Centro Cultural
de Cascais
5 Jul » 15 Set ’24
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Vasos Comunicantes
CATARINA PINTO LEITE
A origem da obra do artista tem parte com o mistério. Obviamente, é sempre possível enumerar um conjunto de referências ou uma constelação de estímulos visuais e conceptuais que nos ajudem a compreender a génese desse trabalho. Mas eles nunca darão conta do processo de transformação que se opera na solidão do atelier, onde essas memórias múltiplas se combinam com uma infinitude de outros elementos para se materializar na superfície do papel ou da tela.
Quando visitámos Catarina Pinto Leite no seu atelier, contou-nos que esta série, composta por pinturas e desenhos, radicava na lembrança de uma viagem à Toscana durante a qual lia o livro de Emily Dickinson, Herbarium. Originalmente compilada entre 1839 e 1848, esta obra só foi publicada já no século XXI. A edição inclui não apenas o fac-simile da colecção de plantas coligida pela poetisa norte-americana, mas também um conjunto de poemas relacionados com o tema das flores. Estas duas recordações – a viagem e o livro -, que no espírito de Catarina Pinto Leite são indissociáveis uma da outra, constituíram a base das obras que aqui vemos.
E, de facto, tudo nestas peças evoca o universo vegetal. Pinturas de grande formato, quase exclusivamente em tonalidades de verde, constituem o manto contra o qual os desenhos – todos eles com um motivo que se destaca nitidamente sobre um fundo texturado – se inscrevem. À medida que a visita e a conversa avançam, vamos percebendo outras impressões que, nos últimos tempos, a pintora destaca, como a viagem feita recentemente a Paris para visitar duas exposições retrospectivas, de Mark Rothko e de Nicolas de Staël. E percebemos, para além da presença da multiplicidade de tonalidades de verde (que vão do esmeralda ao veronese; do viridiano ao malaquite),a citação das subtis gradações de cores do primeiro desses artistas, nas pinturas, lado a lado com o impulso para descobrir a estrutura essencial dos objectos, no caso do segundo. É que ao mesmo tempo que podemos agrupar as pinturas sob o título genérico de paisagens, os desenhos estão muito mais próximos da natureza-morta, ou pelo menos daquilo que, na contemporaneidade, sobra da antiga pintura de objectos e seres inanimados sobre um fundo doméstico.
Formas sobre um fundo, dizíamos inicialmente. E, aqui, é necessário voltar ao herbário de Dickinson e à impressão visual que as plantas, mortas há quase duzentos anos, criam sobre a superfície lisa e branca do fundo. O tempo amareleceu e uniformizou os matizes da riqueza cromática de cada flor, e o que vemos hoje é uma sombra, um vestígio do que terá captado a atenção da poetisa e determinado a recolha, secagem, colagem no álbum, e por fim a etiquetagem, com uma escrita fina e delicada que era a sua. O herbário de Lourdes Castro não é muito distante deste. E, nos desenhos de Catarina, a passagem do tempo não está no cromatismo escolhido, mas sim no processo que ela, que sempre fez da paciência e da espera um elemento do seu trabalho, nos deixa entrever na obra terminada.
Se no livro de Emily Dickinson não encontrávamos vasos de flores, a morte estava bem mais presente do que aquilo que sucede no antigo género pictórico da natureza-morta, que encenava plantas, animais e opulentas vitualhas em cenários onde a riqueza de pratos, vasos, talheres ou linhos de mesa só tinha comparação com os brilhos e a saturação cromática das cores escolhidas por cada pintor. Hoje, o processo de Catarina Pinto Leite serve-se, para além da pintura, do rasgar das folhas de papel que depois são combinadas sobre o suporte em composições que trabalham sempre com o diálogo entre figura e fundo. Da antiga natureza-morta, sobra aqui este diálogo constante entre a forma que se dá a perceber e o fundo que nos permite individualizá-la. Nas pinturas, pelo contrário, a sensação primeira é a de uma imersão total na cor por excelência da paisagem – o verde -, sem que seja necessário, do ponto de vista da pintora, individualizá-la quer de uma figura, quer de um céu através da presença da linha do horizonte. Estas paisagens, se é que lhes podemos chamar assim, estão muito mais do lado da memória da paisagem, como as naturezas-mortas tinham parte com a memória das flores ou do herbário, do que da permanência anacrónica de géneros pictóricos criados pela História.
Assim, estes vasos comunicantes – título que a pintora escolheu para esta série de trabalhos – comunicam com a história; a história pessoal, em primeiro lugar, feita de memórias de territórios, passagens, percursos, histórias, leituras, imagens, autores; e a história colectiva da pintura e do desenho, na medida em que, como é norma na nossa contemporaneidade, se apropriam de géneros e de obras passadas para os actualizar no tempo presente. Nenhum destes vasos é estanque, e eles comunicam entre si de muitas distintas formas.
Luísa Soares de Oliveira
Curadora
AMIGO DA
FUNDAÇÃO





Avaliações
Ainda não existem avaliações.