12ª Edição Artemar Estoril
Curadora Luísa Soares de Oliveira
De dois em dois anos, nas praias entre Estoril e Cascais, o Verão é a época em que decorre uma iniciativa única em Portugal: a exposição Artemar Estoril, que traz para usufruto do público frequentador deste belíssimo local de veraneio a escultura e a instalação contemporâneas. Já na sua 12ª edição, esta iniciativa tem origem na abertura rara dos próprios responsáveis municipais – Câmara Municipal de Cascais e Fundação D. Luís I – a todas as formas e disciplinas da arte contemporânea, da literatura à música, ao cinema, às artes performativas e às artes plásticas. Mas também na vontade, raramente vista em contextos deste tipo, de aproximar a criatividade artística do público no próprio local onde este se encontra. Dito de outra forma, a Artemar leva a arte ao encontro de quem está na praia, de quem passeia no paredão do Estoril, de quem prefere vê-la no contexto do quotidiano de um dia de verão em vez de – ou além de – na atmosfera requintada e exclusiva do museu.
12ª Edição Artemar Estoril
Curadora Luísa Soares de Oliveira
Este modo de considerar a arte é relativamente recente; radica em algumas vanguardas da primeira metade do século XX, mas encontra as suas expressões mais bem conseguidas no imediato pós-segunda guerra, quando se fez sentir a distância considerável entre algumas linguagens artísticas mais sofisticadas e os hábitos e gostos nesta área do público não especialista. E pode dizer-se que foram os próprios artistas, muito mais do que os teóricos ou os conservadores de museu, a dar esses passos que visavam integrar a sua própria obra na vida quotidiana de todos. A arte no espaço público, de que esta exposição é filha e neta, nasceu aqui, neste aproximar generoso entre a criação artística e o transeunte.
Por outro lado, este não é um espaço como os outros. Existe uma tradição forte e ainda muito viva dos modos como o artista se relaciona e se relacionou com a paisagem marinha. Não é de todo deslocado lembrar que o Rei D. Carlos, que veraneava em Cascais, foi há mais de cem anos um excelente pintor de marinhas e um promotor dos estudos oceanográficos à escala da época; e que essa tradição da paisagem que, como nenhuma outra, nos encanta nos locais onde decorre a Artemar, está bem patente na representação deste ano.
O olhar sobre a paisagem é o de um observador que se coloca frente ao mar, e que fita a extensão imensa de uma linha do horizonte que, como sucede nos meses de estio, é a nítida separação entre a água e o céu, entre o verde e o azul. Ela coincide com o seu ponto de vista; e é este o olhar que nós próprios ocupamos de cada vez que nos absorvemos na contemplação de uma pintura de paisagem, tenha ela a idade que tiver. Por vezes, a pintura pode nem lá estar. A obra que Nuno Sousa Vieira imaginou para esta edição, Vai, procede de um processo de corte e assemblagem de módulos de madeira. O resultado final, que convoca a rotação da elipse, relaciona-se com a altura do artista; mas abre um espaço no seu interior que cita não apenas a abertura da lente no momento da fotografia, como o próprio processo de olhar para o distante horizonte, aqui dentro de um espaço obscurecido, também ele uma distante citação da câmara escura usada por antigos mestres pintores para a representação perspéctica da realidade sensível.
Sousa Vieira, que é escultor, sempre se colocou num plano conceptual que não exclui a contaminação da pintura, como aqui sucede. Podemos legitimamente pensar que não é apenas o conceito de pintura de paisagem que é aqui invocado, mas também a presença da cor do ambiente, muito evidente e visível, que é impossível não considerar quando nos posicionamos no lugar determinado pelo artista. E, como ele, também Evy Jokhova se coloca num plano disciplinar que evita as claras classificações, preferindo-lhes a ambiguidade dos caminhos que passam não apenas da pintura para a escultura e vice-versa, mas também pela multiplicidade das práticas ligadas às artes decorativas, aqui convocadas para a realização de uma peça que abre leituras muito diferentes do que acontecia no caso anterior.
De facto, Os Adoradores do Sol, o nome que deu à sua escultura, vai buscar à heráldica e às artes do têxtil os processos e as formas para se construir. Jokhova preferiu destacar a utilização habitual deste espaço – como área balnear e de recreação –, criando bandeirolas texturadas, feitas com hastes de metal e tecidos tingidos à mão que, com a ajuda do sol e da água do mar, sofrerão um processo de alteração cromática durante a duração da exposição. A sua obra cria um interessante contraste formal com as dos demais artistas aqui presentes, já que, como sempre sucede no caso do têxtil, não é possível atribuir-lhe nem forma nem volume fixos, características tradicionais da escultura. O material é maleável, sendo que elementos antropomorfos inseridos na peça acrescentam ambiguidade sobre a natureza daquilo que realmente vemos.
Francisco Figueiredo Lopes, o mais jovem dos três artistas convidados para esta edição, tem uma abordagem muito diferente à escultura em espaço público. Make it Burn, then Hold é constituído por elementos recuperados da indústria extractiva. Por um lado, possuem uma presença física própria que existe para além da sua função; por outro, essa função – que neste local seria problemática, já que implicaria a destruição da paisagem que nos deleita – existe sempre em potência. Na obra deste artista, os materiais não servem já para prender, agarrar, tirar, remover, extrair, destruir; eles são a potência dessas acções, mas também aquilo que resiste, que não se deixa cortar, que permanece e que recusa, enfim – numa dualidade de possibilidades que é, no fundo, a metáfora de toda a acção ecológica contemporânea.
Luísa Soares de Oliveira
Os Adoradores do Sol de Evy Jokhova
Essencialmente, são três mastros de 3 metros unidos na base com um elemento têxtil tingido (com 130 cm de largura e 400 cm de comprimento total) que se enrola entre os 3 mastros e tem elementos em forma de mão nos lados.
Make It Burn, Then Hold de Francisco Figueiredo Lopes
Make It Burn, Then Hold fixa uma garra metálica num estado de tensão contínua. Não há início nem fim, apenas o prolongamento de um gesto que se repete até se tornar estrutura. A peça não resolve, não descansa – permanece. Através da repetição, do corte, da soldadura e da acumulação, o trabalho torna-se matéria. O corpo e o metal operam sob a mesma lógica: insistem, resistem, mantêm. A escultura não representa um sistema — encarna-o. Funciona à margem da função, entre a ameaça e a contenção, entre produzir e resistir.
Vai de Nuno Sousa Vieira
Vai é uma obra que tem como proposição inicial (matéria-prima) 15 retângulos de madeira com 100×50 cm. Cada um destes retângulos foi sujeito a 3 movimentos de corte que mimetizam a dobra. Dobradas sobre si, as figuras geométricas ganham corpo e a inicial forma retangular torna-se um prisma. Estes 15 elementos (prismas) são unidos sequencialmente enunciando um movimento contínuo e elíptico. Após a conclusão da primeira volta, comprovamos o diâmetro da obra, 185 cm, que corresponde à altura do artista. O seu corpo, à semelhança do representado no ‘homem de Vitrúvio’ fica inscrito neste movimento.
PARTICIPANTES
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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