Quinta do Pisão
18 Jul » 25 Out ’20
De segunda a domingo
Verão (01.abr – 30.set)
9h00 – 21h00
Para a edição doLandArt Cascais 2020, a exposição bienal de arte na paisagem que a Fundação D. Luís I realiza desde 2009, pediu-se aos artistas que trabalhassem sobre a alteridade entre sítio e não sítio. Este duplo conceito, primeiramente enunciado pelo artista norte-americano Robert Smithson em 1968, acentuava a transformação operada nos materiais da escultura, da instalação e mesmo do happening, desde a retirada do lugar onde se encontravam na natureza (o “sítio”), até à galeria e ao museu de arte (o “não-sítio”). Smithson, unanimemente considerado um dos criadores da land art, faleceu poucos anos depois desta data, e não pôde assistir ao modo como os artistas continuaram a desenvolver as suas ideias, através da criação, e não só, de obras relevantes e artisticamente qualificadas em lugares que se afastavam dos espaços tradicionais de exposição. Tal como sucedia nos começos deste movimento, nessas décadas de 60 e 70 do século XX, o objectivo principal de todos os artistas que praticam a arte no espaço natural é, ainda hoje, não só o de se integrarem numa linguagem neo-vanguardista que continua a fazer sentido; mas também dialogarem com uma natureza que é essencial preservar, num cuidado que deve ser de todos. Tal como sucedia na altura, também hoje os artistas saem dos lugares específicos de apresentação da arte contemporânea para alargarem a sua esfera de acção à paisagem e ao mundo, e por esta via chegarem a públicos que, de outra forma, nunca conseguiriam contactar.
Desde 2006, Filipe Feijão tem vindo a apresentar um work in progress em vários locais. Trata-se de uma grande estrutura que acolhe plantas e objectos diversos, manufacturados ou achados no espaço natural. Para esta exposição, percebeu que a peça exigia agora um ponto final; irá por isso apresentá-la desmontada, colocada num espaço que, futuramente, será coberto com terra e com o manto vegetal próprio do parque natural Sintra-Cascais. Na exposição, adquire a qualidade de um grau zero arqueológico, de um conjunto ordenado de peças com qualidade escultórica que espera o passar do tempo para vir, de novo, num futuro mais ou menos distante, a ser desvelado.
Ilda David’, que é pintora, trabalhou a partir das suas memórias de infância para construir um cenário de um Almoço no Campo. Mas não apenas estas memórias: a partir de um trecho do livro de Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig, captou a descrição de um almoço imaginado por Aossê (Fernando Pessoa) para o qual se levaria um farnel, e haveria jogos e representações… Ilda David’ transporta para um espaço de passagem na Quinta do Pisão a linguagem poética de Llansol através da apresentação de pinturas dispostas como duplos da própria paisagem.
Manuel Rosa criou uma obra formada por esculturas em gesso e madeira que estão fixas no solo lodoso de uma lagoa. As peças em gesso foram elaboradas a partir de uma matriz feita em terra local, o que lhes confere uma cor pardacenta que se desvanecerá com o tempo. Ficarão por fim brancas, guardando contudo essa memória da matéria primeira com que foram construídas. Deixam-se ver como duplos, já que se reflectem na água da lagoa. Ao mesmo tempo, as suas formas orgânicas, quase maternais, ecoam a orografia suave das colinas da quinta.
Maria José Oliveira estabeleceu uma ligação entre a sua própria obra, que com frequência se serviu da cal para criar superfícies de um branco luminoso, e a existência de poços de cal antigos na Quinta do Pisão. Trabalhou a transmutação dos materiais através do fogo que se operava nessas estruturas escolhendo uma delas para apresentar um grande diamante brilhante, feito em técnicas mistas que incluem pintura e escultura, apresentado em diálogo com o branco e o negro de dois grandes círculos contrastantes.
Telmo Silva, um artista muito jovem, trabalha também as estruturas que combinam híbridos entre escultura, objet trouvé e pintura. Trazendo para espaços quase escondidos da quinta um cepo que trabalhou previamente no atelier – através da queima controlada -, ou captando cepos que aqui ficaram de árvores entretanto desaparecidas, que combina pontualmente com a inclusão de pigmentos naturais e colas diversas, revela a poesia inerente aos elementos da natureza a partir do momento em que o olhar humano, capaz de atribuir um sentido estético àquilo que vê, neles se detém. Como escreveu num texto sobre este trabalho, «olhar para o cepo sob o prisma da ruína permite antever o futuro da árvore que nasce».
Luísa Soares de Oliveira
curadora
Todas as fotografias © Valter Vinagre 2020
9ª Edição
Landart Cascais 2020




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