Casa das Histórias
Paula Rego
31 Out » 2 Nov ’25
De terça a domingo
das 10h às 18h
Última entrada às 17h40
A Coleção da CHPR em diálogo
Curadoria: Catarina Alfaro
Nas vinte e sete exposições realizadas sobre a obra de Paula Rego aprofundaram-se períodos específicos da sua vasta produção (anos 1960, 1970, 1980) ou optou-se por apresentá-la de acordo com critérios temáticos — algumas vezes em estreita relação com obras de outros artistas ligados ao seu universo figurativo — ou mesmo técnicos, como é exemplo a exposição Looking In, dedicada à sua obra gravada. Estas exposições, de caráter temporário, integraram sempre, para além das obras da Coleção da CHPR, empréstimos de colecionadores públicos e privados.
A Coleção da Casa das Histórias Paula Rego, propriedade da Câmara Municipal de Cascais, surge no panorama museológico português em setembro de 2009, assumindo-se desde então no contexto nacional e internacional como uma das mais significantes para o conhecimento da obra da artista. Refletindo grande parte do percurso criativo de Paula Rego, a Coleção é constituída pela doação da artista da totalidade da sua obra gravada e mais de duas centenas de desenhos e, ainda, uma pintura dos anos de 1950 doada pela família de Paula Rego em 2023. As várias doações da artista ao museu realizaram-se em quatro períodos distintos: a primeira foi em 2009 e constitui o núcleo central da Coleção; em 2016, 2019 e 2020 foram incorporadas as séries de obras gravadas produzidas entre 2009 e 2020. A Coleção conta ainda com vinte duas obras em depósito, pertencentes a colecionadores particulares e públicos que confiaram as suas obras à guarda da CHPR. Nesse núcleo encontramos diferentes meios, como desenho, pintura, escultura ou obras têxteis.
Paralelamente, a Coleção tem vindo a ser aumentada através de aquisições por parte da Câmara Municipal de Cascais de obras das décadas de 1960 e 70. Destacamos nesta exposição a mais recente: uma pintura com colagem, de 1977, intitulada Rei Canuto (Sala 2). A partir da lenda popular inglesa, O Rei Canuto à beira-mar, que reflete sobre os limites do poder temporal face ao poder espiritual, Paula Rego cria uma narrativa pictórica que parece subverter o sentido original da história ao representar o poder absoluto, também divino, nas figuras de faraós do antigo Egipto. Esta obra exemplar da atualização dos contos populares realizada pela artista, estrutura-se num método de composição livre e automático, utilizando uma paleta vibrante, a partir de uma linha de investigação que a artista definiu quando se propôs, em 1976, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, “ilustrar mais prolificamente os contos tradicionais portugueses ou integrar esses contos eternos na nossa mitologia contemporânea e experiência pessoal através da pintura” (Paula Rego, in Boletim de candidatura a um subsídio da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, 27 de abril 1976. Arquivos Gulbenkian, SBA 01392).
Em diálogo com o núcleo fundamental de pinturas em depósito no museu, encontramos nesta nova exposição da Coleção obras provenientes de instituições que têm desde há anos colaborado com a CHPR/Fundação D. Luís I, contribuindo para a qualidade e completude das exposições de Paula Rego neste museu: destaquem-se a Fundação Millennium BCP, a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva e o Museu Nacional do Teatro e da Dança. Este conjunto de obras vem preencher algumas lacunas da Coleção e permite uma visão de conjunto da produção pictórica da artista desde os anos 1960 até aos anos 2000. Estarão, todavia, excecionalmente ausentes por questões de programação própria ou de empréstimos, a Coleção CAM, Centro de Arte Moderna Gulbenkian e a Coleção Manuel de Brito, fundamentais por integrarem obras-chave da artista.
A atual exposição assume a plena missão deste museu ao disponibilizar a sua Coleção de forma mais estável, durante um ano, e estabelecendo uma nova e estimulante leitura, que não obedece necessariamente ao critério cronológico, antes organizando as obras num novo diálogo que valoriza as especificidades do trabalho artístico de Rego e os diferentes aspetos em que se foi centrando ao longo de seis décadas.
Na Sala 2 apresentam-se obras que abrangem o período de 1954 a 1977 que permitem uma visão panorâmica da evolução técnica e estilística da artista. Durante a década de 1960, Paula Rego desenvolve uma linguagem figurativa pessoal para expressar as suas emoções e sensações extremadas, refletindo a sua obra a dimensão complexa das questões com que se debateu durante o seu crescimento e início da sua vida adulta: a rigidez da realidade política e social de um regime fascista, manifestamente patriarcal e católico, em que as sensações do medo, da ansiedade, da agressão, da raiva e da sexualidade reprimida se impunham e às quais sentiu necessidade de responder ou de confrontar através da pintura. Na década de 1970, introduz significativas mudanças técnicas e formais na sua pintura. Durante este período, e sobretudo nos anos 1980, vai optar pelo uso generalizado de tinta acrílica, mais de acordo com o seu método de trabalho espontâneo, garantindo-lhe um processo de trabalho mais rápido. Este material e a necessidade compulsiva de desenhar permitem-lhe explorar, de forma diferente, a cor no sentido global da composição. Surgem cores vívidas, como o roxo e o verde, que marcavam também as últimas tendências da moda londrina e as imagens da cultura pop e do psicadelismo. Do plano de fundo destacam-se criaturas fantásticas que remetem para um universo onírico e são desenhadas, recortadas e coladas sobre a tela. Um núcleo significativo de obras menos conhecidas e dedicadas aos contos tradicionais é também apresentado nesta sala.
A Sala 3 destaca a única colaboração de Paula Rego com as “artes do palco”. Ao servir de ponto de partida para uma composição musical e uma obra coreográfica, o multifacetado imaginário da artista ganhou forma para além da tela ou do papel. Apresentado na Fundação Calouste Gulbenkian durante a temporada de 1998–99 do já extinto Ballet Gulbenkian, o bailado Pra lá e pra cá teve figurinos de Paula Rego e nele explorava-se a dimensão de fantasia e mistério que a artista colocou nas suas visões das Nursery Rhymes (rimas de berço inglesas), de 1989. O movimento e o dinamismo que muitas das gravuras transmitem ganham vida na corrida vertiginosa das personagens, que dançam, contracenam e se transfiguram em pássaros no palco.
Na sala Sala 4 reúnem-se uma série de desenhos e pinturas da década de 1980. São exibidas pela primeira vez duas ilustrações para o livro de contos de Eric Jourdan Barbe Bleu, Croquemitaine et Compagnie (Barba Azul, Papão e C.ia), publicado pela editora francesa Éditions de la Différence, em 1986. Estas duas obras foram recentemente depositadas por uma colecionadora particular no museu.
A partir dos anos de 1990, as histórias contadas por Paula Rego começam a ser encenadas, representadas e reinterpretadas num espaço de intimidade onde ganham vida própria através do modelo vivo e de modelos fabricados pela própria artista. O núcleo de obras apresentado na Sala 6 reflete a consciência da dimensão cénica que a sua obra adquire, quer através da sua metodologia de trabalho, quer no cruzamento com outras manifestações artísticas como o cinema, a ópera ou o teatro, que para além da literatura — que sempre esteve na base da sua pesquisa pictórica —, são também os territórios privilegiados das histórias.
Esta exposição não ficaria completa sem que, na sua última sala, a Sala 7, se desse uma especial atenção à construção das personagens femininas que se destacam na sua obra pela imponência física e expressividade emocional.
PAULA REGO



Avaliações
Ainda não existem avaliações.