Centro Cultural de Cascais,
Piso 2
8 Mar » 19 Mai ’24
De terça a domingo
das 10h às 18h
última entrada ás 17h40
“O flâneur”, personagem criado por Baudelaire no início do século XIX, sempre me interpretou. Ele aparece tangencialmente em cada uma das obras de “Flanar” e o nome desta exposição vem do seu vagabundear. Ele personifica a experiência de passear pela cidade com uma mistura única de curiosidade e contemplação. Este indivíduo mergulha na buliçosa multidão urbana, observa com perspicácia a vida cotidiana e se regozija nos detalhes que frequentemente passam despercebidos.
Deambular
MARIA LUISA RUIZ TAGLE
Muitas coisas na minha vida começaram de forma lúdica, como um jogo. Brincar com lápis, tintas e desenhos, girar manivelas que montavam mandalas e linhas curvas, untar e rasgar papéis fizeram parte da minha infância e juventude. A minha incursão no mundo da arte aconteceu depois dos meus anos universitários, por circunstâncias extraordinárias. No momento em que entrei na universidade, o país vivia uma situação política complicada, e as carreiras artísticas não eram bem valorizadas no meu ambiente, naquela época difícil.
Sempre atraída pelo distintivo, estudei e trabalhei em educação especial. No entanto, a arte sempre cercou a minha aprendizagem. Então, segui um itinerário rigoroso, frequentando universidades e oficinas dirigidas por grandes mestres que me ensinaram diversas técnicas, desde a pintura até à gravura e à escultura. A tutoria com Eugenio Dittborn ao longo de muitos anos manteve-me em constante investigação da técnica que uso para criar.
Em particular, a obra que apresento nestas exposições surge do erro. Experimentando com acrílicos e óleos, tentando reciclar telas, iniciei um extenso processo de pesquisa sobre a “repelência” à água e ao óleo. Os resultados surpreenderam-me e fascinaram-me, levando-me a estudar como corrigi-los, para evitar que se desprendessem. Através de intensos testes de lavagem, raspagem e fixação, gradualmente desenvolvi uma abordagem sólida.
Por motivos pessoais, sempre me intrigaram as pessoas das ruas de todo o mundo. Comecei a documentá-las e a levar esses registros para o meu estúdio. Na tentativa de fundir esses mundos, decidi aplicar a técnica que estava a experimentar. Assim foi surgindo esta série de pinturas onde, através da técnica, os indivíduos se integram e desintegram, de maneira que confirma a totalidade. Escolhi o preto e branco para realçar e aprimorar a técnica.
Todo este trabalho de pesquisa constitui a exposição “Errando”, que viajou de Santiago para Valparaíso e de lá para Lisboa. Espero ter a oportunidade de expor estas obras em outros países europeus.
1. Por aglomeração de pequenas manchas, invariavelmente cinzentas, invariavelmente escuras, invariavelmente brancas.
2. Pela união de homens e mulheres feita por respingos minúsculos de tintas neutras.
3. Ao vaguear por figuras humanas à deriva.
4. Pela captação de pose de homens e mulheres diante das câmaras fotográficas.
5. Pela assumida e rigorosa ausência do vermelho, do verde, do azul, do laranja, do amarelo e do violeta, a pintura que vemos e que nos vê refugia-se amavelmente em tudo, entre o preto e o branco. Gotas e pingos, pontos evasivos, moléculas que fogem e regressam, originando figuras que veêm encontrar-nos sem nos achar.
6. Somos nós que os encontramos de perto ou perto do horizonte, nos segundos andares ou no tumulto de um mercado. Ou não os encontramos. Apenas cadeiras e mesas vazias.
7. Essas pinturas acumulam e somam pontos para fazer com elas um tecido móvel, para uma cidade que respira muda e escorregadia.
8. Nestas pinturas, os seus procedimentos materiais são o seu discurso, os pontos cinzentos a sua expressão, ela fala com precisão, and this is the end my friend.
Eugenio Dittborn
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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