O edifício do Centro Cultural de Cascais é testemunho construído de sucessivas e marcantes alterações para diferentes usos, estando, na sua essência, refém dessas diferentes formas e utilizações e exprimindo hoje, de forma não uniforme, mas entusiástica, a aparência que resultou da vontade de transformar o anterior Convento da Ordem dos Carmelitas Descalços num controverso complexo habitacional. A posterior recuperação do espaço da capela para funções de culto não foi suficiente para contrariar a degradação resultante da segmentação de usos do conjunto edificado que, sem gestão conjunta e qualquer acção de conservação eficaz, atingiu um estado de ruína quase iminente.
Quando se procura a ossatura encontram-se com relativa facilidade os elementos que deram formas anteriores à construção e que permaneceram ao longo dos 400 anos de vida do edifício. A intervenção projectada foi feita pois, num cenário de grande degradação com riscos permanentes de derrocada. A atitude projectual foi a de considerar que a actual aparência do edifício (à excepção da capela) não tem grande valor artístico, estético ou histórico. Contudo, porque inédita, invulgar e exuberante e como tal com direito a ser preservada, recuperada e valorizada. Por isso, enquanto a recuperação no interior incide na salvaguarda e evidência dos testemunhos dos séculos XVI e XVII salvaguardando os espaços interiores decorrentes do desenho caprichoso do telhado, no exterior centra-se na preservação da sua imagem.
O conceito
A reabilitação apostou no reviver da antiga ossatura do convento. Foram, assim, objetivos deste projeto:
- Garantir a volumetria e a imagem do edifício na data da intervenção;
- Procurar e valorizar os elementos históricos que se foram sedimentando ao longo de quatro séculos, recuperando como testemunhos muitos deles;
- Transformar o interior do edifício na adaptação às novas funções, possibilitando um espaço museológico ou de exposição moderno que, contudo, não renuncie à síntese do que foi a história deste edifício;
- Dotar o edifício das condições técnicas que garantam a adequada estabilidade, segurança, conforto luminoso e térmico.
- Aceitar que a continuidade da vida útil do edifício exige o reconhecimento da sua importância imagética o que, por sua vez, exige a responsabilidade de, ao acrescentarmos o edifício, o fazermos através de uma linguagem arquitectónica contemporânea.
Estes objetivos foram traduzidos nas seguintes orientações projectuais:
- Propor um desenho arquitetónico que, com rigor, testemunhe a atualidade da intervenção. Respeitar duas principais memórias do edifício:
- A primeira, constituída pelos vestígios do antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade;
- A segunda, constituída pela expressão fundamental da atual construção envolvente (volumetria, cobertura, cor, fenestração); expressão dos elementos construídos (pé direito, vãos, guarnições, pavimentos).
As novas funções do edifício determinaram uma compartimentação substancialmente diferente da preexistente. Por isso, no conceito do projeto apostou-se no reviver da antiga ossatura do convento, evidenciando, em espaços muito mais amplos essa mesma ossatura em contraste com a envolvente expressiva da construção mais recente.
Das iniciais marcas do edifício, descobertas através das escavações, fica um testemunho simbólico no desenho do grande quadrado que atravessa o interior das alas Nascente e Sul do edifício, retomando a memória do que foi o inicial pátio do claustro. É no vazio criado pela dicotomia destas duas expressões arquitetónicas que se insere a atual intervenção no edifício, que se pretende discreta na expressão de meios, mas forte na novidade dos espaços. Sempre que a função exige novos elementos, estes são adoçados ou justapostos ao existente, exprimindo convictamente uma atualidade, que, contudo, está disponível para o retorno, não se pretendendo mais definitiva do que as anteriores.
Quando foi necessário introduzir um vão de grandes proporções – o acesso aos armazéns – optou-se por não raspar um paramento da envolvente, gerando conflitualidades com a linguagem arquitetónica protagonizada por esta, mas sim utilizando uma superfície de remate da fachada do edifício, hoje indefinida porque cortada abruptamente quando da construção do condomínio anexo. O conceito foi o de criar um elemento de articulação/separação, utilizando uma imagem externa neutra.
A frequência de fenestração inerente à construção preexistente, a sua relação com a envolvente e o controlo de iluminação, induziu soluções apoiadas na reflexão de luz direta controlada por vidros com elevado índice de resistência ao ultravioleta, filtros de dispersão e sistemas mecânicos de obturação.
Assim, em nenhum momento se inviabiliza a possibilidade de desfrutar dos pontos de vista soberbos que as diferentes vivências consagraram ao longa da vida deste edifício.
A proposta conceptual do projeto tornou as soluções arquitetónicas e de engenharia bastante complexas, pela necessidade de garantir a consolidação do edifício, de integrar sistemas técnicos de condicionamento climático, de iluminação e de segurança, de libertar grandes arcas de pavimento, e, simultaneamente, pela exigência conceptual de atenuar, até ao quase impercetível, a presença destes pesados sistemas.
O Centro Cultural de Cascais é, pois, uma proposta arquitetónica que, respondendo a um programa ambicioso num edifício complexo, se quer despojada e simples mas conceptualmente rigorosa e eficaz, incorporando formas, pensamentos, saberes e conhecimentos atuais, numa linguagem culturalmente coerente e dialogante com a história.

