Casa das Histórias
Paula Rego
14 Jul » 30 Mar ’24
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
A exposição Paula Rego: mudam-se as histórias, mudam-se os estilos reúne uma série de obras que revelam o processo criativo de Paula Rego que lhe permitiu construir um território figurativo único e pessoal. Neste território as histórias funcionam, desde o início do seu percurso artístico, como verdadeiras estruturas realistas que, no entanto, despertam na artista uma visão desagregadora da estabilidade ou universalidade de algumas destas narrativas.
Mudam-se as histórias, mudam-se os estilos
PAULA REGO
Durante a década de 60, Paula Rego desenvolveu uma linguagem figurativa pessoal para expressar as suas emoções e sensações extremadas, refletindo a sua obra a dimensão complexa das questões com que se debateu durante o seu crescimento e início da sua vida adulta: a rigidez da realidade política e social de um regime ditatorial, manifestamente patriarcal e católico, em que as sensações do medo, da ansiedade, da agressão, da raiva e da sexualidade reprimida se impunham e às quais sentiu necessidade de responder ou de confrontar através da pintura. Também a sua educação artística superior, entre 1952 e 1956, na Slade School of Fine Art, em Londres, foi determinante para o desenvolvimento individual através de práticas mais experimentais da figuração que exploravam a invenção formal associada à abstração e incluíam elementos autorreferenciais ou autobiográficos.
Os anos 80 coincidem com mudanças pessoais, sociais e artísticas que provocam em Paula Rego um sentimento de liberdade em relação a determinadas convenções impostas quanto ao modo de «fazer arte» e que se traduzirá numa reformulação do seu processo de trabalho. A presença e o confronto com as suas emoções através da pintura desencadeiam-se quando estabelece uma linguagem visual radicalmente nova para contar as suas histórias, criando um universo complexo e ambíguo em que os animais são criaturas com qualidades e comportamentos humanos, atiradas para situações peculiares, dramas vívidos e que invadem ruidosamente a sua pintura.
No início da década de 1990, na sequência do reconhecimento alcançado por Paula Rego no meio artístico londrino, deu-se um dos acontecimentos mais relevantes do seu percurso: a passagem pela National Gallery, em Londres, Paula Rego, tendo sido a primeira artista convidada para o programa de residências artísticas iniciado, precisamente, nesse mesmo ano. Tal experiência resultou na produção de obras numa relação direta com a coleção deste museu, deixando-se guiar pelos Mestres da Pintura Antiga e, através deles, reposicionando-se perante questões essenciais da técnica da pintura e do desenho. A relação de proximidade com as obras do passado teve, por essa razão, repercussões significativas no habitual processo de trabalho da artista, que reclamara até então a sua inspiração «sempre à arte popular, nunca aos grandes mestres».
Desde a década de 1990 e até ao final do seu percurso artístico, a sua metodologia de trabalho complexifica-se. Para a concretização das suas pinturas, há um primeiro momento em que as personagens/os modelos são escolhidos num rigoroso casting dirigido pela artista. Quando não encontra o modelo ideal, cria um «boneco» tridimensional numa materialidade fabricada com o mesmo impulso artístico. De seguida — e muito importante para o rigor táctil da cena —, escolhe as roupas, muitas delas encontradas nos bastidores das salas de espetáculo londrinas e em antiquários, vestindo todos os intervenientes para o momento narrativo pictórico. Juntam-se ainda outros elementos-chave à composição: mobiliário e objetos decorativos são metodicamente incorporados. As personagens ocupam este espaço cenográfico, intervindo diretamente nele, posicionando-se em cena de acordo com o seu papel principal ou secundário, atualizando assim as histórias.
Paula Rego pintou para contar e foi, simultaneamente, personagem e narradora de histórias intemporais, reinscrevendo-as no seu próprio tempo. A dimensão narrativa, sempre presente na sua obra, é organizada a partir da vivacidade e solidez do seu mundo imaginário. Será através do vasto universo das histórias — dos contos tradicionais portugueses aos contos de fadas; dos romances da literatura portuguesa e inglesa, das peças escritas para teatro ou das adaptações destas histórias para o cinema de Walt Disney — que a sua pesquisa figurativa pela via da fantasia e da imaginação ganha, na sua obra, uma importância maior.
A sua personalidade insubmissa e o combate por uma liberdade de expressão levaram-na a declarar independência perante os movimentos artísticos do seu tempo e a uma redefinição constante da sua linguagem figurativa. Este traço distintivo obrigou-a a uma constante subversão das convenções e dos limites impostos por uma qualquer tradição artística ou condicionantes próprios de uma técnica específica.
Catarina Alfaro
Curadora
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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