Na sequência da realização no fim-de-semana de 30 de setembro/1 de outubro do III Encontro Luso-Espanhol (Desafios do Século XXI), que reuniu um excepcional conjunto de especialistas espanhóis e portugueses nos diversos temas tratados, convidados das Fundación Duques de Soria e Fundação D. Luís I, decorreu em Madrid, em 28 de outubro, na Igreja de Santo António dos Alemães (inicialmente dos Portugueses, até que, em 1689, Mariana de Áustria, a cede aos católicos alemães que a acompanharam a Madrid), no típico bairro de Malasaña, um concerto do MPQCascais (com uma composição especial: Jill Lawson, piano; Henrikh Elessine, violoncelo; Leonor Braga Santos, viola; Álvaro Pereira, violino) que obteve um assinalável êxito entre o público que praticamente enchia o espaço. Foram tocadas obras de Fernando Lopes-Graça, Joly Braga Santos, Eurico Carrapatoso e Armando José Fernandes.

A Igreja de Santo António dos Portugueses é um templo católico barroco fundada a expensas de nobres e comerciantes portugueses que viviam em Madrid no tempo de Filipe III de Espanha e II de Portugal, que a protegeu. Serviu, com o hospital contíguo, para acolher os doentes e peregrinos portugueses que passavam por Madrid, tendo nela trabalhado vários mestres em distintas etapas, como Francisco Seseña, Pedro Sánchez e Juan Gómez de Mora, Francisco Ricci, Francisco Carreño de Miranda e Lucas Jordán. Algumas das esculturas de Santo António de Lisboa que adornam a igreja são da autoria do português Manuel Pereira, que viveu em Madrid e foi muito apreciado como escultor de mérito.

A igreja está desde 1880 ligada à Irmandade del Refugio, associação de benemerência fundada em 1615 pelo padre Bernardino de Antequera para socorrer os necessitados e acolher as crianças abandonadas. Como curiosidade, esta irmandade, que desempenha ainda hoje, como outras organizações mais seculares criadas no Século XVII, um papel muito importante no apoio a pessoas desfavorecidas, foi sempre constituída por aristocratas e comerciantes ricos, que percorriam as ruas de Madrid para alimentar e/ou transportar para os hospitais quem necessitasse. O aspecto curioso deste exemplar labor beneficente reside no facto de que estava vedado aos membros da Irmandade transferir essas tarefas para os seus serviçais, pelo que eram eles próprios que transportavam, em liteiras especialmente concebidas para o efeito, os doentes que encontravam nas ruas. Hoje, a Irmandade, que colaborou com a Fundación Duques de Soria e a Fundação D. Luís I na organização do concerto, chega a atender por dia cerca de trezentos necessitados, a quem fornece refeições, roupa, alojamento e higiene.  Saliente-se que as crianças de 1 a 3 anos oriundas de <<famílias desestruturadas, no limiar da pobreza ou socialmente desfavorecidas>> são acolhidas no Centro de Educação Infantil.

Sobre a igreja conta-se ainda que num dos períodos conturbados da História do país vizinho, quando alguns milicianos demonstravam a sua aversão à Igreja através do incêndio de templos, as mulheres da Calle de la Ballesta, zona de prostituição, não terão permitido que tocassem no de Santo António dos Alemães.

Com o concerto, poderá dizer-se que os portugueses, acompanhados por amigos espanhóis e cidadãos de outras origens, regressaram à igreja não para afirmar quaisquer direitos históricos que lhes pudessem hipoteticamente caber, mas para dar a conhecer a qualidade dos seus compositores e intérpretes.

À Hermandad del Refugio e à Fundación Duques de Soria quer o Conselho Directivo da Fundação D. Luís I manifestar o seu apreço e agradecimento por mais um notável momento de partilha cultural.

Em baixo: Os Duques de Soria assistem ao concerto do MPQ Cascais

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