Cascais junta a literatura e o cinema num ciclo que destaca as relações entre escritores e filmes. O ciclo “O Escritor na Sala de Cinema” explora a obra de seis escritores portugueses – Ana Teresa Pereira, Ruy Belo, Herberto Helder, António Reis, Carlos de Oliveira e Ana Hatherly –, para quem a ligação com o cinema foi uma inspiração, um modo de trabalho ou uma estética.
Ciclo de Filmes e Literatura
Cada sessão terá uma breve introdução, seguindo-se o visionamento de um filme e uma apresentação da influência do mesmo na obra do escritor. Este ciclo resulta de uma investigação de Raquel Morais, estudante de Programação e Curadoria de Cinema no Birkbeck College (Londres) como bolseira da Cátedra Cascais Interartes e da Fundação Calouste Gulbenkian.
PROGRAMA:
7 abril | 16h00
Escritor: Ana Teresa Pereira
Filme: REBECCA, de Alfred Hitchcock – 1940, 130 min.
Sessão apresentada por Amândio Reis
21 abril | 16h00
Escritor: Ruy Belo
Filme: MURIEL OU O TEMPO DE UM REGRESSO, de Alain Resnais – 1963, 112 min.
Sessão apresentada por Teresa Bartolomei
28 abril | 16h00
Escritor: Herberto Helder
Filme: ADEUS À LINGUAGEM, de Jean-Luc Godard – 2014, 70 min.
Sessão apresentada por Rosa Maria Martelo
5 maio | 16h00
Escritor: António Reis
Filme: O GOSTO DO SAKÉ, de Yasujiro Ozu – 1962, 112 min.
Sessão apresentada por Fernando J. Martinho
12 maio | 16h00
Escritor: Carlos de Oliveira
Filme: O SOL DO MARMELEIRO, de Víctor Erice – 1992, 134 min.
Sessão apresentada por Clara Rowland
20 maio | 16h00
Escritor: Ana Hatherly – “REVOLUÇÃO”, 1975, 11 min.
Filme: ANA HATHERLY – A MÃO INTELIGENTE, de Luís Alves de Matos – 2002, 41 min.
Sessão apresentada por Elisabete Marques
Ana Teresa Pereira
REBECCA
de Alfred Hitchcock – 1940, 130 min.
No ano em que lançava o romance O Verão Selvagem dos Teus Olhos (2008), a escritora Ana Teresa Pereira afirmava numa entrevista ao Jornal de Letras: “Há pouco tempo reli Rebecca, de Daphne du Maurier, e tive, mais uma vez, a impressão de voltar a um lugar que conheço muito bem: a alameda de rododendros, o quarto fechado onde alguém muda as flores das jarras todos os dias, a enseada com a casa de barcos. Acontece o mesmo com alguns dos meus contos. Há lugares que já existem dentro de nós.” Se O Verão Selvagem dos teus Olhos materializava Rebecca, a mulher-fantasma, o último romance da escritora, Karen, vencedor do prémio literário Oceanos em 2017, retoma também a história de Maurier, que Alfred Hithcock adaptou ao cinema. Rebecca, o belíssimo filme de 1940, será aqui a porta de entrada no mundo de Ana Teresa Pereira, habitado pelo cinema clássico e pelos romances policiais, de que a escritora se serve não como referências estáticas, mas como pequenos mundos imaginários que recupera e torna reais.
A sessão será apresentada por Amândio Reis.
Ruy Belo
MURIEL OU O TEMPO DE UM REGRESSO
de Alain Resnais – 1963, 112 min.
Alguns poemas de Ruy Belo (1933-1978) tomam de empréstimo títulos de filmes ou são dedicados a actores de cinema. Em muitos desses poemas se insinua a morte, nas suas diferentes formas – seja o desaparecimento ou a ausência da frescura. Num deles, «Vício de Matar», Billy the Kid inverte o jogo e torna-se ele mesmo o caçador: “Persegue a morte na pessoa dos outros”. Persegue-a porque a procura, e com essa inversão do movimento torna-se novamente o acossado. Os filmes são muitas vezes, na linguagem de Belo, o lugar do tempo feliz, autêntico e intocado. Mas o filme de Alain Resnais apresentado nesta sessão pergunta, como verso de Belo do poema «Muriel», “Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?”. Se outros filmes de Resnais, de narrativa fragmentada, contrariam o desaparecimento através da simulação do flashback, Muriel ou o tempo de um regresso tortura-nos com a enunciação do que passou, como o jovem Bernard, cismando na memória da amada.
A sessão será apresentada por Teresa Bartolomei.
Herberto Helder
ADEUS À LINGUAGEM
de Jean-Luc Godard – 2014, 70 min
O interesse do poeta Herberto Helder (1930-2015) pelo cinema e o modo como o autor se apropria de formas de trabalho e da linguagem específica daquela arte foram já objecto de diversos estudos. Se Helder é, dentro do panorama da literatura portuguesa, caso importante para pensar a relação da poesia com o cinema e com a imagem, um dos realizadores que possivelmente melhor lhe servem de par é Jean-Luc Godard, pelo modo como reflecte sobre a relação do cinema com a poesia. Em Adeus à linguagem, dois níveis, natureza (visível, real) e metáfora (invisível, imaginado) coabitam, questionando os limites do lado vizinho. O lado da metáfora recupera, para corrigir ou corromper, o lado da natureza. Pintar não o que se vê, mas aquilo que não se vê, toma Godard emprestado de Monet, lembrando obliquamente o pintor de um texto de Helder, «A Teoria das Cores»: confrontado com as mudanças de cor do seu modelo, um peixe que de vermelho passou a preto, decide por fim pintá-lo de amarelo.
A sessão será apresentada por Rosa Maria Martelo
António Reis
O GOSTO DO SAKÉ
de Yasujiro Ozu – 1962, 112 min.
António Reis (1927-1991), além poeta e cineasta, foi também professor na Escola Superior de Teatro e Cinema. Famosamente, as suas aulas, com programas curriculares de poucas linhas, giravam em torno de uma lista de filmes que Reis e Margarida Cordeiro, companheira de vida e de trabalho, tinham como essenciais. No contexto da recente reedição de Poemas Quotidianos (2017), publicado pela primeira vez em 1967, regressamos a um dos filmes dessa lista: O Gosto do Saké (1962), último filme de Yasujiro Ozu, história de um pai viúvo que decide tentar casar a filha. A contenção formal dos filmes de Ozu e dos poemas de Reis, obras de tom tão próximo, é resultado de demorado apuramento. Em ambos os casos, a aparente simplicidade constrói-se sobre aquilo que é silenciado: sob a placidez dos pares, das casas e das paisagens subsiste sempre uma tensão.
A sessão será apresentada por Fernando J. B. Martinho
Carlos de Oliveira
O SOL DO MARMELEIRO
de Víctor Erice – 1992, 134 min
Em alguns textos do escritor Carlos Oliveira (1921-1981), encontramos o cinema como elemento que ajuda a pensar o ofício do escritor: o filme desta sessão, O sol do marmeleiro, de Víctor Erice, serve de mote para pensar a aproximação entre as figuras do escritor, do pintor e do cineasta através de problemas que lhes são comuns. No romance de Oliveira, Finisterra, lê-se: “Nas relações sujeito-objecto, o sujeito faz parte da realidade e sem ele (que sente as coisas) nada faria sentido.” Num livro em que as personagens se ocupam de tentativas de figurar a realidade através de diferentes meios – o desenho, a fotografia, a gravura –, a reflexão sobre o processo de representação é constitutiva do próprio livro. Também o filme de Erice acompanha a criação de um quadro que nunca virá a ser concluído. Seguindo o decurso dos dias do pintor António Lopez Garcia e as transformações do marmeleiro, o filme, como Finisterra, pensa de que forma elementos como a memória, o sonho ou o próprio tempo fazem parte de qualquer representação do mundo.
A sessão será apresentada por Clara Rowland
Ana Hatherly
REVOLUÇÃO
de Ana Hatherly, 1975, 11 min.
A MÃO INTELIGENTE
de Luís Alves de Matos – 2002, 41 min.
“O meu trabalho começa com a escrita – sou um escritor que deriva para as artes visuais através da experimentação com a palavra”, afirmou Ana Hatherly. Em alguns dos seus textos sobre poesia concreta, Hatherly partilha preocupações e referências com campos artísticos que poderíamos à primeira vista imaginar distantes, como os do cinema experimental. As explorações desses dois campos debruçam-se sobre as relações, tensões ou alternâncias entre imagem e texto, entre ver e ler: se a poesia concreta considera fazer de um poema um modo de inscrição no espaço, o cinema experimental, inversamente, diríamos, ambiciona por vezes apresentar-se como uma forma de escrita. É nos espaços entre essas duas dimensões que se inscreve um conjunto de filmes que Hatherly realizou nos anos 70, durante o tempo passado na London International Film School e em anos subsequentes. Dessa série de curtas-metragens criadas pela artista, onde se incluem trabalhos de animação ou até exercícios de pintura sobre película, apresentamos nesta sessão o filme Revolução, a par de um documentário de Luís Alves de Matos, Ana Hatherly – A mão inteligente, que acompanha a carreira da artista.
A sessão será apresentada por Elisabete Marques.
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APRESENTAM
Amândio Reis
Amândio Reis desenvolve actualmente um projecto de doutoramento, apoiado pela FCT, em torno da narrativa breve do fim do século XIX. É investigador no Centro de Estudos Comparatistas, onde trabalha nas áreas da literatura comparada e das relações entre literatura e cinema. A sua tese de mestrado incidiu sobre a obra recente de Ana Teresa Pereira.
Teresa Bartolomei.
Teresa Bartolomei, nascida em Itália, estudou Filosofia da Linguagem na Universidade La Sapienza, Roma, e na Goethe-Universität Frankfurt. Trabalhou como publicista independente e tradutora. É autora de ensaios sobre ética, religião e literatura, assim como de narrativa curta. Em 2016, doutorou-se no Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa, onde voltou em 2017, para leccionar um seminário sobre “Tempos Bíblicos”. Actualmente, é investigadora integrada do CITER – Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Universidade Católica Portuguesa. Em Fevereiro de 2018 publicou Radix Matrix, um ensaio sobre eclesialidade e cidadania, São Paulo e a dimensão comunitária da democracia.
Rosa Maria Martelo
Rosa Maria Martelo é ensaísta e professora de Literatura e Estudos Interartísticos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem privilegiado o estudo da poesia portuguesa e das poéticas modernas e contemporâneas. Como investigadora do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, interessam-lhe as ideações da imagem, particularmente nos diálogos da poesia com as artes visuais e audiovisuais. Publicou os livros de poesia A Porta de Duchamp (2009), Matéria (2014) e Siringe (2017); entre os livros de ensaios mais recentes, conta-se O Cinema da Poesia (2ª ed. 2017) e Os Nomes da Obra – Herberto Helder ou o Poema Contínuo (2016). Co-organizou a antologia Poemas com Cinema (Assírio & Alvim, 2010) e co-dirige a revista Elyra (www.elyra.org).
Fernando J. B. Martinho
Escritor, ensaísta, poeta e professor aposentado da Faculdade de Letras de Lisboa. Foi Leitor de Português nas Faculdades de Bristol e Califórnia, em Santa Bárbara. Os seus trabalhos têm incidido especialmente sobre a Poesia Portuguesa Contemporânea. Tem colaboração dispersa por revistas e colectâneas portuguesas e estrangeiras. As suas obras incluem Pessoa e a Moderna Poesia Portuguesa (1991, 2ª ed.), Pessoa e os Surrealistas (1988); Mário de Sá-Carneiro e o(s) Outro(s) (1990); Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50,2ª ed. 2013 (tese de doutoramento em 1991). Recebeu o Prémio Pen Clube de Ensaio em 1996. Como poeta publicou apenas dois livros: Resposta a Rorschach e Razão Sombria.
Clara Rowland
Clara Rowland é Professora no Departamento de Estudos Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Desenvolve o seu trabalho nas áreas da Literatura Brasileira, da Literatura Comparada e dos Estudos Interartes. Entre 2012 e 2016 foi coordenadora, no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, do projeto FCT Falso Movimento – estudos sobre escrita e cinema, no âmbito do qual editou, com Tom Conley, Falso Movimento: ensaios sobre escrita e cinema (Cotovia, 2016). O seu livro A Forma do Meio. Livro e Narração na obra de João Guimarães Rosa foi publicado em 2011 pela Unicamp/Edusp.
Elisabete Marques
Elisabete Marques é doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com uma dissertação sobre Maurice Blanchot e Samuel Beckett. Actualmente, é investigadora no Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), onde está a desenvolver um projecto que incide sobre as relações entre Literatura e Cinema. Colabora na revista Textos e Pretextos e é co-editora do livro Estética e Política entre as Artes (edições 70).
Raquel Morais
Raquel Morais é coordenadora do projeto O Escritor na Sala de Cinema e estuda Programação e Curadoria de Cinema no Birkbeck College (Londres), sendo bolseira da Cátedra Cascais Interartes e da Fundação Calouste Gulbenkian. Formou-se em Estudos Literários e começou a dedicar-se regularmente à área do Cinema em 2014: trabalhou com o produtor Paulo Branco, no Departamento de Cinema do MoMA, e na cabine de projecção da Cinemateca Portuguesa.
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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