Centro Cultural de Cascais,
Capela
25 Jun » 10 Set ’23
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Adélia Prado
Quem Põe o Som na Boca do Pisco?
INÊS MENDES LEAL, MANUEL FERREIRA, MARIA MÁXIMO e RÚBEN FERNANDES
No pequeno conto intitulado Embaixada Mexicana escrito por Walter Benjamin e publicado na coletânea Rua de Mão Única, o ensaísta nos introduz a um sonho com uma citação de Charles Baudelaire: “Nunca passo diante de um fetiche de madeira, um Buda dourado, um ídolo mexicano sem dizer-me: É talvez o verdadeiro Deus.”1, na sequência, Benjamin relata ter sonhado que estava no México como membro de uma expedição de pesquisa e – após se encontrar com um grupo religioso que habitava um sistema de cavernas – presenciava um ritual. Um enorme busto de madeira que representava o Deus-Pai para aquele povo secreto, balançava sua cabeça da esquerda para a direita três vezes ao ser confrontado com um fetiche mexicano.
Talvez devido à natureza do ambiente no qual esta mostra se apresenta, talvez pelo título escolhido pelos artistas que a compõe, ou ainda, quem sabe, pela inevitabilidade do assunto, o tema da religião surge. Nestes dias do ano de 2023 marcados pelo calendário gregoriano é difícil pensar a sério na espiritualidade sem acabarmos confusos, apesar do próprio ano, dos nomes dos dias e até mesmo das expressões mais comuns terem na sua base uma óbvia ligação a práticas religiosas. Penso nas arquibancadas dos estádios de futebol que tremem em louvor ao clube, nas pessoas unidas a comemorar a passagem de mais um ano, construto imaginário que nos guia no tempo, no dinheiro que – em cédula ou em número representado num ecrã feito de luz – nos move tanto quanto as forças físicas de uma correnteza que pode se tocar. Quem sabe a nossa maior maldição (ou bênção) seja não termos um grande busto de madeira a nos confirmar ou negar a veracidade das nossas crenças.
Ao sentarmos em nossas igrejas particulares e mirarmos o altar que lá construímos, este se transforma numa casa pequena demais para o nosso corpo, mas que guarda algo afiado que não sabemos dizer porque consegue abrigar nossa mente inquieta. Não há respostas para a nossa pergunta essencial, nada nos é dito diretamente. Nos resta então conviver com o ruído, quem sabe provindo do eterno retorno Nietzschiano ou da luta interna de quem sente que sabe voar, mas não consegue. Conviver com este ruído pode ser incómodo para aqueles que não aceitam a intrínseca falta de sentido em estar vivo e poder ouvir os pássaros, mas a espiritualidade pode mesmo ser algo como ter o céu sempre à frente da retina, sem saber da sua natureza fabricada, e aproveitá-lo mesmo assim
O pisco-de-peito-ruivo, ou simplesmente pisco, é uma pequena ave euroasiática que, com sorte, se encontra por aí. O pisco canta, e nisto não há nenhum espanto. O título desta exposição, porém, sugere através de um questionamento que algo (ou alguém) permita que o pisco cante, ou ainda, que ao querer cantar, o pisco abra apenas o espaço necessário para que coloquem em sua boca o som que se propagará pelo ar. Alguns acusariam o observador, baseando-se em algum assunto da física quântica, outros poderiam seguir a resposta mais óbvia. Há ainda queles que preferem perguntar de novo e de novo. Pobre do pisco, que ao cantar não pode tomar para si os louros da própria melodia. Sortudo é o pisco, que não tem culpa de cantar, só canta.
Heron do Prado Nogueira,
Junho de 2023
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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