Centro Cultural de Cascais,
Piso 2
5 Nov » 25 Fev ’24
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
From the heat and the dust / to the cold hard light /
they were ready to learn / they were ready to fight
Nitin Sawhney, Heat and dust, do álbum “Immigrants”
Já Fomos Esta Gente Toda e Nunca a Seremos
Agarram-se. Prendem-se. Ligam-se. Estreitam-se. A tensão de mãos em esforço lateja a três dimensões neste Avesso dos Afetos, cativos em calor e pó ou luz dura e frio. Entrelaçam-se à volta de pescoços e dorsos, unem-se a suster pesos vivos, suportam receosos queixos, afagam faces interrogantes. A cada uma deverá escapar a presa que tenta aguentar ou reter, proteger ou possuir, fugidia e fluida que é a nossa condição, ténue por vezes o contorno anatómico, não raro inextricável um ser de outro, contínuas e contíguas as vidas. Sempre enquanto durem. Alguns vão e vêm. Uns vão apenas. Outros só vêm. Caras voltadas para nós ou caras que se nos viram não são indício fiável de qual o caso. Mira o horizonte quem se prepara para partir ou quem revisita o trajeto que venceu até acostar? Põe olhos no chão quem dele se despede a custo ou quem ainda descrê de voltar a pisar terra firme após muito balançar, sentindo-se até dela mareado? Abraço em azul, dor em silêncio, pranto, dilúvio, agonia são pistas que a artista espalha por outros tantos títulos, nem por isso resolvendo todas as nossas confusões.
Nenhum ri. Talvez um sorria. Tantos carpem. Um ou outro discute, ralha ou narra. Muitos não têm expressão, terão a que lhes dermos. Por vezes não se é dono senão de uma história, amiúde até essa nos querem tirar ou pintar por cima, daí avidez de contá-la. Cada onda que nos engoliu, um marco; cada peripécia, enredo; os ferimentos, cicatrizados ou não, galões; afetos e seu avesso, vidas. Luta-se contra a supressão ou, pior, a adulteração da memória. As armas, à míngua doutras, são a voz, a pena, o pincel, a mão que os esgrime, que molda. Quem é esta gente estranhíssima? Quem é o quê a quem? Conhecem-se sequer? A criança que este leva ao colo é filha dele ou órfã de outrem? A mulher que aquele abraça é a sua, só uma? Unem-nos laços antigos, sanguíneos, ou cumplicidades de ocasião, solidários com quem atravessa a mesma tormenta, transacionais até no toma-lá-dá-cá das ajudas, ou genuinamente generosos mas sem amarras, como o árabe providencial no deserto que cantava Serge Reggiani? Salvei-te a vida, carreguei-te, protegi-te do sol abrasador, não voltaremos a ver-nos.
Roupagens, fundos, adereços, cores – a havê-las, ou melhor, quando as vejo, que as há sempre – guiam-me por latitudes e longitudes próximas e remotas, na geografia e na psique, na arte e no mundo, na política e na história. São migrantes e refugiados os figurantes e protagonistas da pintura de Sofia Salazar Leite, quer o sejam na forma hodierna de quem morre à procura não de vida melhor, mas de vida, quer lho chamemos num arroubo retórico que dá conta de humores, fugas, caminhos, encontros, contrariedades, despedidas e fados. Os quadros desta mostra dão a ver, a ler, a ser. Já fomos esta gente toda e nunca a seremos, é mesmo questionável que tenhamos o direito de dizer que a somos. É perigosamente exíguo o espaço entre empatia e ser abutre, entre pôr-me no lugar do outro e banalizá-lo sem remédio. Viandando entre telas, socorre-me de novo (e como não?) a música, socorro-me de novo de Nitin Sawhney, consola-me a fugaz ilusão de que “Down the road there’s something better / Down the road we’re getting stronger / Down the road we’ll lead each other back home”.
Pedro Cordeiro
Baleal, Agosto de 2023
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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