Centro Cultural de Cascais, piso 1
10 Fev > 14 Abr ’24
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
Num éter ou magma informe, uma coisa latente, abstratamente procura contorno, esqueleto, figura-ideia.
Por aí, entre ecos de refrões e palavras que fogem, escuto debilmente: Coisinha, ó coisinha? Vinda de longe, do lado da escola primária onde havia barracas em cima do monte além das árvores, essa voz de criança ainda hoje é um apelo estranho e urge resposta. Chama-se talvez Raimunda, Anabela, ou Jennie, ou Ana filha de Rachael e esta também, prima de Nora e Ann, amigas de Fiona, Ada, conhecida de Francelina, Gelsomina, Mila, Teresa, Violeta, Carolina, Lourdes, Maria or any other name you please, João também, porque não, Myra? José, posso ajudar, ouvi também?
Que resposta dar?
QUID
ISABEL SABINO
Isto muito antes de saber pela Clarice daquele it dela. Coisinha. Danada. Que coisa.
Que coisa, isto?
Quid pergunta sobre pintura, o corpo, a casa onde vivo e o mundo.
Isto – it – algo – das – ceci – this, demanda de quid, é um não-sei-quê, uma coisa e uma pulsão, um gerúndio a par da coisificação provisória, pro caroço intangível e, honra a Barthes, fio de uma baba qualquer (aranha de red shoes nas patinhas, mania, mana mia).
Isto também é a coisa que somos, mas não somos coisas, isn’t it? Ou já?
Pois, espreita um outro, outras e outros, espreitam nomes e linguagens como disse Laurie feitas de vírus, máquinas e guerras sem significado, sem nenhum it ou, pelo contrário, no excesso que é outra modalidade de vazio, atropelo de vontades baralhadas, plural sem lei. Em sótãos e caves, a pergunta outra vez: Quid?
Sempre presente, o corpo inevitável ainda. Mas se lhe retirarmos ossos, músculos, vísceras, olhos, dedos, sexo, ainda fica algo, não? Pois, muda. Além?
Ah, das é o mundo. Os mundos que vemos, ouvimos, tocamos, lembramos, bem como os que imaginamos, sentimos, desconhecemos ou intuímos como possíveis ou não, motivando uma vontade, um movimento para, pro, towards. Conhecer. Por isso ensinar é algo natural e tão necessário. No quadro de ardósia, verde, luz azulada, tela branca, quid. Subitamente glitch, F de falha e f* de pardon my french, recordam que ceci n’est pas sobre realismos, mesmo que haja forma, figura, floreados. E, embora ironia e sarcasmos se usem a mascarar sentimentalismos, a emoção conta. Olá. Emojis. Oh.
Evitem-se as palavras arte, artista. Basta uma pedra, um olhar, uma escuta, bla. Bla.
Ceci é pintura principalmente, teimo. Pintura: Coisa e não-coisa que se escapa da matéria, da história e das histórias; um quadro aberto que só provisoriamente se fecha, feito de quadros, cada um com peças soltas prontas a tocar outras peças; um aqui e um além; um tic sem tac, e já lá vou.
Sim, há sinais que referem cores vistas, lugares, leituras, cenas ao vivo ou em écrans, conversas, vozes e acordes, nadas, ou nada, como diz o replicante à chuva. Mas diga-se, ainda, que this is not uma tradução (aliás, vejo-nos aflitos com essa parte) de acontecimentos, nem ilustração de textos, nem colagem de imagens sacadas da net ou dos telemóveis de todos, mesmo, meeeesmo que já pouco se saiba ver sem isso. E até podia, conceptualmente, mas não. Somando pedaços de tudo, escave-se, esqueça-se e volte-se a somar mais e, quando um fio de sentido se vislumbrar no absurdo, puxe-se por ele, ainda que possa ser quase o mesmo, poema fora de moda; frases antes e depois de imagens, por dentro delas, à procura de, sem umbigo ou o que nasceu primeiro. Mas evitem-se também as palavras poema e moda.
Ao id do tempo, a ele volto agora: partícula de pó no sem-fim-à-vista, onde o antes e o depois das horas que correm se misturam e os factos (quando o são) ficam sem rédea, desarrumando-se para se fixarem precariamente como coisas (et pour cause de uma coisa dentro deles, tipo íman ou buraco negro) para depois voltarem a soltar-se à procura de nexos diferentes. Novos? Overrated. Real? Verité. A possível. A fluir também.
Isto é, pois, panorama, perspetiva sobre. Um acontece. Muda, volta ao mesmo, mas nunca o mesmo. Natura.
Total(mente) paisagem, pintura, língua sem terra nem género, ou qual?
Porquê, perguntava há anos um amigo com nome de árvore.
E continua.
Isabel Sabino, 16 de janeiro, 2024
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