Conheci pessoalmente Júlio Conrado (Custódio) em 1989, quando fizemos parte da Comissão Organizadora do I Congresso de Escritores de Língua Portuguesa que decorreu nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian: ele e Alexandre Babo representavam uma das entidades (APE) que estiveram na génese dessa ambiciosa reunião, enquanto Edite Estrela e eu tínhamos sido indicados pela outra (SPA). Logo nessa altura pude identificar com facilidade as qualidades fundamentais do carácter do escritor de Desaparecido no Salon du Libre (irónico romance sobre as peripécias de um pobre escritor português escolhido à última hora para representar o nosso país nesse conhecido Salon e em que uma das personagens [honra minha] é baseada na actividade de professor universitário que desenvolvi e outra na de um cineasta meu amigo que connosco partilhava o desagrado pela acção dita de <<príncipe>> de um certo ministro da Cultura): honestidade intelectual, frontalidade, dedicação ao trabalho, inteligência prática.
Mais tarde, há cerca de 27 anos, quando fui convidado pelos então Presidente e Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Cascais para Administrador-Delegado da novel Fundação D. Luís I, reencontrei Júlio Conrado (embora tivesse nascido em Olhão [1936] vivia desde a infância primeiro em Sassoeiros e depois em S. João do Estoril) que tinha sido convidado por José Jorge Letria para Director Executivo da referida instituição cultural. Se porventura algumas dúvidas existissem (e não existiam: amigos comuns que com ele mais conviviam já há muito tinham confirmado os traços da sua personalidade) sobre a veracidade daquelas características que elenquei atrás, tê-las-ia perdido de imediato: mantinham-se todas intactas, sendo que a elas pude acrescentar a lealdade. Ao longo dos muitos anos que trabalhámos juntos (e juntos significa, neste caso, em dois gabinetes separados por um tabique com uma porta que nunca esteve fechada) jamais o Júlio deixou de dizer o que pensava (às vezes com aquela aspereza que quem o conhecia mal julgava ser outra coisa que não frontalidade), de discutir (e como gostava de o fazer) o que entendia ser discutível e de ser leal: da nossa relação franca e disponível julgo terem saído muitas das virtudes (e certamente defeitos) que possam ser atribuídas à Fundação.
E entre estas virtudes está a total e completa paixão por Cascais e pelas suas gentes: com o Júlio, vi (eu que sou um «noroestino») como era amar esta terra e dedicar-lhe o melhor que está ao nosso alcance. Ao contrário de tantos que mostram a necessidade constante de encher a boca com loas (sobretudo presunçosas) a Cascais para propalar aos ventos uma paixão baseada em valores serôdios (e frequentemente míticos), o Júlio Conrado, que hoje, 29 de Janeiro, nos deixou às 03:00 horas, amava realmente a terra «cascaense» (como teimava em dizer) e provou-o com o seu trabalho diário de colaborador da Fundação D. Luís I e escritor (não sei ao certo quantos poemas dedicou a Cascais mas foram muitos).
Uma derradeira exortação muito pessoal: quem não tiver ainda tido a oportunidade de ler Era a Revolução (na edição revista) deve fazê-lo, pois, como observa Eduardo Lourenço (citado por Serafim Ferreira no nº 86 de A Página da Educação), em carta ao escritor datada de 20 de Janeiro de 1978, trata-se na verdade de «um texto explosivo, libertador, em todos os sentidos do termo. Não nos falhou em tudo a falhada revolução. Ajustou caras a máscaras e subtraiu carne viva a máscaras. Já é alguma coisa. É mesmo muito.»
Recordaremos o seu empenho, a sua nobreza de carácter e a teimosia exemplar de quem acredita no que pensa e não tergiversa: honra a Fundação tê-lo tido como colaborador.
Salvato Teles de Menezes
Veja mais um artigo: Faleceu Júlio Conrado, por José d’Encarnação
Fotografias: em cima, Júlio Conrado com o casal Bonnefoi, por ocasião da exposição Pintura de Christian Bonnefoi no Centro Cultural de Cascais; em baixo, José de Matos Cruz, José d’Encarnação, Salvato Teles de Menezes e Júlio Conrado no Centro Cultural de Cascais


