Com a programação deste miniciclo de cinema, a Fundação D. Luís I procura reconhecer o cosmopolitismo que caracteriza a região de Cascais, tendo como principal público-alvo a população estrangeira aí residente, o que não significa qualquer discriminação dos cinéfilos portugueses. Para esta experiência inicial (e assinalando o 90º aniversário do nascimento do primeiro e os 25 anos da morte do segundo), foram escolhidos dois realizadores que ocupam o restrito panteão dos maiores autores da história da sétima arte, Stanley Kubrick e Federico Fellini, exímios retratistas da condição humana e donos de universos cinematográficos gloriosamente pessoais: meticulosamente perfecionista, no caso do recluso americano, e feericamente excessivo, no caso do mestre italiano. As obras a exibir serão “Um Roubo no Hipódromo/The Killing” (1956) e “Horizontes de Glória/Paths of Glory” (1957), de Kubrick, e “Roma” (1972) e “Amarcord” (1973), de Fellini.
A Arte Total
Kubrickiano, felliniano: dois adjectivos que há muito fazem parte do léxico cultural, evocando universos cinematográficos claramente identificáveis e singulares, transcendendo fórmulas estabelecidas para definir quase um novo género em si mesmo. O par de realizadores que este ciclo homenageia (a pretexto do 90º aniversário do nascimento do primeiro e dos 25 anos da morte do segundo), Stanley Kubrick e Federico Fellini, pertence por direito próprio ao Olimpo dos maiores cineastas de todos os tempos, aqueles que contribuíram decisivamente para a evolução da sétima arte, sintetizando e inovando, desbravando caminhos e apontando um farol para outros os seguirem.
Comecemos pelo nova-iorquino do Bronx, do qual mostraremos dois pequenos grandes filmes de início de carreira, “Um Roubo no Hipódromo/The Killing” (1956) e “Horizontes de Glória/Paths of Glory” (1957), de uma concisão e economia que, à partida, poderão confundir quem pensar na megalomania visionária tão associada a Kubrick, mas reveladores, em glorioso preto e branco e a uma escala “menor”, do perfeccionismo meticuloso do realizador, prefigurando e anunciando temas e métodos que se perpetuam por toda uma obra. Desde logo, a constante reinvenção de modelos tradicionais.
em cima: Stanley Kubrick
Em “The Killing”, estamos em pleno “heist movie”, subcategoria do “filme negro” centrada num ambicioso assalto, que aqui assume uma complexidade e um rigor dir-se-ia maquinais, com o plano a ganhar uma existência própria que se impõe aos ladrões, vergando e submetendo estas figuras pírricas tragicamente humanas aos desígnios de um mecanismo superior, corporizado no narrador omnisciente que desapaixonada e minuciosamente regista toda a acção. Atinge-se assim um distanciamento irónico dos códigos “noir”, para o qual contribuem também a coreografia precisa de uma câmara que acompanha implacavelmente os movimentos das personagens, como que as aprisionando, e a fragmentação narrativa, com sucessivos avanços e recuos (para melhor expor a natureza dos assaltantes enquanto peões num jogo ou peças de um puzzle que os ultrapassa) e o regresso às mesmas situações sob as diferentes perspectivas dos vários intervenientes (recursos tantas vezes glosados desde então, com o “Reservoir Dogs” de Tarantino à cabeça). Frio e impiedoso, no seu ritmo imparável, o filme é como uma peça de relojoaria oleada com o humor negro típico de Kubrick que os maravilhosos diálogos, cínicos e brutais, de um mestre da literatura policial, Jim Thompson, servem na perfeição, superlativamente interpretados por um elenco excepcional de “character actors” liderado pelo sempre imponente Sterling Hayden.
A esta terceira longa de um jovem cineasta de 28 anos, seguiu-se outra obra-prima absoluta, “Paths of Glory”. Nova adaptação literária com a colaboração de Thompson, desta feita no domínio do filme de guerra, fica como uma das grandes obras antibelicistas de sempre (na companhia restrita de, por exemplo, outro título do realizador, “Dr. Strangelove”, de 1964), recusando, em todo o seu laconismo, quaisquer concessões sentimentais ou românticas e subvertendo noções comuns de patriotismo e heroísmo. Denúncia feroz e cáustica da lógica irracional e absurda da guerra e de um sistema opressivo aniquilador da individualidade, esta história de um ataque suicida – ordenado por oficiais arrogantes e ambiciosos – de um batalhão francês durante a Primeira Guerra Mundial e o subsequente fuzilamento de três inocentes (incluindo o inesquecível Timothy Carey, nos antípodas do viscoso atirador de “The Killing”) após o inevitável fracasso, retoma o tema da impossibilidade de fuga ao fatalismo de um destino pré-determinado. Novamente, a câmara adquire uma autonomia central, para, em longos e intricados “travellings”, percorrer as trincheiras como se estas fossem corredores ou túneis a desembocar no turbilhão sensorial de um submundo infernal, extensão física da torturada psicologia interior dos soldados, em gritante contraste visual e auditivo com o plácido e majestoso cenário do palácio-museu onde os generais planeiam as suas maquinações. As convenções do género são também dinamitadas pela recusa em mostrar o “inimigo”, reduzido à invisibilidade de rajadas de disparos por entre sombras e fumo, e pelas pinceladas de humor negro que apenas acentuam a hipocrisia militar e todo o ritualismo “cerimonioso” (pense-se no julgamento, encenado como se de uma batalha se tratasse, e na posterior e ridiculamente pomposa execução dos prisioneiros) de um mundo claustrofóbico feito de regras cegas. Não admira que Buñuel fosse um admirador fervoroso do filme nem que o governo francês o tivesse conseguido retirar do Festival de Berlim e proibido a sua exibição em França e na Suíça durante duas décadas… Nesta poderosa experiência emocional, a frieza kubrickiana surge temperada por um tocante humanismo (talvez reflexo da presença de uma estrela da grandeza do espantoso Kirk Douglas, porventura o único protagonista do cinema de Kubrick que o espectador pode aceitar sem reservas) cujo impacto visceral a antológica sequência final ilustra na medida exacta.
E se o americano auto-exilado faz a ponte entre a Hollywood clássica e o cinema europeu de arte e ensaio, Federico Fellini surge como um dos epítomes deste último. Com “Roma” (1972) e “Amarcord” (1973), estamos já na segunda metade da sua carreira, longe dos primórdios da aprendizagem neo-realista (recorde-se a participação, em 1945 e 1946, enquanto argumentista em momentos essenciais deste movimento como “Roma, Cidade Aberta” e “Paisà”, ambos de Rossellini) e marcada por um gosto pelo artifício feérico e excessivo, após a consagração internacional trazida por monumentos como “La Dolce Vita” (1960) ou “8 1/2” (1963). Podemos falar então de um díptico, pois são de facto dois filmes “irmãos”, variações sobre o tema da memória sob a forma de mosaicos poéticos, vagamente autobiográficos, de um arrojo visual transbordante. “Roma” representa uma carta de amor à cidade para onde o realizador se mudou no fim da adolescência e que tornou “sua” (haverá imagem mais icónica do que Anita Ekberg banhando-se na Fonte de Trevi, em “La Dolce Vita”?). A linearidade narrativa é estilhaçada num vaivém contínuo entre passado e presente, segundo a lógica de um sonho (Jung e a parapsicologia foram descobertas cruciais para Fellini), para melhor captar uma “essência” romana e, em última análise, italiana. Neste passeio meta-cinematográfico guiado na primeira pessoa por Fellini, que surge como narrador (para nos avisar que a “história” aqui é “apenas” a de uma cidade) e em carne e osso, são convocados também, para fazerem de si próprios, anteriores comparsas do autor: Marcello Mastroianni, Alberto Sordi ou o “símbolo vivo de Roma”, Anna Magnani, no seu “papel” final). Um retrato impressionístico, portanto, da “cidade das ilusões” (como, às tantas, afirma Gore Vidal) que é igualmente, e como não podia deixar de ser, uma meditação sobre o cinema, onde se dá largas a uma imaginação febril, simultaneamente elegíaca e sarcástica (vide os extraordinários episódios da viagem da equipa de filmagens aos subterrâneos do metro repletos de ruínas de frescos antigos ou do surrealista “desfile de moda eclesiástico”).
Características que se prolongam para “Amarcord” (tradução fonética da expressão “a m’arcord” – “lembro-me” – usada na região da Emilia-Romagna, de onde o cineasta é originário), Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e um dos maiores êxitos comerciais do realizador. É como se Fellini pegasse no segmento introdutório de “Roma” e o expandisse para um filme inteiro, propondo uma visão fantasista da sua cidade natal de Rimini nos anos 1930. De uma liberdade extrema, o conceito de “enredo” é outra vez rejeitado, em favor de uma colecção fracturada e nostálgica (a música do enorme e inseparável Nino Rota sinaliza isso mesmo) de vinhetas tragicómicas sobre a passagem do tempo, onde sob a capa da alegria esfuziante e da extravagância jubilatória, corre em fundo uma ternurenta melancolia. Abstracção e materialidade andam de mãos dadas, o filosófico e o mundano fundem-se com a elegância de que só o mestre italiano parecia conhecer o segredo, tal como só ele seria capaz de reunir tamanha galeria de arquétipos caricaturais, dos homens de rosto grotesco às mulheres de formas descomunais, à boa maneira dos seus amores de infância: o circo e a banda desenhada. A corrosiva desconfiança votada às instituições (a igreja e o estado fascista) alia-se de novo aos devaneios oníricos que transfiguram e “elevam” a realidade, lirismo felliniano também presente no modo certeiro como se capta o “espírito” de um lugar e na inigualável orquestração – como um director circense? – das cenas de grupo, num aparente caos controlado que é outro dos peculiares talentos do realizador e ajuda seguramente a explicar toda a influência por ele exercida: o cinema de Kusturica não existiria sem Fellini, cuja sombra paira ainda sobre autores tão díspares como David Lynch, Woody Allen ou Tim Burton (o próprio Kubrick chegou a declarar o clássico de 1953, “Os Inúteis”, o seu filme preferido).
Felliniano, kubrickiano: dois olhares satíricos e justos acerca da ambiguidade humana, por dois criadores totais, praticantes máximos do cinema enquanto súmula de todas as artes.
Vasco T. Menezes
Vasco T. Menezes Nascido em Lisboa, em 1978. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, foi crítico de cinema e colaborador do jornal Público, entre outras publicações, além de proprietário e gerente da Cinecittà, loja de cinema e cultura pop. É, há cerca de quinze anos, tradutor literário e técnico, de romances, ensaios, livros de viagens, biografias, textos de cariz artístico e relatórios internacionais.
PROGRAMAÇÃO
O CINEMA DA VILLA | 10 Novembro | 15h
AMARCORD
Itália, 1973 | Um filme de FEDERICO FELLINI
Realização: Federico Fellini / Argumento: Federico Fellini e Tonino Guerra / Produção: Franco Cristaldi, para F.C. Produzioni e P.E.C.F. / Fotografia: Giuseppe Rotunno / Direcção Artística: Giorgio Giovannini / Montagem: Ruggero Mastroianni / Música: Nino Rota / Interpretação: Bruno Zanin, Magali Noël, Pupella Maggio, Armando Brancia, Ciccio Ingrassia, Josiane Tanzilli, Maria Antonietta Beluzzi, etc. / Duração: 123 minutos.
Pedaços da vida em Rimini, uma pequena cidade costeira na província da Itália fascista, ao longo da década de 1930, através de uma sequência carnavalesca de rituais sociais, desejos adolescentes e fantasias masculinas, em torno do jovem Titta (Bruno Zanin) e de várias figuras excêntricas: Gradisca (Magali Noël), a beldade da terra, Volpina (Josiane Tanzilli), a prostituta, o tresloucado Tio Teo (Ciccio Ingrassia)…
ATLÂNTIDA CINE | 10 Novembro 18h
PATHS OF GLORY
EUA, 1957 (Horizontes de Glória) | Um filme de STANLEY KUBRICK
Realização: Stanley Kubrick / Argumento: Stanley Kubrick, Calder Willingham e Jim Thompson, baseado no romance homónimo de Humphrey Cobb / Produção: James B. Harris, para Bryna Productions / Fotografia: George Krause / Direcção Artística: Ludwig Reiber / Montagem: Eva Kroll / Música: Gerald Fried / Interpretação: Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolphe Menjou, George Macready, Wayne Morris, Joseph Turkel, Timothy Carey, Susanne Christian, etc. / Duração: 88 minutos.
França, 1916. Durante a Primeira Guerra Mundial, o General Paul Mireau (George Macready), a pedido do seu superior, o General George Broulard (Adolphe Menjou), ordena um ataque suicida a uma posição estratégica alemã. A iniciativa, liderada pelo Coronel Dax (Kirk Douglas) termina em desastre, levando ao julgamento em tribunal marcial de três soldados escolhidos aleatoriamente…
O CINEMA DA VILLA | 11 Novembro | 15h
THE KILLING
EUA, 1956 (Um Roubo no Hipódromo)| Um filme de STANLEY KUBRICK
Realização: Stanley Kubrick / Argumento: Stanley Kubrick e Jim Thompson (diálogos), baseado no romance Clean Break, de Lionel White / Produção: James B. Harris, para Harris-Kubrick Productions / Fotografia: Lucien Ballard / Direcção Artística: Ruth Sobotka / Montagem: Betty Steinberg / Música: Gerald Fried / Interpretação: Sterling Hayden, Marie Windsor, Elisha Cook Jr., Ted DeCorsia, Jay C. Flippen, Timothy Carey, James Edwards, etc. / Duração: 84 minutos.
Um heterogéneo grupo de assaltantes reunido e liderado por Johnny Clay (Sterling Hayden), um ex-recluso acabado de sair da prisão, planeia e executa um complexo roubo a um famoso hipódromo durante uma das corridas, mas uma tortuosa série de complicações e imprevistos sucede-se…
ATLÂNTIDA CINE | 11 Novembro | 17h30
ROMA
Itália, 1972 | Um filme de FEDERICO FELLINI
Realização: Federico Fellini / Argumento: Federico Fellini e Bernardino Zapponi / Produção: Turi Vasile, para Ultra Film e Les Productions Artistes Associés / Fotografia: Giuseppe Rotunno / Direcção Artística: Danilo Donati / Montagem: Ruggero Mastroianni / Música: Nino Rota / Interpretação: Peter Gonzales, Fiona Florence, Federico Fellini, Gore Vidal, Marcello Mastroainni, Ana Magnani, Alberto Sordi, Dennis Christopher, etc. / Duração: 120 minutos.
Um percurso pelo passado e presente, mitos, tradições e costumes da Cidade Eterna, num caleidoscópio que mistura recolecções pessoais filtradas pela fantasia e uma urgência documental: a juventude sob o jugo de Mussolini, o sufoco do catolicismo, o fascínio do cinema, a contracultura, a vida nocturna, a comida, os bordéis, os esplendores da arquitectura romana…
em baixo: ROMA de Federico Fellini
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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