Auditório Carlos Avilez
Academia de Artes do Estoril
17 a 22 de fevereiro | 21h
Sessões às 21h00
Tanaka Kinuyo (em japonês, o apelido antecede o nome, 1909–1977), ocupa um lugar singular na história do cinema nipónico. Reconhecida internacionalmente como uma das maiores actrizes da era clássica — colaboradora frequente de realizadores como Mizoguchi Kenji, Ozu Yasujiro e Naruse Mikio —, Tanaka construiu também uma obra autoral como realizadora que permanece, ainda hoje, objecto de redescoberta crítica e reavaliação historiográfica. Num contexto industrial marcadamente masculino e tradicionalista como aquele em que viveu, foi a segunda mulher a realizar longas-metragens no Japão (antes dela, apenas há Sakanê Tazuko, com Hatsu Sugata, 1936) e a primeira a desenvolver uma carreira consistente ao longo da década de 1950.
A filmografia dela enquanto cineasta — que inclui os títulos que são exibidos: Koibumi/Carta de Amor (1953), Tsuki wa noborinu/A Lua Ascendeu (1955) e Chibusa yo eien nare/Para Sempre Mulher (1955), Ruten no ohi/A Princesa Errante (1960), Onna bakari no yoru/Mulheres à Noite (1961), Ogi-sama/Senhora Ogin, 1962 — revela uma atenção particular às experiências femininas no Japão do pós-guerra. Tanaka explora, com delicadeza e lucidez, temas como a sexualidade, a maternidade, o estigma social, a marginalização e as tensões entre tradição e modernidade. A abordagem que pratica distingue-se por uma sensibilidade intimista que articula o drama individual com as transformações históricas mais amplas, inscrevendo as trajectórias das suas protagonistas no tecido social e político da época.
Do ponto de vista técnico-formal, a sua mise-en-scène privilegia a expressividade contida, a composição rigorosa do espaço e uma direção de actores que evidencia a interioridade das personagens. Se a experiência como actriz lhe conferiu uma compreensão profunda do trabalho interpretativo, Tanaka, enquanto realizadora, constrói um olhar próprio, que evita quer o melodrama excessivo quer a abstração formalista, com a câmara a acompanhar os corpos femininos não só com empatia, mas também com uma consciência crítica das estruturas que os condicionam.
Durante décadas, a recepção da sua obra foi ofuscada pela centralidade dos grandes mestres masculinos do cinema japonês. Contudo, análises críticas mais recentes, sobretudo no âmbito dos estudos de género e da historiografia do cinema, têm sublinhado a importância do contributo dela enquanto autora que introduz uma perspetiva feminina, ou feminista, num sistema de produção dominado por homens. A filmografia de Tanaka constitui hoje um corpus de enorme importância para a compreensão tanto da representação das mulheres no cinema japonês clássico, como das possibilidades de uma intervenção criativa feminina no interior de uma indústria fortemente hierarquizada, como acontece com tudo no Japão ainda hoje.
Deste modo, a obra de Tanaka Kinuyo afirma-se como um território de resistência subtil e de invenção estética, onde a experiência feminina é tratada com complexidade, dignidade e densidade histórica. A sua redescoberta contemporânea não é apenas um gesto de justiça historiográfica, mas o reconhecimento de um verdadeiro auteur que enriquece decisivamente o panorama do cinema japonês do século XX.
STM
Ciclo de Cinema
Kinuyo Tanaka
PROGRAMADOR MIGUEL PATRÍCIO
17 fevereiro | 21h
Carta de Amor
Love Letter (1953)
Título Original: Koibumi, Realização: Kinuyo Tanaka, Baseado no Romance de: Fumio Niwa, Argumento: Keisuke Kinoshita, Direcção de Fotografia: Hiroshi Suzuki, Música: Ichirô Saitô, Direcção de Arte: Seigo Shindô, Produção: Ichiro Nagashima, Elenco: Masayuki Mori, Yoshiko Kuga, Jûkichi Uno, Juzô Dozô, Chieko Seki, Shizue Natsukawa, Kyôko Azai, Yumi Takano, Kikuko Hanaoka, Yôko Mihara, Kinuyo Tanaka, Preto e Branco, 96 minutos.
Sinopse: Lançado um ano após o fim da ocupação americana do Japão, a estreia de Tanaka na realização explora os conflitos profissionais e pessoais de Reikichi, um veterano repatriado que procura o seu amor perdido enquanto traduz cartas românticas de prostitutas japonesas para soldados americanos.
Posicionamento: Baseado num romance de Fumio Niwa (autor adaptado anteriormente por Mikio Naruse e Kon Ichikawa), “Carta de Amor” retrata com uma complexidade incisiva a difícil adaptação do povo japonês a uma nova sociedade saída do conflito bélico, bem como o lugar complexo da mulher no meio dessa transformação social. Curiosamente, também esta primeira incursão de Kinuyo Tanaka na realização revelou ser conturbada, tendo tido uma oposição silenciosa de Kenji Mizoguchi, seu metteur en scène. Tanaka, querendo afirmar-se como a primeira mulher japonesa a filmar depois da Segunda Grande Guerra, teve especial apoio de Yasujirô Ozu e Keisuke Kinoshita (o último assina o argumento). Filmando, então, para a Shintôhô, o estúdio mais modesto e o único na altura capaz de assegurar o projecto, Tanaka viria a levar “Carta de Amor” para o festival de Cannes em 1954, onde o filme foi reconhecido. Esse sucesso seria decisivo para firmar uma carreira atrás das câmaras noutro estúdio, a Nikkatsu, logo no ano seguinte.
Comentários: “Kinoshita escreveu, com Fumio Niwa, o argumento de Koibumi / “Carta de Amor” (1953), o primeiro filme de Tanaka, em que se reflectem as feridas do pós-guerra numa sociedade que prosseguia brutal no olhar que lançava às mulheres. A essa brutalidade responde um grande plano da personagem interpretada por Yoshiko Kuga, já perto do fim, que tem de ser visto para que se sinta o acossamento, a dor, a incredulidade, a recusa de mais palavras, a convulsão e a contenção. Está tudo na expressão dela encostada a uma rede gradeada com os chapões da luz intermitente de faróis em trânsito a abalarem a imagem do rosto todo em estremecimento.” – Maria João Madeira in “A Lua e Kinuyo Tanaka” publicado no site da Cinemateca Portuguesa.
18 fevereiro | 21h
A lua ascendeu
The moon has risen (1955)
Título Original: Tsuki wa noborinu, Realização: Kinuyo Tanaka, Argumento: Yasujirô Ozu, Ryôsuke Saitô, Direcção de Fotografia: Shigeyoshi Mine, Música: Takanobu Saitô, Direcção de Arte: Takeo Kimura, Produção: Eisei Koi, Elenco: Chishû Ryû, Shûji Sano, Hisako Yamane, Yôko Sugi, Mie Kitahara, Kô Mishima, Shôji Yasui, Kinuyo Tanaka, Junji Masuda, Miki Odagiri, Yô Shiomi, Preto e Branco, 102 minutos.
Sinopse: O Sr. Asai mora em Nara com as suas três filhas: a mais velha, Chizuru, que voltou para a casa da família após a morte do marido; a do meio, Ayako, em idade de casar, mas sem pressa de deixar o progenitor; e a mais nova, Setsuko, a mais exuberante das três irmãs que sonha em mudar-se para a capital. Esta última é muito próxima de Shôji, o jovem cunhado de Chizuru que mora num templo próximo da família Asai. Um dia, ele recebe a visita de um velho amigo, Amamiya, que lhe fala sobre Ayako. Setsuko está convencida de que Shôji ainda tem sentimentos pela sua irmã e fará de tudo para forçar o destino…
Posicionamento: Concebido pela Directors Guild do Japão, “A Lua Ascendeu” é baseado num argumento escrito em conjunto por Yasujirô Ozu e Ryôsuke Saitô, e é a segunda longa-metragem de Kinuyo Tanaka como realizadora, também integrando o elenco. Trata-se de uma história de amor que parte de uma perspectiva exclusivamente feminina, seguindo as aventuras românticas de três irmãs que levam vidas tranquilas na antiga capital do Japão, Nara, durante o final do Outono. A câmara de Tanaka é reforçada pela participação de vários colaboradores regulares de Ozu, como Chishû Ryû, que interpreta o pai das irmãs, e Takanobu Saitô, que compôs a banda sonora. Este foi o segundo (de dois) argumentos escritos em vida por Ozu que ele entregou a outro cineasta para filmar. Trata-se, pois, de uma obra que junta a sensibilidade ozuesca com as preocupações feministas de Tanaka.
Comentários: “(…) o segundo filme de Kinuyo Tanaka (…) continha cuidadosos traços de personalidade habitualmente associados ao trabalho de Tanaka que incorporou muito do estilo de Ozu.” – Donald Richie e Joseph L. Anderson in The Japanese Film: Art and Industry.
19 fevereiro | 21h
Para sempre mulher
Forever a woman (1955)
Título Original: Chibusa yo eien nare, Realização: Kinuyo Tanaka, Argumento: Sumie Tanaka, Akira Wakatsuki, Fumiko Nakajô, Direcção de Fotografia: Kumenobu Fujioka, Música: Takanobu Saitô, Direcção de Arte: Kimihiko Nakamura, Produção: Shizui Sakagami, Eisei Koi, Elenco: Yumeji Tsukioka, Masayuki Mori, Ryôji Hayama, Yôko Sugi, Shirô Ôsaka, Tôru Abe, Ikuko Kimuro, Hiroko Kawasaki, Yoshiko Tsubôchi, Kinuyo Tanaka, Bokuzen Hidari, Junkichi Orimoto, Preto e Branco, 109 minutos.
Sinopse: Hokkaido, norte do Japão. Fumiko vive um casamento infeliz. O seu único consolo são os seus dois filhos e um clube de poesia que revela ser a sua principal escapatória, permitindo visitas à cidade. Aí encontra Taku Hori, o marido da sua amiga Kinuko que, como ela, escreve poemas. Ela sente-se cada vez mais atraída por ele, porém Fumiko é diagnosticada com cancro da mama. Enquanto os seus poemas são publicados, ela sujeita-se a passar por uma mastectomia. A jovem mulher descobre, então, a paixão por um jornalista que vem visitá-la ao hospital.
Posicionamento: Situado nas planícies de Hokkaido, “Para Sempre Mulher” apresenta uma interpretação totalmente empenhada da actriz Yumeji Tsukioka. O elenco inclui igualmente Masayuki Mori, um dos actores mais reverenciados da era de ouro do cinema japonês (filmou com todos os grandes mestres e também participa em “Carta de Amor”), assim como Ryôji Hayama no seu primeiro papel em cinema, Yôko Sugi, e Shirô Ôsaka. O argumento foi escrito por Sumie Tanaka (autora sem relação com a cineasta), consolidando ainda mais a perspectiva de “filmes para mulheres, feitos por mulheres” que Kinuyo Tanaka se esforçou por avançar e desenvolver. “Para Sempre
Mulher”, com o seu lirismo tocante, representa a dor e os dilemas dessas mulheres condenadas às circunstâncias dos seus corpos, dando-lhes uma voz determinante, raramente audível em cinema.
Comentários: “É o caso de [«Para Sempre Mulher»], sem dúvida o seu filme mais arrasador e ousado, tanto do ponto de vista temático quanto formal. (…) A realização de Tanaka é cirúrgica mas sensível, sem pudor nem panos quentes e, sobretudo, sem qualquer forma de objetificação do corpo feminino: tal e qual uma mulher que apalpa os próprios seios em busca de nódulos, gesto de auto-cuidado necessário, mas ainda tabu, que a cineasta se permite mostrar mais do que uma vez. Essa forma tátil e crua de filmar o corpo da heroína é corolário de um female gaze, o único capaz dar a ver a experiência interior feminina, expondo as suas cicatrizes psicológicas (tão profundas quanto as físicas, que nunca chegamos a ver), bem como as suas pulsões mais íntimas e carnais (como o prazer de um banho de imersão, ou o desejo de partilhar a cama com um homem que também a deseja). Mas o idílio romântico entre a poetisa e o jornalista será breve: também aqui, Eros e Thanatos, pulsão de vida e pulsão de morte, andam de mãos dadas. Perto do fim, Fumiko não é capaz de acreditar que um homem possa sentir outra coisa que repulsa pelo seu corpo esquartejado, e vive esta aproximação como a de um abutre face à sua morte eminente. As cenas finais são puro melodrama, pathos a rebentar pelas costuras de um corpo que percebeu, tarde demais, que nunca é demasiado tarde para se descobrir.” – Bárbara Janicas in “Kinuyo Tanaka do outro lado da câmara: quatro filmes para descobrir” publicado no site À Pala de Walsh.
20 fevereiro | 21h
A princesa errante
The wandering princess (1960)
Título Original: Ruten no ôhi, Realização: Kinuyo Tanaka, Baseado na Auto-biografia de: Hiroko Aiishinkakura, Argumento: Natto Wada, Direcção de Fotografia: Kimio Watanabe, Música: Chûji Kinoshita, Direcção de Arte: Shigeo Mano, Produção: Hiroaki Fuji, Masaichi Nagata, Elenco: Machiko Kyô, Eiji Funakoshi, Yomei Ryû, Atsuko Kindaichi, Sadao Sawamura, Shôzô Nanbu, Chieko Higashiyama, Ryôzo Yoshii, Kiyoko Harai, Tatsuya Ishiguro, Chishû Ryû, Cores, 102 minutos.
Sinopse: Em 1937, quando o Japão ocupou a Manchúria, Ryuko, uma jovem de boas famílias, é informada que foi escolhida, através de uma fotografia, para esposar o irmão mais novo do imperador da Manchúria. Obrigada a deixar o Japão, ela terá de acostumar-se à sua nova vida enquanto princesa. Uma menina nasce pouco tempo depois e Ryuko parece estar feliz no Palácio. Porém, quando as tropas soviéticas preparam uma nova invasão, Ryuko vê-se forçada a fugir a pé, acompanhada pela sua filha, mas também pela própria Imperatriz.
Posicionamento: O primeiro filme de Tanaka a cores e em Cinemascope, rodado para a Daiei (estúdio de Kenji Mizoguchi), é um épico sobre uma mulher presa nos conflitos da História. Baseado nas memórias de Hiro Saga, “A Princesa Errante” retrata a história de Ryuko, uma aristocrata que, no início da Segunda Guerra Mundial, é forçada a casar-se com Futetsu, o irmão mais novo do imperador chinês brevemente a ser deposto. O envolvimento de Ryuko na ocupação japonesa da Manchúria cumpre com surpreendente profundidade a ambição de Tanaka em querer relatar uma saga histórica através de uma uma perspectiva crítica feminina.
Comentários: “Tanto um filme de aventura como um fresco histórico, “A Princesa Errante” põe a realizadora Kinuyo Tanaka ao serviço de um estúdio magnânimo pela primeira vez. A grande ambição do argumento, o uso da cor e do formato Cinemascope, bem como a interpretação da estrela Machiko Kyo, fazem desta produção cara um espectáculo inesquecível como só os estúdios sabiam produzir. O facto de um filme de grande orçamento girar em torno de uma personagem feminina torna a empreitada ainda mais singular e constitui um novo desafio para Kinuyo Tanaka.” – Pascal-Alex Vincent in Kinuyo Tanaka: Réalisatrice de l’âge d’or du cinéma japonais, ed. Carlotta Films.
21 fevereiro | 21h
Mulheres da Noite
Girls of the night (1961)
Título Original: Onna bakari no yoru, Realização: Kinuyo Tanaka, Baseado no Romance de: Masako Yana, Argumento: Sumie Tanaka, Direcção de Fotografia: Asakazu Nakai, Música: Hikaru Hayashi, Direcção de Arte: Motoji Kojima, Produção: Ichiro Nagashima, Hideyuki Shiino, Elenco: Chisako Hara, Akemi Kita, Yôsuke Natsuki, Chieko Naniwa, Chieko Nakakita, Noriko Sengoku, Sadako Sawamura, Kokinji Katsura, Akihiko Narita, Hisaya Itô, Misako Tominaga, Chieko Seki, Kin Sugai, Chikage Awashima, Kyôko Kagawa, Preto e Branco, 92 minutos.
Sinopse: A jovem Kuniko mora num centro de reabilitação para ex-prostitutas. Apesar da gentileza da directora, a vida não é fácil e, como todas as suas camaradas, ela espera sair regenerada da instituição. Ela recebe uma oferta de emprego numa mercearia, mas o marido da senhoria e os homens da vizinhança são muito desregrados. Kuniko foge e vai trabalhar para uma fábrica. Diante da maldade dos demais funcionários, ela larga outra vez o emprego para ingressar numa estufa de rosas. Aí, a vida parece ficar mais fácil, mas o passado da jovem volta para atormentá-la…
Posicionamento: Com “Mulheres da Noite”, Tanaka voltou a reunir-se com a argumentista Sumie Tanaka (que assinara anteriormente “Para Sempre Mulher”) para explorar a reforma das “trabalhadoras da noite” – tema já trilhado em “Carta de Amor”, seu primeiro filme, e caríssimo a um cineasta como Kenji Mizoguchi em “A Rua da Vergonha”, por exemplo. O filme segue Kuniko, uma jovem rapariga que é admitida num centro de reabilitação depois da Lei de Prevenção à Prostituição ter proíbido a sua fonte de rendimento. Mas criar uma nova vida é traiçoeiro – como se a câmara denunciasse a dificuldade de um “anjo caído” poder vir a encontrar a redenção num meio social que não parece conceber a absolvição moral. Ao abordar mais uma vez um assunto desafiante e polémico, Tanaka pinta um retrato empático de uma comunidade frágil de
mulheres indomáveis feitas párias por um mundo opressivo em que a sororidade parece ser a única porta de saída.
Comentários: “Voltando à temática da prostituição, o filme começa com uma sequência em estilo de reportagem, onde são destacadas as leis anti-prostituição que entraram em vigor no Japão, em 1958, e que vieram decretar o encerramento dos bordéis e a criação de inúmeros reformatórios para a integração das ex-prostitutas na sociedade. Para além de evocar o título de uma das obras de Mizoguchi na qual Tanaka interpretara o papel de prostituta, [«Mulheres da Noite»] (1948), a intriga do seu filme de 1961 poderia quase ser encarada como uma continuação do precedente: [«Mulheres da Noite»] acompanha os destinos de várias destas raparigas e mulheres da noite que, após se verem subitamente condenadas à ilegalidade, são reunidas na mesma instituição com vista à “correção” dos seus comportamentos desviantes e das suas perversões sexuais.” – Bárbara Janicas in “Kinuyo Tanaka do outro lado da câmara: quatro filmes para descobrir” publicado no site À Pala de Walsh.
22 fevereiro | 21h
A senhora Ogin
Ogin-sana (1962)
Título Original: Ogin-sama, Realização: Kinuyo Tanaka, Baseado no Romance de: Tôkô Kon, Argumento: Masahige Narusawa, Direcção de Fotografia: Yoshio Miyajima, Música: Hikaru Hayashi, Direcção de Arte: Junichi Ôsumi, Produção: Shigeru Wakatsuki, Sennosuke Tsukimori, Elenco: Ineko Arima, Tatsuya Nakadai, Meiko Takamine, Osamu Takizawa, Kôji Nanbara, Manami Fuji, Yumeji Tsukioka, Hisaya Itô, Keiko Kishi, Ganjirô Nakamura, Kuniko Miyake, Minoru Chiaki, Chishû Ryû, Cores, 101 minutos.
Sinopse: No final do século XVI, quando o cristianismo vindo do Ocidente foi proscrito no Japão, a Senhora Ogin apaixona-se pelo samurai Ukon Takayama, que é um devoto cristão. O guerreiro recusa os seus avanços, preferindo dedicar-se à sua fé, e Ogin acaba por casar com um homem que não ama. Mas, alguns anos depois, Ukon regressa e confessa o seu amor por ela. Ogin, que é filha do famoso mestre de chá Rikyû, quer recuperar a sua liberdade, mas o arguto Hideyoshi, que reina sobre o país, iniciou as perseguições anti-cristãs…
Posicionamento: Baseado num romance do escritor Tôkô Kon, o último filme de Kinuyo Tanaka como cineasta – e também o de orçamento mais caro – retrata os esforços de Ogin, uma mulher reivindicando a honestidade do amor na cultura Momoyama (por volta de 1568 a 1600), característica por ser adversa à transparência das emoções. Sem dúvida, a componente mais fascinante de “Senhora Ogin” é essa condensação da imagem da mulher, ela que apenas parece compreender o amor terreno e desafia a ordem sagrada, demasiado fria e abstracta, do homem que ama, mas que não a pode amar de volta. Há nos encontros de Ogin e Ukon, esse cristão temente a Deus (Ukon usará precisamente a palavra em português quando se refere à Providência,
relembrando a influência lusa no País do Sol Nascente), uma atmosfera transgressiva que corresponde ao encontro entre a castidade e o desejo inquietante provocado, justamente, pela figura feminina. Esses momentos de extrema tensão e desejo são realmente brilhantes, sendo que toda a intriga política, inclusive a tímida presença histórica de Sen no Rikyû, empalidece perante os gestos contidos, as palavras subentendidas e os sentimentos reprimidos dos dois amantes “crucificados”. Nesse sentido, por enaltecer a subversão feminina acima de qualquer retrato histórico masculino, Tanaka é aqui mais mizoguchiana do que nunca: não é o caso do coração da mulher ser “baixo e volúvel” (como escrevia Saikaku Ihara no romance que daria origem à “A Vida de O’Haru” de 1952), mas o sacrifício que ela pratica por amor faz que as pulsões mundanas reencontrem o Deus vago das palavras do seu homem na morte, mais apaziguadora do que contestatária. O romance voltaria a ser adoptado ao cinema por Kei Kumai em 1978.
Comentários: “A filmagem em traje, característica do jidai-geki [filme de época], é considerada difícil pelos estúdios, e apenas cineastas experientes estão autorizados a executá-la, pois o género acaba por ser uma provação para aqueles que se foram preparando. Kinuyo Tanaka leu o romance “Ogin-sama” em 1956, aquando da sua publicação numa revista, como costuma ser hábito na literatura japonesa. A obra é assinada por Tôkô Kôn, um escritor de prestígio feito monge budista e amigo íntimo de Yasunari Kawabata. Tanaka, acabada de sair das filmagens de «Para Sempre Mulher», terá dito que leu o romance trinta vezes, de tão obcecada que estava com a ideia de levá-lo para a tela. «Eu adoraria trazer a minha experiência de quinze anos no género jidai-geki com Kenji Mizoguchi. Se o mestre ainda estivesse vivo, de certeza que eu teria feito este filme enquanto actriz», declarou mais tarde. (…) Em 1954, três actrizes próximas de Tanaka (Yoshiko Kuga, Ineko Arima e Keiko Kishi) decidiram criar a sua própria produtora, seguindo os passos da pioneira Takako Irie. Baptizada de Ninjin Club, esta empresa teria como objectivo fazer filmes de forma independente, longe dos cadernos de encargos dos estúdios.” – Pascal-Alex Vincent in Kinuyo Tanaka: Réalisatrice de l’âge d’or du cinéma japonais, ed. Carlotta Films.
KINEMA JUNPÔ
É a revista especializada em cinema mais antiga do Japão, se não do mundo. A Kinema Junpô foi lançada em Julho de 1919, cessando a publicação de 1943 a 1945 devido à Segunda Grande Guerra. Ainda é considerada hoje a voz crítica mais poderosa e relevante do Japão. Os prémios anuais dos “10 Melhores Filmes”, votados pelos críticos, começaram em 1924, e fornecem o melhor indicador [de qualidade] e do que é popular no Japão a qualquer momento da sua História. O prémio de melhor filme era originalmente designado para lançamentos estrangeiros sendo que a versão japonesa teve origem só em 1926,
quando foi conquistado por The Woman Who Touched Legs de Yutaka Abe, marcando um novo período de confiança na produção doméstica. Em 1999, para comemorar o 80º aniversário da revista, os críticos votaram nos melhores filmes japoneses de todos os tempos com Sete Samurais (1954) de Akira Kurosawa, Nuvens Flutuantes (1955) de Mikio Naruse, e Straits of Hunger (1963) de Tomu Uchida a ocuparem as três primeiras posições.
A entrada acima foi retirada de Historical Dictionary of Japanese Cinema (2011) de Jasper Sharp, editado pela Scarecrow Press, e foi traduzida e adaptada por Miguel Patrício.
Miguel Patrício: É licenciado em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA), onde também terminou o mestrado em Cinema e Televisão com uma dissertação sobre cineastas japoneses intitulada “Sístoles e Diástoles: Uma Perspectiva sobre a Art Theatre Guild”. Desde 2007, escreve e dirige palestras sobre cinema japonês. As suas críticas podem ser lidas online, especialmente no site À pala de Walsh com quem colabora desde 2016. Artigos da sua autoria foram publicados em Kiju Yoshida: El cine como destruccíon (Buenos Aires International Independent Film Festival, 2011) ou O Cinema Não Morreu: Crítica e Cinefilia À pala de Walsh (Linha de Sombra, 2017). No que diz respeito a palestras, destacam-se as que deu em Guimarães no CAAA (Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura) em 2013, e em Lisboa, no contexto da EAJS (European Association for Japanese Studies) de 2017. Desde 2018, tem participado como professor em cursos livres, leccionando matérias relacionadas com cinema e fotografia do Japão. Em 2021 e 2022, curou os ciclos de cinema “Mestres Japoneses Desconhecidos”, I e II edição, distribuídos pela The Stone and the Plot.
AMIGO DA
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