Passeio Marítimo do Estoril
7 Jun » 16 Jul ’23 – prolongada
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11ª Edição Artemar Estoril
Curadora Luísa Soares de Oliveira
No início da época estival, a Fundação D. Luís I promove uma exposição bianual de arte contemporânea no espaço do Paredão do Estoril. Os objectivos são múltiplos. Um dos primeiros, sem dúvida alguma, é o de proporcionar aos frequentadores das belas praias deste local o contacto com a obra de destacados artistas. Outro, não menos importante, consiste em incentivar a criação articulada com as condições e a natureza muito específicas deste lugar. Hoje em dia, este não é apenas um espaço de lazer como qualquer outro. É um ambiente cuja preservação está em risco, tanto pelas condições conhecidas de degradação climatérica e ambiental global, como pela fragilidade dos próprios ecossistemas que apenas aqui existem.
Falar deste local é também subentender uma fronteira real, embora mutante, entre terra e água. Trata-se de um limite simbólico, já que ele não coincide, de todo, com as fronteiras geopolíticas estabelecidas entre a terra ou o mar português e a separação entre um meio líquido e um sólido, já que essa separação muda ao sabor das marés, das tempestades, do vento. Estamos aqui numa zona de fronteira; e sabemos hoje como as circunstâncias sociológicas, geográficas e políticas determinam que essa barreira intuída seja tantas vezes concretizada numa praia, numa costa, numa ilha.
Estes são factos que não deixam hoje os criadores indiferentes. Falando com eles, ouvindo-lhes as inquietações sobre os tempos que vêm, sobre o futuro da terra e de todos os que nela habitamos – nessa casa comum tantas vezes maltratada -, é de uma maneira quase transparente e imediata que esta temática surge espontaneamente.
(clandestin_debaixo do sol!) de Carlos Noronha Feio
Carlos Noronha Feio, um dos artistas convidados para participar nesta 11ª edição do Artemar Estoril, tem desenvolvido justamente um corpo de trabalho onde a consciência da crise que vivemos é muito nítida. Esta consciência pode materializar-se através de metáforas visuais de decifração evidente (como as que aludiam às lutas pelo poder dentro das grandes estruturas geoestratégicas, que trabalhou em peças mais antigas) ou, como aqui sucede, através da afixação de frases ou palavras recortadas em metal que veiculam um sentido ambíguo.
(Clandestin_debaixo do sol!) não é nem uma denúncia, nem uma constatação, nem uma alusão à dupla maneira de estar debaixo do sol – ou como clandestino, ou como veraneante. Não é nada disso, e é simultaneamente tudo isso – e também a intrusão da escrita na arte, dentro de um processo de síntese das diferentes disciplinas que se reclamam artísticas, como a literatura, a escultura e a pintura.
MIRADOURO de Miguel Palma
Miguel Palma transporta-nos para o tempo, não muito longínquo, onde a observação pitoresca da paisagem se podia fazer mediante a inserção de uma moeda num óculo fixo, que se podia dirigir manualmente para o ponto a observar. Miradouro, o nome que deu à sua peça, combina este dispositivo com uma cor gritante que o torna também ele visível à distância. A contemplação da paisagem, uma das actividades destinadas a proporcionar o usufruto de belas vistas de mar ou de terra desde o século XVII, está na própria base da construção de um discurso que valorizava a representação do mundo natural – como era próprio da pintura de paisagem -, em vez de, por exemplo, relatar um acontecimento histórico ou religioso. Mas aqui não se trata apenas desta contemplação, mas da própria observação do passeante que olha, e que se vê, pelas próprias características técnicas da peça, condicionado a observar apenas aquilo que o mecanismo lhe permite ver.
Miguel Palma não faz assim uma apropriação literal destas máquinas de dar a ver, que na altura em que são divulgadas, acompanham o desenvolvimento de uma indústria do turismo florescente (e de uma classe média que o sustenta e desenvolve), mas foca-se também na condição de observador, que é exactamente a mesma de todo o indivíduo que adopta determinado pacote turístico, vendido a preço imbatível por uma qualquer agência de viagem. A visão do pitoresco (literalmente, aquilo que é digno de ser pintado) está, por isso, condicionada por códigos antigos, que nascem na pintura e são depois divulgados pela fotografia e pela indústria norte-americana do cinema. Dito de outra forma, vemos aquilo que outros já viram, e aquilo que nos preparámos para ver.
Miradouro, 2023 | Ferro, 185x170x170 cm
A peça “Miradouro” (2023) é uma estrutura quadripé de ferro colocada num local de observação no paredão de Cascais, Lisboa. A linha do horizonte/linha do mar desenha uma imagem característica da observação turística que remonta aos antigos miradouros que ainda disponham de um dispositivo de observação. O “óculo” cor de laranja, que confere um lado mais técnico e científico, mostra-se como o oposto da camuflagem e pretende ser um objecto de suporte e sinalização no ambiente em que está enquadrado. No entanto, este suporte visual era limitado, pois continha um temporizador que cronometrava o acesso do público a este meio.”
ENGRUPADO de Vera Mota
Vera Mota, desenvolve, na sua obra, questões relacionadas com o corpo em movimento.
Engrupado refere-se ao uso específico que o público dá a este lugar, e à hibridação entre design de equipamentos e escultura que ocorre hoje, nesta época tão fértil em questionar as divisões que costumavam ser tidas por imutáveis. A peça evoca um conjunto de corrimões de piscina banais, mas dispostos agora de tal modo, e com um tipo de moldagem específico que essa função recordada acaba por não se materializar. Esta é uma escultura, feita de vazios e linhas como um desenho no espaço, mas que se pretende que o público utilize e a faça sua durante as horas que aqui passa. Vera Mota desenvolve também trabalhos no âmbito da performance, e decerto espera ver o movimento, os passos, os gestos, enfim, que todos aqueles que se sentirem interpelados por esta obra executarão em torno dela.
Engrupado, 2023 | Aço inoxidável. 90x200x200 cm
Engrupado é um termo usado para identificar uma das figuras realizadas por atletas na modalidade de saltos para a água, em que o atleta abraça as pernas mantendo assim o corpo engrupado, junto. Este título descreve ainda, de forma literal, o modo como se compõe esta escultura, tratando-se de um conjunto de elementos agrupados. A escultura é composta por vários corrimãos usados habitualmente como apoio na saída de piscinas, ou espaços similares. Colocados fora do seu lugar, e assim ordenados, estes elementos afastam-se da sua função primeira, para afirmarem o seu potencial e autonomia escultóricas, abrindo-se ainda a novas possíveis funções (como pendurar uma toalha, ou servir de encosto para alguém secar ao sol depois de um mergulho). Confundindo-se com aquilo que é o vocabulário esperado de um local de veraneio, “Engrupado” surge como uma espécie de erro, em que a dimensão funcional destes objectos é substituída pelo seu carácter lúdico.
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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