Casa das Histórias
Paula Rego,
Sala 1 a
6 Nov » 21 Mai ’23
De terça a domingo
das 10h às 18h
Última entrada às 17h40
Durante os anos 1969 e 1970, Paula Rego inicia um processo ilustrativo sobre as memórias infantis e familiares que tem subjacente uma análise psicológica das relações de “dominação” que assumem diversas formas. São as “histórias de todos os dias”, como as identifica a artista, registadas numa série de desenhos a tinta da China. Acontecem numa geografia delimitada, o Estoril, que é afunilada para o espaço de recolhimento doméstico onde têm lugar os acontecimentos mais marcantes da vida: o nascimento, as brincadeiras com as outras crianças, as birras, as visitas e as relações familiares, e em que o domínio da figura paterna na sociedade patriarcal portuguesa é, por vezes, evidenciado.
Histórias de todos os dias.
Paula Rego, anos 70
Curadoria: Catarina Alfaro
Estes instantâneos do quotidiano são, todavia, filtrados por uma configuração onírica que é requentemente erotizada e tem ligações à psicanálise, aproximando-se, por vezes, de uma estética surrealista. Também os acontecimentos políticos são alvo do olhar crítico e por vezes caricatural de Paula Rego, cujos desenhos — como O candidato, Simulacro e A corrida às urnas, Outubro 1969 — revelam o ambiente vivido durante as eleições de outubro de 1969 para a Assembleia Nacional, as primeiras realizadas no período designado por Primavera Marcelista (sala 1).
No rescaldo da Revolução de 25 de Abril de 1974 e do fim da ditadura em Portugal, a família de Paula Rego enfrenta graves problemas financeiros, resultado da falência da empresa herdada do pai, gerida desde 1966 pelo seu marido, Victor Willing, cuja doença avançava progressivamente. Embora o período que sucedeu a Revolução tenha sido bastante difícil, o seu trabalho continuaria a ser apresentado ao público, em exposições nacionais e internacionais, como um exemplo significativo da qualidade e da originalidade da arte contemporânea portuguesa. Durante esse período, a artista encontra na quinta da família, situada na Ericeira, e nos trabalhos do campo, a que se dedica com frequência, um sentimento de leveza que se revela proveitoso em termos criativos. No entanto, vários testemunhos dão conta da sua insatisfação com a realidade artística e cultural do país que ignorava práticas mais experimentais, deixando por isso sem qualquer referência na imprensa a sua nova exposição individual na Galeria da Emenda em 1974.
Do ponto de vista técnico, e apesar de Paula Rego continuar a desenvolver a “pintura-colagem” (embora com características distintas das obras realizadas durante o início dos anos 60), significativas mudanças que vão sendo introduzidas na sua pintura a partir dos finais desta década. A partir de 1966 vai optar pelo uso generalizado de tinta acrílica, que lhe garante um processo de trabalho mais rápido e permite sobretudo explorar uma paleta mais diversificada e vívida de cores, que marcavam também as últimas tendências da moda londrina e as imagens da cultura pop e do psicadelismo. As suas telas passam a ter como planos de fundo roxos, cor-de-rosa, amarelos, laranjas e verdes, dos quais se destacam figuras e outros elementos desenhados a caneta ou a tinta acrílica, de contornos bem definidos, recortados e colados, e que se introduzem metodicamente num complexo esquema compositivo.
Como resultado, a superfície pictórica torna-se mais plana, sem sombras nem perspetiva – efeito da saturação da cor através da utilização de tonalidades fortes e contrastantes para definir formas e fundos. A sua pintura assume então determinados aspetos que a aproximam da linguagem da arte pop, nomeadamente a paleta utilizada e a recuperação e criação de elementos figurativos múltiplos e díspares. No entanto, as diferentes proveniências estilísticas e a sua pertença a contextos narrativos muito diversificados afastam-na das premissas da arte pop. A multiplicidade referencial presente nas obras da década de 70 é também consequência de um sentido de apropriação que é estrutural na identidade artística de Paula Rego. Os livros lidos, as histórias ouvidas na infância, as notícias dos jornais, os filmes que vê no cinema e as exposições que visita durante as suas estadias em Londres são determinantes para a construção da sua linguagem figurativa singular. É precisamente pela diversidade das fontes de inspiração, próximas do seu quotidiano e através das quais constrói um território figurativo único e pessoal, que Rego reclama a sua autonomia perante os movimentos artísticos do seu tempo, uma especificidade que a sua obra manteria até ao final da sua carreira.
Catarina Alfaro
Curadora
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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