Centro Cultural de Cascais
(Piso 2)
29 Jan » 30 Abr ’22
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
NURIA VIDAL
Rendição
O momento e a situação em que a obra foi pintada circunscrevem-se à minha residência na ilha de Lanzarote. As pinturas estão marcadas pela aceitação de ter que me mover dentro de limites. Aceitar estas barreiras, mover-me dentro delas, ampliou o meu campo de ação e levou-me, ao mesmo tempo, a um generoso mundo de introspecção e despertar.
É um projeto pensado num momento de aguda tomada de consciência. Depois de ter estado submergida na cor como expressão máxima, com Rendição inicio uma viagem pessoal de introspecção e indagação, através da obra monocromática, da qual brotam gritos e sussurros, prantos e fluidos. São 52 as pinturas desta metamorfose ou transfiguração, na qual o negro passa ao branco ou à cor, e a forma ao plano ou ao vazio. É um conjunto de pinturas que imagino como um ciclo. Pinturas que que ainda não fecham – e não sei se chegarão a fechar – este leve e incessante processo que imagino como um itinerário circular, nas quais renuncio ao impecável para mostrar algo mais veemente.
Rendição reflete o ato de pintar, o momento da criação, embora seja mais um estado do que um momento; uma forma de estar perante si mesmo e perante a obra. Nunca tinha estado tão ligada à pintura e ao meu corpo como nestes papéis, entendendo o corpóreo como pele, ou antes como entranha. A pintura moveu-se na sua liquidez, com a sua matéria, sobre a humidade do papel. Colada a ela, um mundo formal, desfeito e informe, que transpira da forma para algo mais definido, totalmente contíguo, como uma espécie de projeção de uma sexualidade, do íntimo com a intimidade da pintura.
São as pinturas mais abstratas até agora. O pigmento é pousado como terra, a água erode o material, encharca o papel, e a pintura chove e chora. As formas saem, gravam-se no papel; só tenho que as deixar aparecer. Encontrei neste esforço de não estar, neste ato de rendição, a comunicação máxima com o ato de pintar, de viver e de estar. Estas manchas que mal existem, que se alimentam umas das outras, sempre voláteis, borradas e dissolvidas, contêm o tempo e a espera de chegar a ser, após uma infinita soma de nada, ou quase nada, fruto do impulso discreto que deixa a marca da retração do ato de pintar, de uma pintura isenta de vaidades, uma pintura “suja”, se entendermos a sujidade como a ausência de pretensão de beleza ou atratividade. É a procura de um caminho em direção ao sublime, através da renúncia à intervenção, à representação e à cor.
Escolhi o papel como suporte por ser permissivo, porque sofre, dilata-se, tem memória; mantém a lembrança daquilo que por ele passa. Trato o papel como um ser recetivo: estabelece-se um diálogo entre o papel que aceita a matéria, a matéria em si e eu, como mediadora do processo. Surge uma narrativa que tem a ver com o ânimo, com o sentir, com o ver e o deixar-se ver. A pintura transforma-se em pintora e a pintora em pintura. Pinto com água que verto sobre o papel. A tinta pousa sobre o papel e movemo-nos os três: mancha, tinta e pintora. Nenhum dirige o movimento do outro. Eu movo-me com a água, a água move a tinta, e o papel desencadeia o meu movimento. Pinta também o tempo, que desaparece, detido pela tinta pousada. E nessa quietude em que o seca ou fossiliza, o tempo fica preso, ou talvez liberto.
No processo da pintura, o papel branco e vazio espera a ocupação das ilhas de tinta que diluem os seus limites e sobrepõem espaços no seu sonho de não ser plano. A cada passo incerto pode aparecer a leveza, filho, pai ou mãe da pedregosa ilha ou meteorito. Assim, uma após outra, as pinturas, no inexplicável ato de serem pintadas – numa pulsão, mais do que num impulso – ocupam esse leito vazio.
São pinturas sóbrias, pesadas e simultaneamente ligeiras, que partem do nada, de uma mancha muda. Aceitam o tempo, o sedimento, o escorrimento. São sinceras porque se tornam honestas perante a pintura. Sinceras, leves, sombrias – talvez o sejam. Talvez não.
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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