Centro Cultural de Cascais,
Piso 0
13 Jul » 6 Out ’24
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
A geography of mysteries
[Uma geografia de mistérios]
VOLKER SCHNÜTTGEN
Volker Schnüttgen (n.1961) gosta de contar-nos que foi por amor que trocou a Alemanha por Portugal, no arranque da década de 1990. Terá sido por amor à pedra e pela perspetiva de uma espécie de renovação criativa que viu acontecer no encontro com as pedreiras, nomeadamente, as pedreiras de granito do Norte de Portugal? Talvez porque, na verdade, foi através das pedreiras que o artista conheceu o país, começando nas pedreiras de Lioz, em Sintra; do mármore de Vila Viçosa e Estremoz, Viana do Alentejo e Trigaches (Beja); do granito de Monforte (Alto Alentejo) e durante quase 10 anos na pedreira do Sienito na serra de Monchique, onde trabalhou com muita regularidade. Depois foi a vez da Beira Alta e finalmente o Minho. Certo é que a pedra, recurso endógeno e simbolicamente embrionária de começos, acompanha o percurso artístico de Volker Schnüttgen, escultor nascido em Attendorn, na Alemanha e que, em 1982, iniciou os seus estudos de escultura e gravura na Universidade de Artes de Bremen. O Mestrado em Multimédia foi já concluído na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, em 2008, instituição onde viria a ser docente largos anos.
Começa a expor em 1986, sendo o espaço público, desde cedo, o lugar global onde melhor se expressa o princípio de exploração e de experimentação de diferentes materiais e tecnologias, entre a pedra, a madeira e os metais, nunca perdendo o espaço-tempo da poesia que confere aos objetos mágicos que brotam das suas mãos, resultados de uma nostalgia de pensamento que o leva a situar-se sempre na paisagem de neblina fria das suas origens. A obra de Volker Schnüttgen marca, por isso, a cena artística nacional e internacional, muito para lá da bilateralidade que estabelece entre Portugal e Alemanha. Espanha, Suécia, Holanda, Moçambique, EUA ou o Irão, são mais alguns dos territórios onde inscreveu as suas narrativas, tanto em obras de arte em espaço público como em coleções particulares e institucionais.
O artista reside em Sintra, em plena serra, e é a partir dessa geografia de mistérios, inspiradora de tantas literaturas, que continua atento aos segredos da matéria, a escutar entre os barulhos do vento nas árvores e os ritmos do labor das ferramentas de criador que tão bem domina. E, por isso, não obstante ter sido, talvez, a pedra esse amor primeiro, a madeira e, em particular, a madeira de carvalho têm marcado o seu processo criativo que deambula, formalmente, entre uma espécie de mímesis e a invenção de uma poíesis que o faz desvincular-se da realidade concreta e focar-se nas propriedades na matéria e no que pedem à tékhne, completando-se assim a tríade de Aristóteles.
A exposição no Centro Cultural de Cascais, organiza-se, assim, em quatro espaços que correspondem a grupos de trabalho de diferentes épocas e que têm a tal matéria-madeira como fio condutor, fugindo-se à diacronia ou às tentativas de retrospetiva, mas antes apresentando uma hipótese sobre o tempo e o modo do artista desvendar o mundo em redor. A exposição estabelece um percurso de aproximação e afastamento de uma figuração, configurando diferentes formas de abordagem à ideia de mistério, de um segredo que se desvenda ou de uma tentação de voyeurismo, desse espreitar para lá do que é visível e apenas ao alcance da imaginação.
Helena Mendes Pereira / zet gallery
Curadoria
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