Casa das Histórias Paula Rego
15 Mai » 26 Out ’25
De terça a domingo
das 10h às 18h
Última entrada às 17h40
A Fundação D. Luís I, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, apresenta a exposição O inferno são os outros, da artista portuguesa Ana Torrie. A mostra acontece no âmbito da programação do Bairro dos Museus e integra o ciclo de exposições temporárias na sala 0 da Casa das Histórias Paula Rego, dedicado a articular a Coleção do Museu com a produção artística contemporânea que se cruza com o universo de Paula Rego. A exposição decorre de 16 de maio a 26 de outubro. A curadoria é de Catarina Alfaro e Ana Torrie.
Ana Torrie desafia as convenções tradicionais da gravura com obras que ganham complexidade ao serem apresentadas de modo diverso em contextos diferentes e, evoluindo de instalações gráficas, ganham uma dimensão escultórica, por vezes acompanhadas por uma componente sonora.
O inferno são os outros exibe matrizes de grande escala (madeira, linóleo) como peças centrais e esculturas gráficas, um corpo vivo que evidencia nas suas texturas o processo de gravação enquanto intervenção performativa capaz de exprimir as marcas, a história e a emoção do ato criativo. São atrações visuais que transportam para o ambiente de um parque de diversões, num labirinto de escolhas múltiplas, que incentivam o espectador a atravessar diversos portais.
As lutas pelo poder, pela igualdade e liberdade, o medo e o sofrimento, o declínio e a destruição do mundo tal como o conhecemos são explorados graficamente, processo revelado no pormenor do desenho nos sulcos das matrizes de madeira e linóleo.
Ana Torrie
O INFERNO SÃO OS OUTROS
A exposição O inferno são os outros, com obras da artista Ana Torrie (Porto, 1982), integra o ciclo de programação de exposições temporárias na sala 0 da Casa das Histórias Paula Rego, dedicado a articular a Coleção do Museu com a produção artística contemporânea. Nestas mostras apresentamos obras que se cruzam com o universo de Paula Rego, quer pela via da figuração, quer pelo seu conteúdo narrativo. Recorrendo à metáfora do parque de diversões enquanto espaço recreativo, de liberdade e fuga à realidade, propiciador de experiências sensoriais e emoções fortes, Ana Torrie apresenta as suas obras como atrações visuais num labirinto de escolhas múltiplas, incitando o espectador a atravessar os diversos portais que conduzem às suas obras. Carregados de significados que apontam para a simbologia das obras que enquadram, os portais transportam-nos para um universo único em que as crianças são protagonistas e revelam o seu lado selvagem e brutal, bem como o seu potencial subversivo, numa tensão sempre explícita entre a inocência e ferocidade. A alegoria dos círculos do Inferno descritos em A Divina Comédia de Dante Alighieri é a referência principal para a construção narrativa e figurativa da exposição, criando um espaço simbólico onde a diversão, a liberdade, a angústia e o caos se misturam. Feras e Fúrias e a instalação constituída pelas peças Nós, as filhas da lama e Onde a erva murmura convocam diretamente figuras simbólicas da travessia conduzida por Virgílio pelo Inferno. Torrie encontra nesta temática um irresistível apelo — tal como outros artistas que se propuseram ilustrar o poema do século XIV, como Gustave Doré —, mas a sua abordagem diferencia-se pelo seu discurso intimista. Nas suas ficções visuais e narrativas o irreal e o real encontram-se através da figuração de submundos similares onde o imaginário da infância é sempre a referência e a memória fantasiada que se cruza com os dramas do mundo presente. As lutas pelo poder, pela igualdade e liberdade, o medo e o sofrimento, o declínio e a destruição do mundo tal como o conhecemos são explorados com uma acutilância gráfica intrincada que se revela sobretudo na incisividade do desenho nos sulcos das matrizes de madeira e linóleo, cobre e zinco.
As suas obras demonstram uma profunda consciência matérica. Torrie entende bem as propriedades dos materiais que utiliza e reconhece a importância da pesquisa e da experimentação artística como práticas centrais ao processo de criação, desafiando as convenções tradicionais da gravura. Esta dimensão reflexiva é sobretudo manifestada quando exibe as suas matrizes de grande escala (madeira, linóleo) como peças centrais e verdadeiras esculturas gráficas, um corpo vivo que evidencia nas suas texturas o processo de gravação enquanto ato performativo capaz de exprimir as marcas, a história e a emoção do ato criativo. As suas obras ganham, por isso, complexidade ao serem apresentadas de modo diverso em contextos diferentes (interiores ou exteriores; institucionais ou informais) e metamorfoseiam-se constantemente, evoluindo de simples instalações gráficas e ganhando uma dimensão escultórica, acompanhada até por uma componente sonora em Onde a erva murmura e Nós, as filhas da lama. Os dramas da sociedade são assim representados num processo de transformação constante, em que o próprio material conta uma história de imprevisibilidade, mudança e adaptação. Estas histórias de génese próxima acabam por se contaminar, abrindo a possibilidade de uma narrativa comum que é, em grande parte, conduzida pela própria autora, representada com e através das suas personagens, assumindo uma identidade que tem tanto de fantasmagoria como de autorretrato na instalação Memórias póstumas.
O estandarte do Inferno, aqui representado na obra Vexilla regis prodeunt inferni, título retirado do canto XXXIV do Inferno de Dante, conduz-nos diretamente a uma reflexão que é central à exposição. A besta em metamorfose, construída com as matrizes de cobre e zinco que estão na origem das gravuras de menor formato, e que esconde a presença de uma criança, é a imagem infernal do outro, pois o mal nunca está em nós. A complexidade da condição humana, com todas as suas contradições, é exposta através dos sentimentos que se geram logo a partir da infância: os medos, as inquietações, as angústias. E se o inferno são os outros, “L’enfer, c’est les autres”, célebre frase de Sartre, haverá lugar para a inquietação sobre a consciência de si mesmo através do olhar e julgamento dos outros. William Golding, autor da obra literária O Senhor das Moscas, que é uma referência transversal à obra de Ana Torrie, resumiu de forma certeira esta intranquilidade existencial que nos acompanha desde sempre: “A besta não é um animal à solta, antes se oculta na psique de cada criança.”
Ana Torrie (n.1982, Porto) Fez a sua formação académica na cidade do Porto, na Faculdade de Belas Artes. Licenciou-se em escultura, tirou o mestrado em desenho e gravura e uma pós-graduação em estudos da gravura. Entre 2007-2008 participou no programa Erasmus e estudou na Akademia Sztuk Pieknych im. Jana Matejki (Academia de Belas Artes Jan Matejko), Cracóvia (Polónia). Durante o curso de mestrado, esteve ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro onde estudou gravura entre 2012-2013. É fundadora do atelier de gravura Guilhotina.
AMIGO DA
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