Auditório Carlos Avilez
Academia de Artes do Estoril
Edifício Cruzeiro
12, 19 e 26
Jan ’26
Sessão às 21h00
26 Jan 18h30 / 21h
Em 2026, (quase) todos os géneros cinematográficos irão dar ao Auditório Carlos Avilez, no Estoril. Ao longo do ano e todas as segundas-feiras (salvo honrosas excepções), a Fundação D. Luís I propõe um programa que (re)visita alguns dos principais exemplos desses modelos que nasceram com a Sétima Arte e que se enraizaram enquanto formas de contar histórias por meio de imagens e sons.
Cada género terá direito ao seu mês. Começamos pelo “género dos géneros”, o western, principal criador de mitos sobre o nascimento e a gesta de uma nação, a América. Seguir-se-ão muitos outros, da comédia ao terror, do musical à ficção científica, com paragens de permeio nos apeadeiros do melodrama, do thriller ou da animação, entre outros. A viagem terá como centro a “fábrica de sonhos” por excelência que foi a Hollywood clássica, mas espraiar-se-á por diversas épocas, geografias e latitudes, num movimento que se estende por uma pluralidade de contextos socioculturais e que, como não podia deixar de ser, funcionará também como (mais) uma mini História do Cinema.
A cada passo, identificaremos fórmulas e códigos, mas também a subversão de convenções, temas e estilos, traçando-se assim os contornos de universos em permanente mutação e actualização, longe de eventuais realidades cristalizadas. Por isso mesmo, a par de artesãos e “cineastas de género”, encontraremos igualmente autores das mais díspares sensibilidades, nuns casos pegando nessas “molduras comuns” para melhor explorar obsessões pessoais e idiossincrasias muito particulares, noutros “apagando-se” voluntariamente perante a força de arquétipos entronizados e assim paradoxalmente se reinventarem.
Entre a alegria do reconhecimento e o prazer da surpresa, entre o cânone e as suas múltiplas declinações, não faltarão portanto motivos de fruição de um “jogo” onde caberiam naturalmente outros tantos (sub)géneros e intervenientes. Que venham os próximos capítulos…
Vasco T. Menezes
No Merriam Webster Dictionary a definição de género é a seguinte: a category of artistic, musical, or literary composition characterized by a particular style, form, or content, o que significa que é uma designação que pode ser aplicada praticamente a todas as manifestações artísticas, desde a literatura ao cinema, passando pela música, pelas artes visuais e performativas.
No cinema, género é uma categoria lata que classifica as produções cinematográficas com base em determinadas características partilhadas que incluem convenções narrativas, temas e estilos visuais. Estas categorias fornecem uma moldura para o modo como se compreendem e interpretam os filmes, permitindo igualmente antecipar de alguma maneira as reações e expectativas do(s) público(s). Os géneros podem subdividir-se em subgéneros, i. e., categorias mais especializadas que apresentam traços específicos, como temas, cenários ou elementos estilísticos (estilemas): por exemplo, os filmes de terror têm vários subgéneros que facilitam a identificação de certos modelos narrativos (gore é um caso). Por outro lado, importa referir que quer géneros quer subgéneros podem ser objecto de contaminação: provavelmente será difícil encontrar na presente realidade da produção cinematográfica mundial exemplos de géneros ou subgéneros “puros”, como acontecia no cinema clássico.
Ao longo de 2026 a Fundação D. Luís I irá percorrer, no Auditório Carlos Avilez, muitos géneros e subgéneros cinematográficos apresentando filmes cuja genologia é mais ou menos facilmente identificável.
STM
CINEMA NO CRUZEIRO
MÊS DO WESTERN
12, 19 e 26 de janeiro de 2026, no Cruzeiro
Le western est le seul genre dont les origines se confondent presque avec celles du cinéma et que près d’un demisiècle de succès sans éclipse laisse toujours aussi vivant. […] Chaque influence agit sur lui comme un vaccin. Le microbe perd, à son contact, sa virulence mortelle […] le western ne vieillit pas.
André Bazin, “Le western ou le cinema américain par excellence” (1953)
Bueno, cuando yo frecuentaba el cinematógrafo, cuando mis ojos podían ver, a mí me gustaban mucho dos tipos de películas: los western y las películas de gángsters. Sobre todo las de Josef von Sternberg. Yo pensaba: qué raro, los escritores han olvidado que uno de sus deberes es la épica y aquí está Hollywood que, comercialmente, ha mantenido la épica. En una época que está olvidada por los escritores; o casi olvidada. Y Hollywood ha salvado ese género: ese género que la humanidad necesita, además. Usted ve que las películas de cowboys son populares en todo el mundo. ¿Por qué? Bueno, porque está lo épico en ellas. Está el coraje, está el jinete, está la llanura también.
Jorge Luís Borges, Excerto de uma entrevista
12 Jan | 21h
A Quadrilha Selvagem/ The Wild Bunch
(1969) Realização: Sam Peckinpah | Intérpretes: William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brien Warren Oates, Jaime Sanchez, Ben Johnson, El Índio Fernández, Strother Martin, etc. | 145 minutos. Legendado em português.
Com argumento de W. Green e do próprio S. Peckinpah, fotografia (technicolor, Panavision) de Lucien Ballard e montagem de Louis Lombardo, A Quadrilha Selvagem é um filme selvagem como o título antecipa, uma reflexão sobre a violência e o seu fascínio devastador: obra traumática, que desprezou muitas das convenções figurativas estabelecidas, precipita o espectador na sugestão de um inferno que parece premiar apenas os mais oprimidos e humildes, se bem que à custa de terríveis sofrimentos. Discutido e discutível como todos os filmes do realizador, tem no seu centro cinco magníficos que o iluminam com a as suas tensões ferinas e o culto da amizade masculina, da fraternidade, sendo que, contudo, o verdadeiro protagonista é a morte, representada frequentemente ao retardador, com grande derramamento de sangue e a obscura fascinação de um ballet trágico: um western histórico que renega toda a história americana (oficial) sobre o Oeste e destrói com rara virulência os mitos da conquista, da pureza heróica, do patriotismo puritano.
STM
19 Jan | 21h
A Noite Fez-se para Amar/ McCbe and Mrs. Miller
(1971) Realização: Robert Altman | Intérpretes: Warren Beatty, Julie Christie, René Auberjonois, Hugh Millais, Shelley Duvall, Michael Murphy, John Schuck, Corey Fisher, William Devane, Keith Carradine, etc. | 121 minutos. Legendado em inglês.
Entre história e mito, tradição e inovação, algumas frases do realizador ilustram bem o que pretendeu que o seu filme fosse: “Este filme tem todas as características do western tradicional mas tratadas segundo uma perspectiva distinta. […) Quero que o espectador se sinta à vontade e aceite o filme […] antes de eu começar a fazer alterações.” Acumulação de materiais e signos, portanto, num filme sugestivo na expressão e intrigante no conteúdo que se constrói com uma particular elegância narrativa de traços pictóricos e quase musicais. Assiste-se ao nascimento de uma nação, à relação entre um peculiar “casal”, à figuração de um inverno muito “fotogénico”, graças à fotografia de Vilmos Zsigmond, com Altman a exibir uma vez mais um tom cáustico e imagens severamente elegíacas: Pauline Kael chamou-lhe “um clássico moderno”.
STM
26 Jan | 18h30
Duelo no Deserto/ The Shooting
(1966) Realização: Monte Hellman | Intérpretes: Warren Oates, Will Hutchins, Millie Perkins, Jack Nicholson, B. J. Merholz, Cuy El Totsie, Charles Eastman, James Campbell Wally Moon, etc. | 82 minutos. Legendado em português.
Exibido, à boleia do êxito internacional de Jack Nicholson, em vários países muito depois da sua estreia americana, The Shooting é o resultado de uma longa aprendizagem na “fábrica” de Roger Corman pelos seus actor e realizador, i. e., com o mestre desenvolveram o gosto por uma produção bem confeccionada, de baixo custo, com uma narrativa assente na espessura psicológica das personagens. O tema da viagem, central na cultura americana, é encarado aqui como a tentativa impossível de sair do vazio da existência, com o destino das personagens a ter como emblema o confronto final no deserto.
STM
26 Jan | 21h
Johnny Guitar
(1953) Realização: Nicholas Ray | Intérpretes: Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes McCambridge, Scott Brady, Ward bond, Ben Cooper, Ernest Borgnine, John Carradine, Royal Dano, Frank Ferguson, etc. | 110 minutos. Legendado em português.
Rodado em Trucolor (um processo fotográfico adoptado por Republic Pictures e rapidamente descartado por óbvia insuficiência), o filme apenas exteriormente é um western tradicional: de facto, N. Ray realiza um melodrama barroco sobre o eterno conflito entre bem e mal, sobre amor e morte, em que a cor tem uma função dramática precisa (o branco é a cor de Vienna, a personagem interpretada por Crawford, e o preto da sua pérfida rival, aparecendo o vermelho nos momentos de confronto). Filme de culto para sucessivas gerações de cinéfilos, Johnny Guitar é, segundo F. Truffaut, “um western irreal, mágico, a bela e o monstro do western”, em que “os cowboys caem e morrem com a graça de bailarinos.” Relato de um pequeno apocalipse, o filme é também a denúncia do puritanismo americano e da “caça às bruxas” conduzida pelo Senador McCarthy.
STM
2026, o Ano de Todos os Géneros
Janeiro – WESTERN
A Quadrilha Selvagem/ The Wild Bunch (1969), de Sam Peckinpah; A Noite Fez-se para Amar/ McCabe and Mrs. Miller (1971), de Robert Altman; Johnny Guitar (1953), de Nicholas Ray; Duelo no Deserto/The Shooting (1966), de Monte Hellman
Fevereiro – COMÉDIA
As Férias do Senhor Hulot/Les Vacances de Monsieur Hulot (1953), de Jacques Tati; Dr. Estranho Amor/Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964), de Stanley Kubrick; Vejo Tudo Nu/Vedo nudo (1969), de Dino Risi; Annie Hall (1977), de Woody Allen
Março – MELODRAMA
O Monte dos Vendavais/Wuthering Heights (1939), de William Wyler; Fúria de Viver/Rebel Without a Cause (1955), de Nicholas Ray; O Grande Amor da Minha Vida/ An Affair to Remember (1957), de Leo McCarey; O Meu Maior Pecado/The Tarnished Angels (1957); Longe do Paraíso/Far From Heaven (2002), de Todd Haynes
Abril – MUSICAL
Serenata à Chuva/Singing in the Rain (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly; A Roda da Fortuna/The Band Wagon (1953), de Vincente Minnelli; Velvet Goldmine (1998), de Todd Haynes; As Canções de Amor/ Les chansons d’amour (2007), de Christophe Honoré
Maio – GUERRA
Baionetas Caladas/Fixed Bayonets! (1951), de Samuel Fuller; O Caçador/The Deer Hunter (1978), de Michael Cimino; Apocalypse Now – Final Cut (1979/2019), de Francis Ford Coppola; Estado de Guerra/The Hurt Locker (2008), de Kathryn Bigelow
Junho – THRILLER
O Tesouro da Sierra Madre/The Treasure of the Sierra Madre (1948), de John Huston; Ferro em Brasa/Charley Varrick (1973), de Don Siegel; Blow Out – Explosão/Blow Out (1981), de Brian De Palma; O Jogo/The Game (1997), de David Fincher; Eu Vi o Diabo/I Saw the Devil (2010), de Kim Jee-woon
Julho – ANIMAÇÃO
Pantera Cor-de-Rosa/The Pink Panther Cartoons (1964-65), de Friz Freleng e outros; O Estranho Mundo de Jack/Tim Burton’s The Nightmare Before Christmas (1993), de Henry Selick; Looney Tunes: De Novo em Acção/Looney Tunes: Back in Action (2003), de Joe Dante; Belleville Rendez-Vous/Les triplettes de Belleville (2003), de Sylvain Chomet
Agosto – DOCUMENTÁRIO
Punishment Park (1971), de Peter Watkins; Grey Gardens (1975), de Albert Maysles e David Maysles; O Homem dos Músculos de Aço/Pumping Iron (1977), de George Butler e Robert Fiore; Burden of Dreams (1982), de Les Blank; Donos de Estimação/Best in Show (2000), de Christopher Guest
Setembro – FICÇÃO CIENTÍFICA
O Dia em que a Terra Parou/The Day the Earth Stood Still (1951), de Robert Wise; Estrela Negra/Dark Star (1974), de John Carpenter; Aliens: O Recontro Final/Aliens (1986), de James Cameron; Planeta dos Macacos/Planet of the Apes (2001), de Tim Burton
Outubro – TERROR
Frankenstein (1931), de James Whale; Psico/Psycho (1960), de Alfred Hitchcock; A Vítima do Medo/Peeping Tom (1960), de Michael Powell; A Noite dos Mortos-Vivos/Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero
Novembro – POLICIAL
Relíquia Macabra/The Maltese Falcon (1941), de John Huston; À Beira do Abismo/The Big Sleep (1946), de Howard Hawks; Os Incorruptíveis Contra a Droga/The French Connection (1971), de William Friedkin; A Fúria da Razão/Dirty Harry (1971), de Don Siegel; O Profissional/The Driver (1978), de Walter Hill
Dezembro – SUSPENSE
Mentira/Shadow of a Doubt (1943), de Alfred Hitchcock; Que Teria Acontecido a Baby Jane?/What Ever Happened to Baby Jane (1962), de Robert Aldrich; O Obcecado/The Collector (1965), de William Wyler; O Plano/A Simple Plan (1998), de Sam Raimi
AMIGO DA
FUNDAÇÃO




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