O cinema é um instrumento cultural indispensável, uma vez que a difusão das obras audiovisuais permite reforçar as ligações culturais entre Espanha e Portugal, promovendo o cinema e a cultura. Através de um programa que reflete a riqueza e diversidade da cinematografia espanhola, esta mostra tem como objetivo situar o cinema espanhol mais perto do público português.
Este ciclo de Cinema é fruto da parceria entre a Fundação D. Luis I e a Seção Cultural da Embaixada de Espanha em Portugal, que disponibiliza para esta ocasião 6 filmes procedentes da Filmoteca da Aecid (Agencia Espanhola de Cooperação e Desenvolvimento).
Auditório Centro Cultural de Cascais, 15 a 17 Novembro 2020
Prazeres Hispânicos
Uma cinematografia pujante e multifacetada – onde cabem consagrados e malditos, lendas e marginais, heróis e vilões – que se soube reinventar ao sabor dos tempos e das vontades; uma indústria capaz de chegar aos mais variados públicos e de galgar além-fronteiras (pense-se, por exemplo, no número considerável de nomes, à frente e atrás das câmaras, que, durante o último quarto de século, tem dado cartas em Hollywood). Se quiséssemos entrar em comparações, seria caso para dizer: aqui tão perto e tão longe…
Falamos do cinema espanhol, reduto de múltiplos prazeres e não menos surpresas, que a Fundação D. Luis I, em parceria com a Secção Cultural da Embaixada de Espanha em Portugal, homenageia com um ciclo de seis títulos – a exibir no Auditório do Centro Cultural de Cascais – procedentes da Filmoteca da Aecid (Agência Espanhola de Cooperação e Desenvolvimento) que se propõe desvendar caminhos trilhados numa viagem (entre tantas outras possíveis) ao longo de mais de cinquenta anos.
Comecemos então este périplo pelo início, que corresponde também ao seu cume: “El Ángel Exterminador/O Anjo Exterminador” (1962) – 15 de Novembro; 21h –, de Luis Buñuel, um dos cineastas máximos da história da 7ª Arte e dos poucos a quem o epíteto de «génio» se aplica com inteira justiça. E o que é então esta obra-prima absoluta (numa carreira recheada delas)? Uma fábula perversa sobre uma classe encerrada nos seus preconceitos e valores? Uma alegoria de uma sociedade opressiva, que tanto poderia ser a franquista como qualquer outra de pendor autoritário e conservador? O retrato da tóxica cumplicidade entre poder e religião? “O Anjo Exterminador” pode ser tudo e nada disso, permitindo uma miríade de leituras e interpretações e convidando o espectador a perder-se jubilosamente nos seus labirintos. O fascínio do filme reside precisamente nesse mistério. Ou, nas palavras (perversas?) de Buñuel: «A melhor explicação para o “Anjo Exterminador” é que, racionalmente, não tem nenhuma».
Penúltimo capítulo de um exílio mexicano, foi nessa fase (imposta pela chegada do fascismo a Espanha) que a subversão de Buñuel atingiu o ponto máximo, com o realizador a inserir-se num sistema de produção e a trabalhar dentro de «géneros» estabelecidos (essencialmente, o melodrama) dinamitando-os por dentro de maneira sub-reptícia. Pai do surrealismo cinematográfico – os míticos “Um Cão Andaluz” (1929) e “A
Idade de Ouro” (1930), em co-autoria com Salvador Dalí –, Buñuel regressa a esse estilo (tal como na posterior despedida do México, com o maravilhoso “Simão do Deserto”, três anos depois), mas de forma radicalmente distinta da anterior. Dispensando em larga medida os «sinais exteriores» dessa prática, o surreal revela-se pelo absurdo da situação, com o grupo de burgueses reunidos numa mansão palaciana (na corrosivamente intitulada Rua da Providência) estranhamente incapazes de abandonar o local após o término da festa, vítimas da sua apatia e de uma qualquer bizarra compulsão, como não podia deixar de ser no cineasta por excelência do desejo e da obsessão. À medida que os dias se sucedem e os mantimentos desaparecem, observamos a implacável deterioração – guiada pela câmara enleante de Gabriel Figueroa (célebre pela colaboração com o grande Emílio Fernandez e um dos maiores directores de fotografia de sempre), que parece «caçar» as personagens – da classe dominante, com as máscaras a caírem e as altivas boas maneiras a darem lugar a um bestialismo confrontacional, ao mesmo tempo que o cenário fulcral da sala luxosa se transforma num monte de escombros. A claustrofobia é total, com a sensação de enclausuramento a surgir exponenciada pelo recurso sibilino a uma lógica de repetição, num círculo fechado que não admite possibilidade de fuga.
De um clássico para outro: “El Verdugo” (1963) – dia 16; 15h –, de Luis García Berlanga. Como disse Pedro Almodóvar, todo o cinema espanhol deriva de Buñuel e Berlanga, sendo estes os seus mestres incontornáveis. De facto, a causticidade do segundo não pede meças à do primeiro, ganhando até maior relevância se pensarmos que Berlanga fez todo o seu percurso sem sair de Espanha, o que lhe valeu muitos dissabores e dificuldades da parte de um regime avesso às suas sátiras sociais (desde logo, a primeira longa em nome próprio, o hilariante “Benvindo, Mister Marshall”, de 1953). Exemplo máximo destas, “El Verdugo” conta a história de um pobre diabo (o italiano Nino Manfredi) que, para ter direito a um apartamento, se vê forçado a substituir o sogro (fabuloso José Isbert) no cargo de carrasco… Ataque à hipocrisia moral do fascismo (em que a morte é objecto de uma visão supersticiosa e retrógrada, mas, em simultâneo, assumida como algo natural quando «oficial» e exigida pela burocracia de um estado) aniquilador da vontade individual, constitui uma das mais ferozes – e divertidas – denúncias da pena de morte, sem pedagogias nem didactismos ocos.
Vencedor do Prémio da Crítica no Festival de Veneza (onde o governo de Franco tentou boicotar a sua participação, sustentando-se em acusações de «comunismo»), é tido por muitos como o «melhor filme espanhol de todos os tempos». Construído com rigorosos planos-sequência
(oferecidos pelo superlativo trabalho de Tonino Delli Colli) e exibindo de modo exuberante as demais virtudes do cinema de Berlanga, do domínio absoluto das cenas de grupo à verbosidade tão cara ao realizador e… tão espanhola, tem toda a sua ética e razão de ser explanadas na magistral cena (poderosíssima imagem central e a primeira a vir à cabeça de Berlanga) que equipara executor e executado. Vítima de um destino inelutável, este algoz involuntário, ao mesmo tempo patético e comovente no seu inusitado trajecto de coveiro a verdugo, é uma das figuras maiores de um universo cinematográfico pessoalíssimo e de inultrapassável humor negro.
Saltando para o novo milénio, podemos encontrar em Álex de la Iglesia um válido seguidor dos ensinamentos de Berlanga e Buñuel. Os tempos já serão outros – pós-ditadura, pós-Almodóvar, pós-internacionalização –, mas a mordacidade manifestada desde o início pelo basco só pode ser vista como o continuar de uma nobre tradição. Autor de culto que nem por isso deixou de atingir o êxito comercial, o seu amor pelo cinema trash e a BD tem sido evidente desde a fulgurante trilogia inicial de “Acción Mutante” (1993), “O Dia da Besta” (1995) e “Perdita Durango” (1997), numa homenagem paredes-meias com a paródia aos géneros «menores», da FC ao terror, passando pelo western.
“Mi Gran Noche” (2015) – dia 17; 17h30 – mostra o realizador em óptima forma, numa inspirada comédia negra que actualiza a velha dicotomia realidade/representação para a idade das novas tecnologias. Sob o signo do simulacro e do desvario (desde o primeiro momento, com o playback inicial e o acidente da grua que atinge um dos figurantes), o filme desenrola-se no espaço concentracionário de um estúdio de TV onde há já uma semana se grava, com antecedência q.b., um programa de Ano Novo, no meio de rivalidades entre apresentadores (marido e mulher) e vedetas (os cantores Alphonso – um sádico e egocêntrico veterano interpretado por uma verdadeira estrela musical, Raphael, em glosa saborosa da sua persona – e Adanne, um Adão «millennial» de libido insaciável e mente infantil que Mario Casas encarna na perfeição). Há ainda espaço para agentes anões, contrabandistas estrábicos, fãs encarniçados, filhos adoptivos que afinal não o são e fluidos corporais sequestrados, com o caos no interior do estúdio espelhado na turbulência dos piquetes lá fora, num delírio descabelado que De La Iglesia orquestra sabiamente, através de um carrossel de pares que acabam por se cruzar no fim (e onde figuram comparsas de sempre como o inseparável e insubstituível Santiago Segura, elemento primordial da família iglesiana). Irrisão a rodos – os números musicais são um mimo
–, numa visão maliciosa e muito particular da falsidade e dissimulação do mundo da TV e do espectáculo que é também, naturalmente, uma reflexão sobre o cinema.
Entre «pais» (Buñuel e Berlanga) e «filhos» (De La Iglesia), houve uma outra geração, que inaugurou o moderno cinema espanhol, a de Almodóvar (que, recorde-se, apadrinhou “Acción Mutante”) e a de Imanol Uribe, que encontramos em “El Viaje de Carol/A Viagem de Carol” (2002) – dia 16; 17h30 –, co-produção luso-espanhola parcialmente rodada em Portugal (como o anterior e sedutor “O Rei Pasmado”, de 1991), com a curiosidade de contar com Rogério Samora num pequeno papel. No entanto, não se esgotam aí os motivos de interesse deste relato da passagem da infância à adolescência e das inerentes dores de crescimento, em modo de drama histórico. Os valores de produção revelam-se impecáveis e a reconstituição de época certeira: um retorno ao passado traumático da Guerra Civil Espanhola, conflito fratricida e ferida ainda por sarar na psique de um país, a servir de pano de fundo (primeiro, distante, e, progressivamente, mais nítido) à história de Carol, uma menina ibero-americana transplantada de Nova Iorque para o campo espanhol de 1938, nas vésperas do franquismo.
Viagem, tanto física como psicológica, aos segredos do mundo infantil, pairam por aqui ecos do encantatório “O Espírito da Colmeia” (1973) – de outro gigante, Víctor Erice –, na subtileza e elegância reveladas pela mão experiente de Uribe, que começou a filmar ainda antes da transição para a democracia e extrai desempenhos notáveis da dupla de jovens actores formada por Clara Lago e Juan José Ballesta. Lago, sobretudo, é uma autêntica revelação na pele do «bicho raro», corpo estranho numa paisagem sufocantemente convencional, um contraste entre
modernidade e provincianismo admiravelmente captado logo na cena inicial (mãe e filha cosmopolitas olhadas com incredulidade pelo padre e o seu acólito). Destaque ainda para a bela exploração da fotogenia «verde» do Alto Minho e Galiza, outro dos pontos fortes deste melodrama «em surdina» (veja-se o tratamento de momentos-chave como a morte da mãe ou o sacrifício de Tomiche), alvo de menção especial no Festival de Berlim.
Sobram dois outros títulos da colheita de 2015, que consistem igualmente num par de olhares no feminino: “Felices 140” – dia 17; 15h –, de Gracia Querejeta, e “La Novia” – dia 16; 21h –, de Paula Ortiz. O primeiro, um conto moral filtrado pela crise financeira global que parte da memória do seminal “A Caça” (1966) de Carlos Saura, narra a história de uma recém-quarentona que convoca familiares e amigos para lhes confessar que ganhou um prémio de 140 milhões de euros. Rapidamente, os laços afectivos se corroem e relações aparentemente
inquebrantáveis se degradam, trazendo à superfície pulsões subterrâneas, não espantando por isso que o tom leve inicial guine a dada altura para terrenos sombrios e próximos do thriller. Unidade de espaço e tempo – um fim-de-semana numa casa isolada – a potenciar um estudo da ganância humana. Filme «de argumento», filme de actores e personagens (a que o meritório elenco se atira com unhas e dentes), fica como o filho hispânico bastardo de “Os Amigos de Alex” e “Pequenos Crimes Entre Amigos”…
“A Noiva”, por seu turno, lança-se a um monstro sagrado das letras espanholas, Federico García Lorca, numa nova versão cinematográfica da peça “Bodas de Sangue”, que, entre outros, Saura já adaptara em 1981. Optando por uma narrativa não-linear, oscilando e dialogando entre presente, passado e futuro, e carregando na «ancestralidade» de uma história arquetípica (a noiva, o noivo, o pai, a mãe… apenas o elemento disruptor, Leonardo, tem direito a nome), o filme encena a sua curiosa variação do clássico triângulo amoroso de forma sensorial e sensual. Paixões irracionais, amour fou, clãs e fatalismo, tudo embrulhado num aproveitamento simbólico e expressivo da aridez das províncias de Saragoça e Huesca e do deserto turco.
Vasco T. Menezes
Vasco T. Menezes
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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