Centro Cultural de Cascais,
Piso 0
17 Out » 2 Fev ‘25
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Declinações Gandaresas & Outras
ANA SÉRIO
“Há várias semelhanças entre a noite e a câmara escura.”
“Durmo sobre florestas de pedra e púrpura”
Imitando o autor de Finisterra (1), que por sua vez diz que repete os gestos de um dos narradores do livro, Ana Sério vai abrindo pastas, desarrumando telas encostadas, desfazendo maços de papel, rebuscando nos recantos do atelier dezenas e dezenas de obras a que, por facilidade de classificação, chamaremos paisagens. Diz-nos ela que, na maior parte dos casos não se trata de verdadeiras paisagens, mas de variações e elaborações sobre esse conceito, definido muito sucintamente por uma imagem num plano dividida a meio por uma linha horizontal. Em cima o céu, em baixo a terra, e no meio o lugar da projecção do nosso olhar; e sempre, sobre este fundo constante, a distribuição dos elementos da natureza: nuvens, árvores, plantas, rochas.
A ligação de Ana Sério com este género pictural não passa assim necessariamente pela representação de uma imagem real, mas pela tradução de um conceito que foi tratado exaustivamente pelos artistas desde que se autonomizou, por volta do século XVI. Contudo, a reflexão da artista percorre também caminhos mais literários. E isto, depois de um século em que a pintura lutou por se tornar independente da palavra escrita (quer seja a palavra da crítica, da história, do ensaio e, finalmente, da ficção) só é hoje possível porque a geração a que pertence não se deixa limitar por normas programáticas como essa a que me refiro. O artista é hoje livre não apenas de recorrer ao rico arquivo da história das imagens, como às ideias, materializadas na escrita, que foram sendo plasmadas no papel e no livro.
“Silêncio, isolamento, no trabalho (exige o pai). E assim, nunca teve acesso à câmara escura em plena laboração: supõe (apenas) a penumbra vermelha, os reflexos do sangue nas chapas, nos banhos das cuvetes.”
Carlos de Oliveira, e mais especificamente a sua obra Finisterra, é o escritor escolhido por Ana Sério para estabelecer um diálogo plástico e conceptual com a sua obra. Finisterra é um texto que, ficcionalmente, resulta da colectânea de papéis esparsos encontrados numa casa. A casa, nesta obra – verdadeira personagem central do romance – é o lugar da memória, da ficção e da imagem, materializada no desenho, na fotografia e até no movimento cinemático de uma procissão de homens e animais que anima o horizonte. De certa forma, a imagem está continuamente em devir, em decomposição como as florestas fósseis que constituem o fundamento instável da casa, que mais não é do que uma ruína por acontecer.
“Afinal, surgem como, as imagens? Reacções químicas? Pois sim. E que processos, substâncias e poderes orientam o mistério? Comparar outra vez com a madrugada; embora (pensando melhor) lhe pareça insuficiente, sempre elucida alguma coisa: também ela rompe da noite e torna o mundo diferenciado.”
É na casa que surgem as imagens, como é no atelier de Ana Sério que elas se materializam. Também aqui, no espaço da artista, existe um jardim. Mas é um jardim que repousa a vista, entre o verde-claro do relvado e os cinzas da nespereira que brilha a um canto, já sem frutos. Também no jardim, encostados à casa, há quadros que esperam o seu momento de se darem a ver. Já não cabem nas quatro paredes do estúdio.
“Desenhava de cór, entre flores selvagens, movido pelo revérbero que fendeu as nuvens.”
Poucas imagens, nesta casa, resultam da observação directa da natureza. Essa pequena série teve origem numa residência na fértil aldeia de Maceira, onde as características topográficas do lugar nada têm a ver com as rudes imagens inspiradas pela Gândara onde o escritor viveu na juventude. Tudo o mais resulta da imaginação, dessa escura caixa negra que depois se duplica na história da pintura, na fotografia e no cinema. Máquinas de produzir imagens; e, sobre todas elas, a noite, lugar dos sonhos que tanto povoam a obra do escritor como a pintura da artista.
“Lápis alteram as proporções e os tons (demasiado azul, muito vermelho, algum roxo, nenhum amarelo), mas povoaram esta desolação (areia, água, sol ou luar fotográfico): surgem recortados a negro (excepto as cabeças que são laivos de fogo) os primeiros homens, cavalos, bois, carneiros caminhando a custo entre grãos de areia grandes como penedias.”
Tudo se move, neste livro, e tudo se move na obra de Ana Sério. A série, declinação em vários papéis e telas de um conceito prévio, desdobra-se aos nossos olhos em motivos da floresta, das gramíneas, das gisandras, da casa, da água, do auto-retrato, por fim, que atesta, como a fotografia o faz, o “eu estive aqui” da afirmação autoral. Uma maquete da casa e do território, fotografada em sequência fílmica, marca essa caixa negra primordial que é a casa de Finisterra. As cores, esbatidas ou mais espessas, mas sempre em devir, actualizam a pergunta de Oliveira: “Onde vão vocês e o vosso fogo?” A transparência acentua as várias camadas de sentido, que em Oliveira eram a areia, as gramíneas, o céu, a lagoa e as nuvens – quando não o osso de baleia, os líquenes e os caules de gisandra do jardim onde o rapaz desenhava -, e aqui são as formas que se deslaçam entre o significado e o gesto puro da pintura de Ana Sério. Uma pintura também em constante devir, em cores e formas que se vão transformando obra após obra, tal como, afinal, a própria escrita de Carlos de Oliveira.
Luísa Soares de Oliveira
(1) Carlos de Oliveira, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003 (1978). Todas as citações provêm desta obra.
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