Mathias
In London Remains of the ‘50s, 2013
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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